Pandemia, dólar e exportações: veja os motivos da alta nos preços dos alimentos básicos no Brasil

“Imagina você deixar uma nota de R$ 50 no supermercado e voltar só com um kg de carne?” A indagação do administrador mineiro José Eduardo está na boca de muitos brasileiros nos últimos meses. A alta nos preços dos alimentos básicos, sentida desde o final do ano passado, está exigindo muitas estratégias para tentar economizar nas compras do mês.
“Lá em casa, carne virou frango. Teve uma semana em que comemos frango todos os dias para tentar manter as proteínas. Aí que entra a criatividade, não é? Fazemos frango frito, frango cozido, frango assado e por aí vai”, disse o administrador em risos.
De fato, a carne obteve um aumento significativo em seu preço. Só em 2020, o preço da proteína preferida dos brasileiros subiu 18% de acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), ficando bem acima da inflação, que aumentou em 4,52%.
Entretanto, não somente a carne registrou essa alta nos índices de preços, mas também a grande parte dos alimentos contidos na cesta básica. Um levantamento divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que o preço médio da cesta básica aumentou em todas as 17 capitais brasileiras ao longo de 2020. Em algumas cidades, o custo médio ficou acima dos R$ 600, mesmo valor do extinto auxílio emergencial concedido pelo Governo Federal.
Segundo especialistas, os motivos variam, mas juntos, colaboram para que o consumidor se assuste na hora de fazer as compras no supermercado.
A alta do dólar + expressiva demanda de exportação
Nos jornais, falar sobre a alta do dólar já virou notícia velha. Hoje (27/01), US$1 (um dólar americano) equivale a R$ 5,40 (cinco e quarenta reais). Justamente por essa discrepância entre as duas moedas, os produtores brasileiros preferem exportar, ou seja, vender seus produtos para outros países, do que investir no mercado nacional, já que o recebimento dessas exportações são por meio de dólares.
Sendo assim, para que se possa manter esses alimentos aqui no Brasil, é necessário que saia mais dinheiro do bolso do consumidor. Muitos alimentos, como o arroz, por exemplo, que poderiam ser comprados em outros países, foram negociados aqui no Brasil. Isso aconteceu porque muitos países, como a Índia, limitaram a exportação de alimentos básicos, pensando em uma previsão da alta de preços desses alimentos para os indianos. Com muitos mercados fechados, o que se abriu foi o Brasil, que continuou exportando, causando uma elevação do custo da cesta básica no país.
Com a alta exportação, esses alimentos, além de mais caros, começam a ficar escassos no Brasil, limitando a quantidade de itens comprados pelos consumidores. Em muitos supermercados brasileiros, a compra do arroz está limitada por cliente, já que começou a faltar nos postos finais de venda.
No caso da carne, em 2020, o Brasil exportou 1,021 milhão de toneladas de carne suína in natura e processada, segundo levantamento divulgado no início do mês de janeiro deste ano, pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
E boa parte dessa exportação foi direto para a China, já que houve uma diminuição na demanda da Rússia, dos Estados Unidos, Egito e Chile, países que também compram a carne brasileira. Essa queda se deve, justamente, pela alta do dólar, de acordo com o site da BBC News Brasil. Só em 2020, a carne bovina brasileira comprada pela China chegou ao marco de 40,5%, sendo que em 2019, essa porcentagem ficou em 25,3%, quase dobrando o índice de participação do país asiático nos embarques brasileiros.
Os preços e a pandemia: da corrida aos supermercados até o auxílio emergencial
Muita gente correu aos supermercados no início da pandemia aqui no Brasil para tentar estocar alimentos. Os preços mais em conta do início de 2020, fizeram com que muitos consumidores comprassem mais itens nos supermercados, pelo medo do lockdown e da falta dos alimentos por causa da pandemia.
Juntamente com isso, as compras aumentaram no quesito quantidade, já que muitos trabalhadores e estudantes passaram a ficar em casa em regime remoto ou de home office, trazendo a escola e o trabalho para as residências. Esse movimento fez com que aumentassem as refeições feitas em casa e, consequentemente, a demanda por alimentos básicos também subiu.
Além disso, o auxílio emergencial de R$ 600 colaborou para que mais brasileiros fossem aos supermercados na busca de alimentos básicos. Com o intuito de, justamente, auxiliar a não faltar comida na mesa de grande parte dos brasileiros, o auxílio emergencial foi usado, primordialmente, para comprar comida.
Não tinha como, o preço iria subir
Considerando o contexto pandêmico e as exportações dos alimentos brasileiros, o preço realmente iria subir. Em uma regrinha básica de oferta e demanda, se tem a explicação: com a grande procura dos consumidores pelos alimentos, movida pelas corridas aos supermercados e pelo aumento da quantidade de compras realizadas, o preço desses alimentos logicamente subiria. Juntando essa grande procura com a baixa oferta desses alimentos, já que grande parte deles estavam indo para outros países por meio das exportações, viabiliza-se o resultado atual.
O Governo até tentou intervir na economia para trazer mais liquidez aos preços, zerando algumas tarifas e até pedindo “patriotismo” aos donos dos supermercados para que diminuam os preços por eles só. Entretanto, segundo especialistas, isso pouco resolveria a situação.
Quando perguntado sobre a alta dos preços de alimentos básicos no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro culpou o “fique em casa”, se referindo às medidas de distanciamento social e quarentena realizadas no início da pandemia em 2020. “Os alimentos têm subido sim, além do normal e eu lamento isso daí, mas é uma consequência do ‘fique em casa’, quase quebraram a economia”, afirmou o presidente à apoiadores no Palácio do Planalto.
Como burlar a alta dos preços para não faltar alimento em casa?
“Eu tenho usado adaptações para poder não faltar. Estamos trocando carne por frango e ovos, e legumes e verduras só compro os mais em conta”, disse a professora Ana Carolina, que tem em casa duas filhas pequenas. “A gente precisa rebolar para tentar fazer com que elas não sintam a falta de alguns alimentos, mas é difícil. Estamos fazendo muita pesquisa de preço e mesmo assim não está diferenciando muito”, completou.
Em momentos de crise, como o atual, demanda-se do brasileiro que utilize da criatividade e da inteligência financeira para que não falte nada. Como se não bastasse a alta dos preços, o reajuste para R$ 1.100 do salário mínimo em 2021 não cobre a alta da inflação, segundo números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com o gestor financeiro Gladson Norberto, é importante lembrar que boa parte da população não tem acesso nem a esses R$ 1.100. “Fica claro que esse valor é bem baixo para as despesas do mês, dessa forma, o brasileiro tem que fazer “malabarismo””, ressalta.
Sobre esse “malabarismo”, Norberto deu algumas dicas para que o consumidor possa passar por esse momento de forma mais leve. Dentre elas, ele afirmou que o diálogo entre as famílias é muito importante. “Os gastos são em conjunto e todos têm que fazer sua parte, abrir mão de algo, nem que seja temporário, para que as contas do mês possam fechar”, disse.
Além disso, o gestor apoiou as estratégias de Ana Carolina e José Eduardo, que estão substituindo alguns alimentos. “Se não tenho dinheiro suficiente para comprar a marca de minha preferência (a mais cara) vai a mais barata mesmo; se não posso comer carne vermelha, vou de frango; se tenho espaço na minha casa, vou plantar uma horta e economizar nas verduras, vale até criar galinha para economizar no ovo! Criatividade e bom senso são a chave para essa situação”, completou o gestor.
