Um minuto de silêncio será pouco para homenagear Marília Mendonça
Entretanto, silenciar-se em respeito à morte da cantora pode evitar que artigos veiculados em jornais de grande alcance no Brasil, a retrate somente como uma "gordinha que venceu na vida"

Há tradições que realizamos em nossas vidas, que seus significados, em muitas ocasiões, passam despercebidos. Já parou para pensar no sentido de fazer o “um minuto de silêncio” para quando alguém falece? É quase automático… Olhamos para baixo, juntamos as mãos e nos calamos, mantendo em movimento apenas as andanças dos pensamentos, que nesses casos, estão cobertos pela tristeza e pela dor do luto.
Mas ficar em silêncio em prol de quem já se foi, é um ato de respeito. Respeito pela vida, pela pessoa, pelo que esse ser representou, pelo que ele realizou, por sua família e por todos que o amam. A falta das palavras, nesse momento, simboliza o afastamento da necessidade de se expressar ou de se fazer ouvido, para que todos que estão sofrendo com a perda, saibam que o propósito, agora, é se interiorizar e sentir.
Na última sexta-feira (5), o Brasil ficou em silêncio após perder uma de suas maiores vozes. Dona de um movimento que enaltece as mulheres e que muda estruturas machistas tão consolidadas dentro da música popular brasileira, Marília Mendonça faleceu após o avião em que estava cair na cidade de Caratinga, no interior de Minas Gerais, onde a cantora faria um show. Fatal, o acidente deixou mais quatro mortos, dentre eles, o piloto e co-piloto, além do produtor e do tio de Marília. Ninguém que estava dentro do avião sobreviveu.
A morte da cantora, de 26 anos, que deixou um filho que fará dois anos em dezembro, comoveu o país inteiro. Mesmo muito nova, Marília estava no auge de sua carreira, com novos projetos e composições, mas também carregava grandes números e premiações que a elevaram ao patamar de uma das maiores intérpretes do Brasil.
Dentro do sertanejo, Marília, sem pretensões, alargou um caminho que ainda era estreito dentro do gênero musical – ela abrigou as mulheres, que eram retratadas de uma forma tão subjugada nas canções, e as colocou como donas de sua própria história.
Para quem já ouviu da voz de Sérgio Reis…
“Dona de casa tem que ser mulher madura, porque ao contrário o problema se amontoa. Não interessa se ela é coroa, panela velha é que faz comida boa.”
…ouvir Marília Mendonça dizendo…
“Não venha, não. Eu vivo do jeito que eu quero, não pedi opinião. Você chegou agora e tá querendo mandar em mim, Da minha vida cuido eu. Deitou na minha cama e quer dormir com o travesseiro”
…percebe que o mundo do sertanejo evoluiu de maneira significativa na tratativa da realidade feminina.
E o Brasil percebeu isso. Por aqui, o sertanejo cantado por Marília Mendonça, Maiara e Maraísa, Simone e Simaria, Naiara Azevedo e tantas outras, é denominado de feminejo – ou seja, vem perdendo as amarras de um gênero, que em outros tempos, foi dominado pela visão masculina, inclusive se utilizando dessa ótica para falar do comportamento das mulheres.
Após lançar “Infiel”, Marília lançava também o feminejo. O seu primeiro hit, retratou, muito possivelmente, pela primeira vez no Brasil, a visão da mulher quando é traída em relacionamentos amorosos, mas não colocando-a como uma mera vítima da situação, mas sim como uma mulher que escolhe não se submeter a esse relacionamento mais.
“Iêêê, infiel. Eu quero ver você morar num motel. Estou te expulsando do meu coração. Assuma as consequências dessa traição.”
Nessa levada, a cantora, que também é compositora, foi emplacando hit atrás de hit, e sempre retratando a visão da mulher em relacionamentos amorosos, sendo que isso, não necessariamente, tirava a sensibilidade feminina nas músicas. Mostrando uma certa vulnerabilidade, Marília interpretava canções consideradas como “sofrência”, normalizando o fato de que dá para sofrer de amor, mas com consciência – sem colocar aquele homem que traiu como o último homem da Terra, numa tentativa insana de reconquistá-lo a todo custo.
E foi por quebrar esse paradigma tão estigmatizado, que Marília fez seu nome dentro da música popular brasileira. E aqui é importante frisar – não somente dentro do sertanejo, mas na música brasileira como um todo. A cantora levou mensagens que o feminismo acadêmico tentou propagar há tantos anos em textos e discursos, em canções populares, consumidas pelo povo, que viralizaram e irão viralizar em proporções muito maiores do que um artigo.
Os autores Germano André Doederlein Schwartz, Vanessa Chiari Gonçalves e Renata Almeida da Costa, pontuaram esse movimento do feminejo de Marília Mendonça no trabalho intitulado A ARTE POPULAR COMO MOVIMENTO SOCIAL: UMA INTERLOCUÇÃO ENTRE O GÊNERO MUSICAL FEMINEJO E OS FEMINISMOS.
– De qualquer forma, enquanto o feminismo intelectualizado não desperta para essa necessidade, a arte popular do feminejo se apresenta como resistência. A música atua humanizando demandas e decepções afetivas, carnavalizando tabus e atuando como espaço de luta por igualdade, ainda que não declarada. Nesse sentido, esse gênero musical, que surgiu recentemente no Brasil e conquistou a simpatia dos diferentes estratos sociais, incluindo os populares, parece caminhar em direção a uma práxis libertadora, uma vez que a arte influencia as representações sociais das pessoas.
E por todo esse esforço, a cantora conquistou feitos que serão difíceis de superar. Marília fez história quando fez uma live durante a pandemia, dentro de casa, sentada, sem grandes recursos e bateu a marca de live mais vista no YouTube: sozinha, a cantora atingiu 3,3 milhões de acessos simultâneos, em maio de 2020. Ainda na plataforma, Marília tem 22 milhões de inscritos em seu canal, sendo que seus vídeos acumulam 14 bilhões de visualizações.
Além disso, a dona do feminejo também ganhou prêmios que qualquer cantor deseja para sua carreira. Marília foi indicada pela primeira vez ao Grammy Latino em 2017, disputando na categoria Melhor Álbum de Música Sertaneja. Mas, conquistou o troféu em 2019, quando levou o prêmio pelo projeto “Em Todos Os Cantos”.
Marília foi gigante! E por ela, todos os minutos de silêncio em sua homenagem não serão o bastante.
Mas são necessários. E infelizmente, muita gente, literalmente, perdeu a oportunidade de ficar calado.
Ao invés de se agarrarem aos grandes feitos que a cantora fez em sua carreira, influenciando diretamente em uma cultura deveras consolidada, um colunista preferiu retratar a forma física de Marília Mendonça.
Escrevendo para a Folha de S. Paulo, o colunista e professor Gustavo Alonso foi acusado de machismo e gordofobia no obituário que teria feito em “homenagem” à cantora. Alguns trechos de seu texto demonstram uma significativa e triste insensibilidade com uma mulher que acabou de falecer.
“Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso: Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha)”, escreve Alonso.
“Marília era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a muitos. Tornava-se também bela para o mercado”, completou o professor.
Muito criticado nas redes sociais, o artigo chamou a atenção, inclusive, de outros colunistas da Folha, que fizeram questão de criticar a postura de Gustavo. A jornalista Mariliz Pereira Jorge, com seu artigo intitulado “Gordofobia não perdoou Marília Mendonça nem no dia de sua morte”, publicado na mesma Folha de S. Paulo, desaprovando a atitude do colega.
“Após a confirmação de sua morte, a fiscalização em torno do peso da cantora marcou presença em análise neste jornal pelo historiador Gustavo Alonso. O texto exaltava a magnitude da carreira trilhada por ela quando o autor observou que “Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança”, afirmando que recentemente uma sertaneja vinha se tornando “bela para o mercado”.”
Gustavo Alonso, que é autor do livro Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira, mesmo em meio a tantas outras questões que rondam o sertanejo e que ele tem conhecimento, escolheu pontuar a imagem que Marília Mendonça tinha, passando uma mensagem de inadequação entre o que a cantora era e o que o mercado solicitava para que ela encontrasse o sucesso.
Mesmo afirmando que, apesar de sua aparência, Marília quebrou as barreiras do mercado e conseguiu alcançar feitos importantíssimos, o artigo de Gustavo se mostra como um ótimo exemplo de como a cultura machista se apropria até mesmo de pessoas que têm acesso à informação e que, sendo assim, poderiam elevar os debates a níveis mais assertivos. Infelizmente, não foi isso que ele fez. A Alonso, faltou esse movimento tão automático e tradicional, mas também tão representativo e respeitoso – se ele, em sua noção, tivesse olhado para baixo, juntado as mãos e se silenciasse por apenas um minuto em respeito à morte da cantora, teria visto que ela foi grande demais para que um texto a retratasse como uma “gordinha que venceu dentro da música popular brasileira.”
