Sonho americano x pesadelo tupiniquim: é hora de pedir demissão?

O texto compara a onda de pedidos de demissão nos Estados Unidos com a realidade do mercado de trabalho brasileiro e mostra as diferenças entre buscar o ‘sonho americano’ e as oportunidades de emprego disponíveis no Brasil.

A economia segue em recuperação na América. Depois de atingir 14,8% a taxa de desemprego em abril de 2020 – eram 23,1 milhões de pessoas em busca de trabalho – a porcentagem dos que seguem fora do mercado baixou para 5,8% em maio.

A dança dos desempregados no Brasil bateu 14,7% – ou 14,8 milhões na roda da sobrevivência – em março, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). E a economia ainda engatinha na pandemia.

Enquanto as oportunidades de emprego seguem difíceis por aqui, os Estados Unidos vivem uma ‘onda’ de pedidos de demissão que bateu a casa dos 4 milhões em abril, segundo o Departamento do Trabalho.

Entre os motivos prováveis para este fenômeno estariam a consolidação de um desejo de mudança de posto de trabalho reprimido pela pandemia, o esgotamento ou saturação no atual emprego e a oportunidade de trabalhar em casa.

PESADELO TUPINIQUIM

Os motivos podem ser os mesmos para que um trabalhador peça demissão no Brasil. ‘Apenas’ a realidade é bem diferente, de uma forma geral, para quem deseja sair – ou mesmo trocar – de emprego por conta própria.

Há algumas particularidades. Empregados com carteira assinada, por exemplo, perdem o valor da multa de rescisão contratual a que teriam direito caso fossem demitidos (sem justa causa) por seus empregadores.

Por outro lado, a mudança de ares do trabalho pode proporcionar até melhor qualidade de vida, a depender das circunstâncias: um convite da concorrência ou a abertura do próprio negócio, mesmo que inicialmente informal.

A exemplo do que tem ocorrido nos Estados Unidos, profissionais liberais no Brasil perceberam a pandemia como oportunidade para trocar seus escritórios comerciais por home offices e ampliar atuação no mercado – o que inclui, às vezes, encerrar vínculos empregatícios.

SONHO AMERICANO

A retomada da expectativa do crescimento profissional e a recuperação do mercado de trabalho nos Estados Unidos pode despertar no brasileiro – a exemplo de tantos outros estrangeiros – a esperança de viver o ‘sonho americano’.

A expressão, conhecida em todo o planeta, faz referência à ideia de liberdade e prosperidade proporcionada pela “igualdade de oportunidades” a todos que buscam o sucesso na terra do Tio Sam com base no trabalho duro.

Não por acaso, dezenas de milhões de pessoas buscam o visto para entrar ou permanecer nos Estados Unidos. O Governo Trump (2017-2020) endureceu bastante as regras e dificultou ao máximo o ‘sonho americano’ aos estrangeiros.

A gestão do democrata Joe Biden promete facilitar mais o ingresso de imigrantes – entre tantos, os brasileiros. A nova política, no entanto, precisa apenas passar pelo congresso, de maioria governista.

REQUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL COMO SAÍDA

Diante de um mercado de trabalho mais seletivo, a requalificação profissional tem se tornado uma estratégia cada vez mais comum entre brasileiros que buscam uma recolocação mais rápida. Cursos técnicos, certificações digitais e programas de capacitação oferecidos por instituições públicas e privadas ajudam trabalhadores a se adaptarem às novas exigências do mercado.

O Sistema Nacional de Emprego (Sine) e o próprio Ministério do Trabalho oferecem cursos gratuitos voltados a áreas com maior demanda, como tecnologia, logística e atendimento ao cliente. Além disso, plataformas online de ensino a distância democratizaram o acesso a conteúdos que antes exigiam deslocamento até grandes centros urbanos, ampliando as chances de quem vive fora das capitais.

O trabalho autônomo e o empreendedorismo também têm ganhado espaço como alternativa para quem não encontra vagas formais disponíveis. Plataformas de freelancer, aplicativos de entrega e pequenos negócios digitais se tornaram, para muitos brasileiros, uma forma de complementar a renda ou mesmo de substituir totalmente o vínculo empregatício tradicional.

Especialistas em recolocação profissional recomendam que o trabalhador não espere o desemprego chegar para começar a se atualizar. Manter-se em constante aprendizado, mesmo empregado, é a melhor forma de garantir competitividade em um mercado que muda de forma cada vez mais rápida.

No cenário internacional, países como os Estados Unidos também têm investido em programas de requalificação para atender setores com escassez de mão de obra, como tecnologia da informação e saúde. A diferença é que, no Brasil, o acesso a esses programas ainda enfrenta desafios de infraestrutura, principalmente em regiões mais afastadas dos grandes centros econômicos.

VAGAS AQUI

À grande maioria que permanece no Brasil em busca do sonho de um emprego mesmo, as oportunidades seguem aparecendo por todo país, apesar do volume de desempregados. Motivo clássico: falta de qualificação.

As chances de trabalho estão nos classificados de jornais – sim, ainda existem –, nos Postos de Atendimento ao Trabalhador (PATs), nas redes sociais e nos sites especializados em currículos e ofertas de vagas.

Para quem deseja seguir carreira no funcionalismo público há concursos com inscrições abertas em vários estados para diferentes carreiras, com milhares de vagas e salários que chegam a passar dos R$ 28 mil.

A retomada da economia, mesmo que lenta ainda, tem proporcionado a abertura de novas colocações em empresas do setor de serviços – delivery, principalmente – do comércio e na indústria.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
Leia também