Protagonistas e agonizantes, entidades do 3º setor fazem a diferença na pandemia

A pandemia colocou as entidades do terceiro setor brasileiro diante de um paradoxo: cresce a demanda por ajuda ao mesmo tempo em que encolhem os recursos disponíveis para atender quem precisa. Veja como essas organizações se estruturam, se reinventam e o que esperam para o período pós-pandemia.

Além de um rastro de mortes, contadas às centenas de milhares no Brasil, a pandemia da covid-19 tem deixado um caminho de terra arrasada por onde passa, seja pelas sequelas provocadas pela doença como também pela fome, o desemprego e a desesperança.

Essa precariedade humanitária tem despertado iniciativas espontâneas ou organizadas, individuais ou coletivas, voltadas a minimizar o sofrimento do outro, seja em ações diretas ou mobilizações pela oferta de serviços, alimentos, geração de renda e sobrevivência.

Não raro, um simples gesto de generosidade acaba por transformar-se em uma organização informal e, depois, em uma instituição sem fins lucrativos e de interesse público acomodada na sociedade civil organizada como entidade do ‘Terceiro Setor’.

Define-se como ‘terceiro’ porque no ‘primeiro’ encontram-se todo os entes vinculados ao Poder Público (Federal, Estadual e Municipal) e, no ‘segundo’, as empresas em geral – mesmo aqueles que se identifiquem como ‘negócios sociais’ e que, por natureza, gerem lucro.

Segundo estimativa do Observatório do Terceiro Setor, o Brasil conta atualmente com 781,9 mil organizações da sociedade civil, distribuídas principalmente nas áreas de assistência social, educação e saúde, além de várias outras como cultura e meio ambiente.

COMO INGRESSAR NO TERCEIRO SETOR

Quem deseja se somar à estatística do Terceiro Setor precisa definir duas questões básicas antes de encaminhar o processo de formalização: a causa social a ser enfrentada e quais recursos de estrutura, de dinheiro e humano são necessários para levar a iniciativa adiante.

Outro passo preliminar é escolher a pessoa jurídica adequada. Há quatro possíveis: Organização da Sociedade Civil (OSC), Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), Organização Não-Governamental (ONG) e Organização Social (OS).

A definição é fundamental porque há requisitos próprios para a abertura de uma associação ou fundação, como exemplos. Na dúvida, é recomendável que se busque consultoria especializada, seja por instituições já constituídas, ou no mercado.

REALIDADE X INICIATIVA

A pandemia tem proporcionado situações paradoxais às entidades do Terceiro Setor. Ao mesmo tempo em que estimula o surgimento de novas frentes de apoio, também reduz a margem de receitas, o que impacta diretamente no atendimento.

A realidade é uma das consequências do impacto da pandemia na economia. Apesar da redução no fluxo de recursos – ou mesmo de doações espontâneas – as instituições têm recorrido à criatividade para sobreviver e manter suas atividades.

A realização de lives é uma das estratégias mais recorrentes. Entidades, empresas, artistas e lideranças em geral têm utilizado as redes sociais para atrair atenção e doações de itens, dinheiro e, inclusive, tempo às mais diferentes causas.

A tecnologia como aliada na manutenção das atividades

Sem a possibilidade de manter eventos presenciais, bazares e campanhas de rua, boa parte das organizações do Terceiro Setor precisou se adaptar rapidamente ao ambiente digital para continuar arrecadando recursos e prestando atendimento. Plataformas de doação recorrente, aplicativos de pagamento por aproximação e páginas próprias de captação passaram a fazer parte da rotina de instituições que, até pouco tempo, dependiam quase exclusivamente de contato presencial com doadores e beneficiários.

Essa digitalização também ajudou a ampliar o alcance geográfico das campanhas. Uma instituição de pequeno porte, antes restrita ao bairro ou à cidade onde atua, passou a conseguir doações de outras regiões do país, muitas vezes motivadas por publicações que viralizaram nas redes sociais. Ao mesmo tempo, o atendimento remoto, por chamadas de vídeo ou mensagens, permitiu que psicólogos, assistentes sociais e voluntários continuassem oferecendo suporte mesmo durante os períodos mais restritivos da pandemia.

Por outro lado, essa transição expôs uma desigualdade dentro do próprio setor: organizações maiores, com equipes de comunicação e marketing mais estruturadas, conseguiram se adaptar com mais rapidez do que pequenas entidades comunitárias, que muitas vezes dependem de poucos voluntários e não têm recursos para investir em ferramentas digitais. Essa diferença de capacidade técnica tende a aprofundar o abismo entre instituições grandes e pequenas justamente no momento em que a demanda por assistência mais cresce.

O papel das parcerias entre empresas e entidades sociais

Outro movimento que ganhou força durante a pandemia foi a aproximação entre empresas privadas e organizações do Terceiro Setor. Programas de responsabilidade social corporativa, que já existiam antes da crise sanitária, passaram a ser vistos como estratégicos por companhias que queriam demonstrar compromisso com suas comunidades, ao mesmo tempo em que ajudavam a suprir a queda nas doações individuais.

Essas parcerias vão além da doação direta de dinheiro. Muitas empresas passaram a oferecer produtos, serviços de logística, espaço de armazenamento e até funcionários em regime de voluntariado corporativo, no qual colaboradores dedicam parte da jornada de trabalho a projetos sociais. Esse modelo tende a se consolidar mesmo depois do fim da fase mais aguda da pandemia, já que cria um vínculo de longo prazo entre a marca e a causa apoiada, em vez de uma doação pontual.

FUTURO PÓS-PANDEMIA

Não bastassem as dificuldades ampliadas pela pandemia, as entidades do Terceiro Setor já se preocupam com o que está por vir, depois que a doença der uma trégua. É o que aponta uma pesquisa realizada pela Datafolha em parceria com a Ambev.

Quase a metade das entidades ouvidas (41%) apontam a queda da arrecadação de recursos financeiros como o fator mais preocupante. A continuidade de doações diversas (13%) e a adesão de novos voluntários (11%) seguem abaixo na lista.

Por outro lado, a pesquisa apontou uma adesão maior da comunidade a iniciativas promovidas pelas ONGs. “A pandemia mostrou que o terceiro setor tem o valor impressionante de mobilizar a sociedade e de chegar em quem precisa”, constatou a presidente do conselho da ABCR, Márcia Woods.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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