Prévias do PSDB enfraquecem a ascensão da ‘terceira via’

O fracasso das prévias, um movimento tão democrático dentro do sistema político, se mostra crucial para os rumos do partido e, também, para a consolidação do PSDB entre os principais nomes da ‘terceira via’

A busca pelo nome da ‘terceira via’ durante esta pré-campanha presidencial no Brasil, ocupa uma posição de protagonismo – a população anseia saber quem será o nome que fará frente entre os dois pólos favoritos: Bolsonaro e Lula.

Até mesmo para quem já tem convicção do seu voto em 2022, a escolha da pessoa que irá representar a terceira via irá movimentar a corrida presidencial, inserindo novas dinâmicas no debate público, podendo interferir nas escolhas até dos mais decididos. 

Porém, o mistério que ronda a escolha desse nome se mistura com a gama de opções disponíveis para ocupar o posto da terceira via. São tantos candidatos que possuem as características desejadas para tal função, que dificulta a escolha de apenas um. Neste momento, temos terceira, quarta, quinta e até sexta via. 

Com isso, algo que teve início com o objetivo de fugir da disputa iminente entre Lula e Bolsonaro – essa briga de rejeitados – com os candidatos se colocando à disposição de criar uma frente única para trazer mais opções à população brasileira votante, acabou se tornando uma batalha entre os tantos nomes, que não vão abrir mão de ser a terceira via, que tanto terá projeção durante a corrida eleitoral em 2022. 

E as prévias do PSDB expõem essa dinâmica de forma muito clara. Com a tentativa de voltar a ter uma relevância em disputas presidenciais, o PSDB tem investido fortemente para ser o partido a ocupar o lugar da terceira via. João Doria, governador do estado de São Paulo, foi um dos primeiros a se candidatar à função, com o protagonismo na busca pelas vacinas contra a covid-19.

Se colocando contra a retórica do presidente Jair Bolsonaro, o qual apoiou em 2018, Doria, naquele momento, tomava o lugar do chefe do Executivo na obrigação de combater a pandemia no Brasil e, com isso, foi construindo sua candidatura para 2022. 

Porém, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul pelo mesmo PSDB, também se colocou à disposição da terceira via. A projeção nacional de Leite veio depois dele assumir publicamente a homossexualidade, mas para além disso, o governador ficou conhecido por ter promovido uma recuperação econômica ao Rio Grande do Sul, fazendo com que o estado voltasse a ter condições de investir e ser investido novamente. 

E Arthur Virgílio, ex-prefeito de Manaus, apesar de ser considerado como a “zebra” dentro das prévias do partido, tem lutado para, nas palavras dele, “desbolsonarizar” o PSDB e, com isso, tem recebido um certo destaque durante este processo. 

A disputa dentro do PSDB tem esses três nomes – Doria, Leite e Virgílio – se portando como o partido que mais tem candidatos a oferecer à terceira via. Mas as prévias, que deveriam ser algo para fortalecer a ordem democrática, do contrário, só colaboraram para abrir uma cisão no partido, tirando o foco da escolha da ‘terceira via’ para colocar na briga que assola o PSDB. 

AS PRÉVIAS DO PSDB

A votação ficou marcada para o último domingo (21). Com a meta de definir o nome do partido para a disputa da presidência em 2022, as prévias do PSDB já carregavam muitas polêmicas. Sem uma unanimidade, os nomes de Doria, Leite e Virgílio dividem os âmbitos do partido, mas focam a disputa entre os governadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul, que vem trocando farpas pela imprensa há algum tempo. 

O pleito aconteceu por meio de um aplicativo, mas não foi concluído. Isso porque a plataforma escolhida não conseguiu aguentar a demanda dos votos e apresentou instabilidade. A votação foi adiada e o PSDB decidiu realizar testes com outros apps para, enfim, retomar a eleição e definir o candidato. Entretanto, o partido afirmou hoje (24) que os testes não tiveram sucesso, postergando ainda mais a conclusão do pleito. 

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O imbróglio das prévias foi definido como “desmoralizador” para muitos membros do próprio partido. Em outras ocasiões, o ocorrido foi definido como “fracasso”. Isso porque, em um momento tão definidor para o futuro do PSDB, contar com um aplicativo que apresenta problemas técnicos é um indicativo de falta de organização e transparência dentro do partido. Além disso, as polêmicas que já rondavam a escolha do PSDB para a terceira via tomaram uma proporção ainda maior, considerando que os candidatos não param com a rinha pública. Eduardo Leite, inclusive, acusou Doria de comprar votos. 

A TERCEIRA VIA

Esse cargo, eu arrisco dizer, ser mais disputado que o próprio cargo de presidente da República. Só para ocupá-lo, temos: 

  • Ciro Gomes (PDT) 
  • Sérgio Moro (Podemos) 
  • os candidatos do PSDB (Doria, Leite e Virgílio)
  • o presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco 
  • senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE)
  • senadora Simone Tebet (MDB-MS)
  • ex-ministro da Saúde Luís Henrique Mandetta.

Com isso, temos eleições dentro da eleição central. Lula e Bolsonaro já assumiram seus postos dentro da esquerda e da extrema direita. A tentativa com a terceira via é assumir a posição do candidato moderado. Mas, com tantas opções de diversos espectros políticos, os partidos terão que se organizar internamente para indicar o seu nome para a disputa. Porém, o verdadeiro candidato da terceira via não será definido pelos partidos ou organizações políticas – somente a opinião pública terá o poder de bater o martelo em quem será esse nome. 

POR QUE O IMBRÓGLIO DAS PRÉVIAS DO PSDB ENFRAQUECE O PARTIDO E A BUSCA PELA DEFINIÇÃO DA TERCEIRA VIA?

Disputa nas prévias do PSDB está focada em João Doria e Eduardo Leite, rivais assumidos dentro do partido. Foto: CRISTIANO MARIZ / Agência O Globo

No início, a busca pelo nome da terceira via tinha o objetivo de tentar despolarizar as eleições e representar quem não se sentia à vontade para votar em Lula ou Bolsonaro. Os candidatos que hoje fazem parte dessa disputa, afirmaram em diversas entrevistas que a terceira via seria unida, para tentar tirar o Brasil desse panorama de ter apenas duas opções.

Porém, com a proporção que a terceira via tomou na corrida presidencial que ainda está só começando, excluiu-se o fator ‘união’ do processo, para inserir mais brigas políticas. As tantas ‘vias’ que irão disputar entre si, deixaram de lado o objetivo inicial e agora buscam ganhar as “primeiras eleições”, que será a escolha da população para quem vai assumir essa posição da terceira via.

Entretanto, essa posição tem, como uma das características primordiais, a requisição de escolher um representante que se distancie de tudo o que Lula e Bolsonaro representam. Logo, a terceira via é um candidato moderado, neutro, que não se coloca em disputas tão claras de poder. Sendo assim, as prévias do PSDB, com os problemas tecnológicos e com as brigas internas, dão um tiro no pé do partido no momento de definir o nome para a tão importante posição dentro da corrida presidencial. 

Esse imbróglio, totalmente político, é mostrado para a população como algo ‘mais do mesmo’, tirando do PSDB essa imagem de um partido que pode apresentar uma boa opção para a terceira via – mais que boa opção, uma opção diferente de tudo o que há disponível. 

Sendo assim, o PSDB vai apresentar um nome para disputar as eleições, mas dificilmente esse nome será o da terceira via. Pois o tempo que está sendo gasto para amenizar os problemas internos do partido, não está sendo usado para ampliar o marketing político tão necessário para conseguir convencer a população a escolher o candidato do PSDB para ocupar a tão acirrada posição.

Ricardo Almeida
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