É realmente impossível viver sozinho?

Sim. Sozinho, sem ninguém, não dá. Ao passo que também não dá para viver rodeado de pessoas sem ter seus momentos de individualidade. Como equilibrar isso?

Cansado das perguntas sobre solteirice no final do ano? Descubra como lidar com a solidão e encontrar a solitude para seu bem-estar.

Vai casar não?” – Final de ano, festa de família, você bem feliz pegando aquele pedaço de rabanada para comer com gosto e, de repente, uma tia vem com essa pergunta, que faz a comida até parar no meio da garganta. Você, solteiro, o único da família, é o grande motivo de preocupação da noite, já que ninguém mais aguenta te ver sozinho. 

Com uma risadinha clássica e, sejamos francos, falsa, você desconversa e faz uma piadinha para encerrar o assunto. O fantasma da solidão te assombrou o ano inteiro, não seria agora, no final do ano, que ele iria deixar de aparecer. 

Bom, temos que encarar a verdade por trás dessa situação que tende a se repetir com diversas pessoas diferentes – a solteirice incomoda. E incomoda tanto os outros, quanto a ti mesmo. E não adianta falar que, você, ser humano incrustado nesses tempos de modernidade líquida, redes sociais, dancinhas de TikTok e no culto à felicidade a qualquer custo, não sinta uma pontinha de angústia ao se ver sozinho sábado a noite, enquanto os stories do Instagram mostram os casais sendo felizes no restaurante mais caro da cidade. 

A gente se sente inadequado. Sim, a gente. Porque essa que vos escreve tem lugar de fala. É difícil se ver solteiro em uma sociedade que prega que:

  • Para você estar solteiro, você tem que estar pegando geral, passando o rodo, sem limite e hora para o amanhã;
  • e, se você não é esse tipo de solteiro, bom… Tenho uma notícia ruim para te dar: você só está solteiro porque ninguém gosta de você. 

Tantos são os paradigmas e estereótipos que rondam essa condição da solteirice e é complicado não se deixar levar por elas. Para o senso comum, estar solteiro significa estar sozinho. E estar sozinho em uma sociedade com seres totalmente relacionais é um problema. Ou seja, entramos num looping: 

SOLTEIRO – SOZINHO – NINGUÉM GOSTA DE MIM – SOLTEIRO – SOZINHO – NINGUÉM GOSTA DE MIM…

Haja terapia! 

Mas será mesmo que estar solteiro significa estar sozinho? 

Entender isso foi um grande passo para o meu bem estar. Vamos aos conceitos:

O site Dicio tem um conceito bem simples para a palavra ‘solteiro’:

“Que não se casou.” Direto e objetivo. 

Vejamos, agora, ‘sozinho’:

“Que está só; sem ninguém; sem companhia; solitário, sozinho.”

Claramente são significados totalmente diferentes. Se você está solteiro, não significa que está sozinho. Você tem sua família, amigos, colegas de trabalho, vizinhos… E, bem, é impossível viver sem, ao menos, uma companhia. Não precisa morar com você, mas alguma relação você precisa ter, seja lá qual nível for. É humanamente impossível viver sem nenhum tipo de relacionamento. 

Mas aí, você pode pensar: “Mas me sinto sozinho.” Aí são outros quinhentos. Há quem diga que, dentro do consumismo exacerbado que vivemos hoje, há uma estratégia para que as pessoas se sintam assim, pois, dessa forma, sem coragem de encarar e lidar com esse sentimento de solidão, elas acabam “fugindo” para pequenos prazeres que as satisfazem, mesmo que seja temporário. Nesse caso, ao se sentir sozinho, o fulano de tal corre para o aplicativo da Shopee e compra tudo o que ele pensa que vai te fazer se sentir melhor. Assim, ele fortalece o sistema capitalista e cai no jogo, fazendo o consumismo ser sua válvula de escape. 

Músicas, matérias, posts em redes sociais, estampas de blusas, há uma gama de opções para quem quer consumir a “solidão”. E isso nos incentiva a nos sentir assim, reforçando a ideia de que há algo de errado conosco. E as consequências disso são várias, inclusive há uma bem comum: por medo da solidão, você se envolve com pessoas as quais não têm o mínimo de afinidade e coleciona relacionamentos fracassados, dando insumos aos pensamentos que dizem que ninguém tem afeto por nós. 

Sair desse ciclo é complicado, mas nada que uma boa dose de terapia e amor próprio não possam ajudar. E, talvez, um dos primeiros passos a serem tomados nesse caminho de cura seja entender a grande diferença entre solidão e solitude, sendo esta última essencial para nossa saúde mental. 

SOLIDÃO versus SOLITUDE

Em um podcast, vi a psicanalista e professora Maria Homem ressaltar essa diferença. Achei curioso um dos exemplos que ela deu, já que eu o pratico bastante. Sabe quando nós, mulheres, vamos ao banheiro de uma balada ou bar e sempre esperamos uma amiga para ir conosco? Então, parece uma atitude normal, comum e até mesmo natural, certo? Mas você se lembra o porquê começou a fazer isso? Ou porque é tão necessário ir ao banheiro acompanhada? 

No meio de minhas lembranças, voltei a um dia em que fiquei esperando minha amiga aparecer na mesa em que estávamos, para que ela pudesse ir ao banheiro comigo. Ou seja, fiquei lá segurando o xixi, porque não podia ir ao banheiro sozinha. 

Há várias questões que podem envolver essa escolha de ir ao banheiro acompanhada da amiga – segurança, fofoca, opinião sobre a maquiagem, ajuda na roupa com zíper. São razões específicas. O problema aparece quando há um incômodo em ir sozinha ou quando você segura xixi para poder ir acompanhada. 

Maria Homem ressaltou que temos um medo tão grande de estarmos sozinhos, que acabamos tomando atitudes para contornar essa condição. Mas ela deixou bem claro que solidão é algo bem diferente desse medo de estar sozinha. A solidão se mostra, segundo a psicanalista, quando o ser humano não consegue criar pontes e laços sinceros com as pessoas que te rodeiam. E isso é perigoso, já que, de fato, somos seres relacionais, dependemos das relações para praticamente tudo. Porém, ela afirmou isso em todos os âmbitos, não somente na questão da solteirice. Se você não consegue ter relações com ninguém que está próximo de você, aí sim, temos um problema. 

Ao mesmo tempo, Maria Homem ressaltou uma condição humana que pouco paramos para pensar: nascemos sozinhos e morremos sozinhos. A experiência do nascer e do morrer é sua e não há quem possa sentir isso por você. Logo, como viemos parar nesse planeta com essa condição, é importante que tenhamos respeito por ela. 

Por medo da solidão, tendemos a correr atrás de estarmos sempre rodeados de gente. Queremos ser a que tem mais amigos, a que tem a melhor e maior família, a que está acompanhada o tempo todo. E isso nos afasta de uma prática importante para a nossa saúde mental – a prática da solitude. Solitude, em linhas gerais, significa estar sozinho conscientemente. É a escolha de estar sozinho e se sentir bem com isso, pois você está fazendo companhia para você. É aquele momento em que você se escuta, se sente, se descobre. São nesses instantes de solitude que as melhores ideias, insights, questionamentos vem. A solitude é necessária para o nosso próprio bem, em prol de nossa individualidade e reforça que é possível viver “solteiro” (não sozinho, mas solteiro). 

Mas, quem, em sã consciência, nesses tempos, escolheria estar sozinho? Bom, isso claramente não é reforçado pela mídia. Uma experiência rápida – busque, no Google, por “blusas estampa forever alone” e “blusa estampa solitude”. A diferença é gritante. 

E isso acontece porque se a mídia reforçar a solitude, ela perderá o lucro que tem com as pessoas que não querem olhar para dentro desse sentimento de solidão que as apavoram e que se utilizam das compras para ter momentos de prazer. Maria Homem, ainda no podcast, afirmou que muito desse vazio que as pessoas sentem é por causa da falta de solitude, já que esse sentimento só é possível supri-lo com a presença de você mesmo. Quando você respeita sua solitude, você respeita a sua condição primária – nascemos sozinhos e morremos sozinhos. 

COMO SEGUIR POR ESSE CAMINHO?

Não é fácil respeitar nossa individualidade, pois há em nós uma necessidade de agradar as pessoas, para que possamos nos sentir amados e assim, não ficarmos sozinhos. Mas buscar ajuda da psicologia pode ajudar. Caso esteja fora de seu orçamento, há muitos psicólogos que oferecem consultas a preços populares, além do SUS que disponibiliza de graça. Busque por “terapia social + o nome de sua cidade” no Google e encontre o melhor para você.

Além disso, na internet há profissionais que buscam ajudar as pessoas com vídeos e podcasts que discutem esses assuntos. A Maria Homem tem uma visão mais analítica e pode ser mais complicado para algumas pessoas entenderem, mas sua abordagem é didática e esclarecedora. Vou deixar algumas sugestões aqui embaixo. 

E você, solteiro, que já está se preparando para as perguntas inconvenientes do final de ano, no encontro com a família, não se preocupe. Não há nada de errado com você. Não estamos em uma busca incessante por outra pessoa e se estivermos, que transformemos na busca de nós mesmos.

Ricardo Almeida
Bem-vindo! Sou Ricardo, e neste espaço, minha paixão por futebol, o universo do esporte e as nuances da política se transformam em análises e discussões. Venha falar comigo os temas que moldam o Brasil.
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