‘Paralisação 24 horas’ na Caixa: sindicalismo à prova na pandemia

Convocação nacional de ato enfrenta desafios de mobilização de categoria cada vez mais reduzida em meio a processo de digitalização de serviços

Bancários da Caixa Econômica Federal cruzaram os braços em uma paralisação de 24 horas para reivindicar a manutenção do caráter estatal do banco, o pagamento integral da PLR e melhores condições de trabalho durante a pandemia. Entenda o contexto da mobilização e os desafios que a categoria enfrenta com a digitalização do atendimento.

Os servidores públicos federais da Caixa Econômica Federal (CEF) de todo o país foram orientados a cruzar os braços nesta terça-feira (27) para uma ‘Paralisação 24 Horas’. O ato foi convocado por entidades sindicais, conforme deliberação encaminhada em assembleias realizadas na última quinta-feira (22).

A categoria reivindica a manutenção do banco como “100% estatal” e ainda o pagamento integral da PLR (Participação nos Lucros ou Resultados), a contratação de mais servidores já aprovados em concurso público e a vacinação dos bancários contra a covid-19.

Por orientação dos sindicatos, a ‘Paralisação 24 Horas’ deve alcançar desde os funcionários que seguem em expediente nas agências como aqueles que acabaram remanejados para o home office por conta da pandemia – seja por orientação ou inclusão no grupo de risco.

Segundo apurou o Edgital, a mobilização se concentrava mais nas capitais do que no interior de vários estados, até o momento da publicação deste post. Não havia informações sobre a adesão de funcionários que se encontram em atividade remota.

Em nota, a Caixa afirmou estar em “permanente negociação com as representações sindicais” e alertou sobre o impacto do movimento no atendimento principalmente aos beneficiários dos programas assistenciais atendidos pelo banco.

“A Caixa está realizando a maior operação de pagamento de benefícios sociais da história, com liberação do auxílio emergencial e Bolsa Família, além da prestação de diversos serviços essenciais”, afirmou a instituição, pela assessoria de imprensa.

MOBILIZAÇÃO MENOR

O balanço da ‘Paralisação 24 horas’ desta terça-feira (27) deverá ser divulgado pelos sindicatos e pela própria Caixa somente a partir desta quarta (28) após levantamento interno da porcentagem de adesão dos bancários – sejam os presenciais ou remotos.

É certo, no entanto, que os números vão expor um encolhimento da categoria dos bancários da Caixa, sobretudo após o incentivo do banco ao Plano de Demissão Voluntária (PDV). Pelo menos 2,3 mil servidores inscritos estão em vias de desligamento da estatal.

A redução da força de trabalho impacta diretamente na capacidade de mobilização dos sindicatos da categoria, cujo crescimento foi forjado ao longo de décadas pela farta participação dos bancários em grandes greves realizadas pelo país.

Como a categoria dos bancários se organizou ao longo dos anos

Os sindicatos de bancários estão entre os mais antigos e organizados do movimento sindical brasileiro, com histórico de greves que remonta a décadas passadas, muitas delas marcadas por longas paralisações nacionais em busca de reajustes salariais e estabilidade no emprego. Essa tradição de mobilização ajudou a consolidar direitos que hoje são vistos como referência em outras categorias, como a Participação nos Lucros e Resultados negociada anualmente e cláusulas específicas de proteção contra demissões em massa.

No entanto, esse histórico de força sindical vem sendo testado nos últimos anos pela combinação entre avanço tecnológico e pressão por redução de custos nos bancos públicos. Cada vez menos agências físicas são abertas, enquanto o número de transações feitas por aplicativo cresce ano após ano. Isso reduz a necessidade de contratação de novos funcionários e, ao mesmo tempo, enfraquece a base de arregimentação dos sindicatos, que dependiam do contato direto com trabalhadores nas agências para conseguir engajamento em campanhas e assembleias.

O impacto da digitalização no atendimento aos beneficiários

A redução da massa bancária, particularmente nos bancos estatais – além da Caixa, do Banco do Brasil (BB) – ocorre na esteira dos processos de digitalização provocados pelo surgimento de novas tecnologias e também de reestruturações internas e operacionais.

O encolhimento no número de atendimento nos caixas está relacionado também com o aumento da autonomia digital dos clientes. Os 19 milhões de beneficiários do Bolsa Família, por exemplo, já podem fazer transferências e pagamentos pelo aplicativo ‘Caixa Tem’.

Apesar dessa migração para o digital, uma parcela significativa da população atendida pelos programas sociais ainda depende do atendimento presencial, seja por falta de acesso à internet, seja por dificuldade em lidar com aplicativos bancários. Para essas pessoas, a redução no quadro de funcionários das agências tende a significar filas mais longas e maior tempo de espera para resolver problemas simples, o que reforça a preocupação dos sindicatos com a manutenção de um atendimento humano de qualidade nos bancos públicos.

O que está em jogo para o futuro da Caixa como banco público

Além das pautas imediatas da paralisação, como a PLR e a vacinação da categoria, o debate sobre o futuro da Caixa como instituição 100% pública ganhou peso nos últimos anos por conta de discussões sobre privatização parcial de subsidiárias do banco, como a área de loteria e de seguros. Para os sindicatos, esse tipo de movimento abre caminho para um enfraquecimento gradual do papel social da instituição, que historicamente concentra operações de crédito habitacional, saneamento e distribuição de benefícios sociais em todo o território nacional.

Já para defensores de uma maior participação do setor privado, a venda de subsidiárias permitiria à Caixa focar em suas atividades principais e reduzir custos operacionais, sem necessariamente comprometer o atendimento aos beneficiários de programas sociais. Esse embate entre visões opostas sobre o papel do banco tende a se repetir em cada nova rodada de negociação salarial, já que qualquer sinalização de venda de ativos costuma reforçar o discurso sindical de que a categoria precisa se mobilizar para preservar empregos e a natureza pública da instituição.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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