Para sempre será lembrado, como o ministro da boiada

O legado que o ex-ministro do Meio Ambiente deixa, após sua saída do governo, é único na história do Brasil. Oficialmente, temos um ministério que considera desmatamento, exportação ilegal de nossas riquezas e rigidez na demarcação de terras indígenas desconsiderando totalmente a vida dos povos nativos, como algo lucrativo e de bom grado do governo federal.
Se você leu esse primeiro parágrafo e seu primeiro pensamento foi: “ah, mas já tivemos isso antes em outros governos”, peço que se atente à palavra que usei – oficialmente. E realmente tivemos isso em outros governos.
No governo Lula, tivemos a famosa concretização da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, uma das obras mais caras e mais abrangentes do Brasil. A usina, que é capaz de gerar energia suficiente para abastecer, sozinha, 40% de todas as residências brasileiras, foi motivo de manifestações diversas de povos indígenas, moradores da região e grupos de proteção ao meio ambiente, por conta dos impactos ambientais e sociais que a construção da usina acarretaria no Brasil. A região do Belo Monte é uma das mais biodiversas do Brasil e a usina compromete toda essa biodiversidade.
Na época, houve uma comoção nacional para que a usina não fosse construída ou que mudasse seu planejamento original. Lula, presidente na época, conversou com os grupos que eram contra a usina, disse que faria o possível para atender às suas demandas, colocou um pingo de esperança no coração dos povos indígenas que seriam diretamente prejudicados com a grande obra. Entretanto, essa comoção só convenceu Lula a conversar com os grupos de proteção ao meio ambiente. O que ele, de fato, deveria fazer para proteger os povos nativos e os moradores da área, ele não fez.
Em 2015, no governo Dilma, um estudo feito pela InfoAmazonia concluiu que a presidenta, em seu primeiro mandato, reduziu 72% no investimento em medidas de combate e prevenção ao desmatamento na Amazônia. A comparação foi feita com os investimentos feitos durante o governo Lula. Apesar disso, na época, a Amazônia apresentava uma queda nos índices de desmatamento.
Como eu disse, tivemos, sim, um descrédito ao meio ambiente nos governos anteriores e isso é uma pena, porque somos um país tão rico em recursos naturais, que se fossem cuidados propriamente, seríamos uma das principais potências mundiais.
Mas, o problema de Salles, é que ele não tinha vergonha dos números que seu mandato apresentava. O objetivo do governo é associar o agronegócio com o meio ambiente, em uma tentativa de favorecer o agronegócio, que é um dos principais fatores de exportação e lucro para os cofres do governo federal. Utilizando seu conhecimento em direito, o ex-ministro traçava estratégias jurídicas para dar o famoso “jeitinho brasileiro” e passar a boiada.
O fatídico dia do “passar a boiada” foi o dia que soubemos, oficialmente, o objetivo do governo Bolsonaro para o meio ambiente brasileiro: “Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos neste momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos.”, disse Salles durante a reunião ministerial que o ex-ministro Sérgio Moro citou como prova de que Bolsonaro interferia politicamente na Polícia Federal.
O presidente da república estava presente nessa reunião e não houve nenhuma interferência dele, do vice ou de qualquer ministro que estava lá. O que Ricardo Salles disse, de forma bem clara, é que era preciso aproveitar que a imprensa não estava com foco no governo por conta da cobertura da pandemia e ir mudando as regras e normas que protegem judicialmente a preservação do meio ambiente. Isso é oficialmente o objetivo do governo para o meio ambiente brasileiro, porque mesmo depois que essas falas foram à público, o ex-ministro afirmou que ele sempre defendeu a flexibilização dessas normas, demonstrando nenhum pudor sobre o que foi dito.
E isso reflete fielmente nos recordes que Salles trouxe ao Brasil. O país é pária internacional desde antes da declaração do também ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo. Isso aconteceu porque o Brasil não respeita as regras de cooperação internacionais que dizem respeito ao meio ambiente. Muitas dessas regras são requisitos para investimentos internacionais e muitos países não costumam fazer negócios com nações que não respeitam essas regras.
Entretanto, o pensamento do governo e de Salles é que: “O Brasil tem a Amazônia. Se vocês quiserem um pouco dela, invistam na gente.” Sim, a Amazônia é um grande negócio para o Brasil, mas ela vai muito além disso. Ela é casa, lar, alimento e não pode ser tratada como uma simples moeda de troca para investimentos internacionais. Além disso, de nada adianta tratar a Amazônia como um negócio e não cuidar dela. É a mesma coisa de você ter uma loja de roupas e sua mercadoria estar toda rasgada e estragada.
Entretanto, no primeiro trimestre deste ano, a Amazônia bateu recordes de desmatamento em todos os três meses. Foi recorde atrás de recorde. A floresta perdeu 810 quilômetros quadrados de floresta em março, um pouco maior que a cidade inteira de Goiânia. Em relação a março de 2020, o desmatamento aumentou 216%.
Já no Pantanal registrou o maior número de focos de incêndio da história do bioma: 22.116 pontos detectados em 2020, contra 10.025 registrados em 2019. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas do Pantanal (INPP) e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o Pantanal já havia perdido cerca de 23 mil km² consumidos pelas chamas, afetando, pelo menos, 65 milhões de animais vertebrados da região e 4 bilhões de invertebrados.
Não satisfeito, Salles também bancou uma guerra contra os indígenas. Foram 423,3 km² desmatados em terras indígenas entre agosto de 2018 e julho de 2019, de acordo com o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que mede a perda de floresta na Amazônia Legal. As terras indígenas apresentaram um desmatamento 74% maior do que o mesmo período no ano anterior.
Além disso, Salles procurou descredibilizar e diminuir o poder de institutos de pesquisa do meio ambiente, como o INPE e também como o Ibama, que é o próprio órgão do governo federal de fiscalização da atividade humana no meio ambiente.
Em quase 4 anos de governo, esse foi um resumo do legado de Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente. Mas Salles era apenas um dos peões desse jogo. Quem realmente manda nessa política de destruição é o presidente da república e a saída do ex-ministro foi estratégia de ambos lados.
Ricardo Salles é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por conta de suspeitas sobre contrabando de madeiras para o exterior. A investigação, que estava fechando o cerco para o ex-ministro, era comandada pelo Supremo porque Salles, enquanto ministro, tinha foro privilegiado. Agora, que não é ministro mais, a investigação vai para a primeira instância e não será tocada mais pelos tribunais superiores.
Além disso, Bolsonaro está mergulhado em crises políticas. A mais recente foi a investigação do Ministério Público quanto ao superfaturamento da compra de vacinas da Covaxin. O deputado Luís Miranda (DEM-DF) disse, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ter comunicado o presidente Bolsonaro e o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sobre um suposto esquema de corrupção envolvendo a compra da Covaxin.
Com a polêmica envolvendo o presidente e a Covaxin, Bolsonaro precisou acionar uma estratégia que faz recorrentemente: a cortina de fumaça. A saída de Salles foi providencial para que a mídia tirasse o foco nas investigações da suspeita de corrupção e fosse diretamente para o ex-ministro. Entretanto, a estratégia não deu muito certo, já que a CPI da Covid também tomou o rumo da investigação da compra das vacinas da Covaxin para ela e isso foi notícia durante todo o dia de hoje (24).
O novo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Alvaro Pereira Leite, foi indicado por Salles. Ele era líder da Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais e antes de integrar o governo, foi conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB), uma das organizações que representam o setor agropecuário no país. Isso deixa claro que haverá uma continuação nos planos que Salles e Bolsonaro tinham para a política ambiental.
Infelizmente, o meio ambiente é colocado em detrimento há muitos governos, isso não é novidade. Mas isso não pode se tornar institucional, como foi feito na gestão Salles, porque isso atrapalha a luta contra a degradação do nosso habitat. E esse é o legado que o ex-ministro deixou para a história do Brasil. Foi o ministro da boiada, que queria causar a destruição de nossas riquezas por meio de artimanhas jurídicas.
