O “fim da guerra” no Afeganistão, na verdade, é o início de uma nova batalha
EUA tiraram o último soldado do país e foto, histórica, vai representar o fracasso americano no Afeganistão

Endless war (guerra sem fim): essa é a forma com a qual muitos norte-americanos se referem aos 20 anos de ocupação dos EUA no Afeganistão. As longas duas décadas, que foram cercadas de promessas, dinheiro, mudanças e, também, mortes, teve um “fim” ontem (30), com a saída do major-general Christopher Donahue, o último soldado americano em solo afegão.
A imagem de Donahue, em uma câmara noturna, deixando para trás o hangar do aeroporto de Cabul e entrando na aeronave que levou a última tropa de soldados americanos de volta ao seu país, fez história. Estará nos livros didáticos de todo o mundo, mas não como uma forma de celebração de algum trunfo do exército estadunidense e sim como a demonstração do fracasso que foram esses 20 anos e trilhões de dólares gastos nessa guerra que tinha como objetivo acabar com o terrorismo e fazer um novo Afeganistão, mais democrático e em paz.
Mas, aqui, trago verdades duras: os EUA não acabaram com o terrorismo, nunca foi pelo povo afegão e, principalmente, a “guerra” não acabou. Só entrou em uma nova fase. Vamos entender porquê.
TALIBÃ PROMETEU QUE SERIA DIFERENTE, MAS JÁ PROVARAM QUE É SÓ FALÁCIA
O Talibã afirmou, quando tomou Cabul, que não seria mais um grupo terrorista, como foi em 1996, mas sim um novo governo. Quando chegaram à capital do Afeganistão, o grupo disse que queria ter relações comerciais e amigáveis com outros países do mundo e ressaltou que a saída dos EUA significaria liberdade para o povo afegão.
Entretanto, o grupo já tratou manifestantes com represália, proibiu a saída de afegãos do país e obrigou jornalistas a fazerem uma cobertura positiva do momento que os afegãos estão passando. Além disso, cidadãos que se colocaram contra o Talibã foram mortos pelo grupo.
Quando os EUA deixaram totalmente o país, o Talibã comemorou dando tiros para o alto, mostrando que quem manda no país, agora, são eles.
OS AFEGÃOS QUE FICARAM
Quem não conseguiu sair do país e ficaram para trás, precisam lidar com as promessas frustradas dos EUA e com um país tomado pelo terrorismo. Quando os Estados Unidos entraram no Afeganistão e prometeu trazer a eles um país com paz, muitos afegãos comemoraram o fato do exército norte-americano estar alocado lá.
Alguns avanços foram conquistados: algumas mulheres tiveram acesso, mesmo que precário, à educação, o presidencialismo foi instaurado no país dando uma falsa sensação de democracia e os afegãos conviviam com a “segurança” que as tropas americanas traziam ao país. Entretanto, esses “avanços” foram ao chão com a volta do Talibã.
Agora, os EUA deixaram para trás todas as promessas feitas e os afegãos foram largados em um país pobre e sem previsão de qualquer tipo de crescimento. Como se não bastasse, ainda precisarão lidar com a possível represália que sofrerão caso tenham trabalhado para os Estados Unidos ou tenham tentado sair do país no meio disso tudo.
Além disso, possíveis afegãos que saíram do país e foram deportados, segundo o Talibã, poderão voltar ao Afeganistão, mas antes devem passar por um julgamento.
E é aqui que é possível analisar que nunca foi pelos afegãos e que a guerra não acabou. Se fosse pelos afegãos, os Estados Unidos não teriam deixado um país inabitável para eles lidarem com tão pouco recurso.
E quem se revoltar com essa situação, vai entrar em um conflito com o milionário Talibã, que possui um armamento tão pesado quanto o dos EUA, inclusive algumas armas que o Talibã tem posse, eram do exército norte-americano. É lutar para morrer.
Aos afegãos restou a comodidade e a passividade. Muitos jovens devem entrar para o terrorismo por medo de morrer, reforçando ainda mais a longa vida do Talibã. As mulheres deverão se sujeitar às interpretações que os mandantes fazem da sharia, a lei islâmica e não terão a possibilidade de terem um outro destino. As crianças crescerão em um país em que seus pequenos estão desnutridos e não têm nenhuma política pública para desenvolvê-los a um futuro de sucesso.
Isso foi tudo o que os EUA deixaram para trás depois de Donahue entrar naquele avião. Vidas totalmente perdidas após crerem fielmente em uma proposta, que após 20 anos, não foi concretizada. Agora, os afegãos que “lutem”, literalmente, nessa nova batalha por suas vidas.
