Mourão assume erros de governo federal na pandemia e vai contra discurso de Bolsonaro

Relação entre Bolsonaro e Mourão infla a crise política que o governo enfrenta, colocando mais um empecilho nos planos do presidente

A carta que Temer escreveu para a presidenta Dilma Rousseff, quando era vice-presidente, lá em 2015, foi crucial para os desdobramentos da jogada política que decorreu no impeachment (ou golpe) da petista. 

Durante a repercussão da carta que dizia, basicamente, que ele era um figurante dentro do governo, muito se foi falado que Temer estaria insatisfeito com Dilma e que isso poderia ser uma ruptura grande do vice com a presidenta, criando mais uma crise política no governo. Importante lembrar que Dilma atravessava uma crise política, econômica e ainda lidava com manifestações contra seu mandato, aliadas a um crescimento exponencial do antipetismo com as investigações da Lava Jato que fechavam o cerco contra o Partido dos Trabalhadores. 

A história parece estar se repetindo atualmente. Não digo que irá terminar em um golpe e Mourão será o novo presidente da república, logo um ano antes das novas eleições presidenciais, mas ele tem munição para agravar ainda mais a crise política que Bolsonaro enfrenta. 

O presidente lida, hoje, com uma CPI da Covid que tem um foco quase que integral nas ações e omissões do governo federal, investigações do Ministério Público em relação a contratos superfaturados da compra da vacina Covaxin, manifestações contra o governo, além das crises econômica, hídrica, sanitária e política. 

Esta última teve um leve agravamento nos bastidores do Planalto, depois de uma entrevista que o vice-presidente Hamilton Mourão deu ao programa Roberto D’Avila, da GloboNews ontem (22). Em suas falas, Mourão criticou o trabalho do governo na atuação frente à pandemia no Brasil. Vamos analisar um pequeno trecho, mas que diz muito:

“Vou dizer para ti qual é o nosso maior erro. Na minha visão, a questão de comunicação, desde o ano passado, de campanhas de esclarecimento da população. Eu acho que este foi o grande erro: [não ter feito] uma campanha de esclarecimento firme, como tivemos no passado, de outras vacinas. Então, uma campanha de esclarecimento da população sobre a realidade da doença, orientações o tempo todo para a população”, declarou Mourão.

  • “Nosso maior erro”

Diferentemente do presidente da república, Mourão assume que houve um erro do governo federal. Bolsonaro, em uma tentativa de se isentar de sua responsabilidade e de tentar melhorar sua imagem para 2022, não assume que houve erros na gestão frente à pandemia. Inclusive, o presidente insiste no erro, como continuar influenciando seus seguidores a tomar cloroquina contra a covid, deixando claro que, para ele, isso não é um erro. 

Num contexto de CPI da Covid, em que as irresponsabilidades do governo federal estão sendo apontadas uma a uma, um membro de tamanho expressivo do governo, como o vice-presidente, assumir que houve erros, é ir contra toda a estratégia que Bolsonaro utiliza para afirmar que ele fez tudo certo e isso agrava ainda mais a crise política. 

  • “Campanhas de esclarecimento da população”

O que mais se sabe, por experiência própria de todos os brasileiros, é que não houve campanhas de esclarecimento da população feitas pelo governo federal. Muito pelo contrário. O discurso da “gripezinha” foi uma das maiores provas de que Bolsonaro não queria investir em uma conscientização do problema que estávamos passando. 

E aí, você pode me questionar: “ah, mas Luana, quando o Bolsonaro disse isso, estávamos no início da pandemia, não tínhamos muitas informações”. Isso é uma falácia, porque o Brasil foi um dos últimos países a receber o vírus e já havia muitos exemplos do que fazer e do que não fazer pelos países que já estavam sofrendo com o coronavírus há mais tempo. 

Além disso, mesmo com diversos estudos comprovando que não existe tratamento precoce contra a covid, o governo gastou R$ 23 milhões com propaganda de medicamentos ineficazes. 

Enquanto isso, pouco e muito raro se vê campanhas, feitas pelo governo federal, de esclarecimento sobre o uso de máscaras e a importância do distanciamento social ou um incentivo em massa para tomar a vacina. 

  • “Como tivemos no passado, de outras vacinas.”

Aqui, talvez, foi uma das partes mais polêmicas desse trecho da entrevista, porque a menção feita pelo vice-presidente, é uma menção dos governos passados e quem estava nos governos passados era o PT. 

E Mourão não mentiu. O histórico de vacinação do Brasil, por intermédio do SUS, sempre foi referência mundial. Na epidemia do H1N1, o governo Lula vacinou 88 milhões de pessoas em 3 meses. Já no governo Bolsonaro, a vacinação contra a covid-19 vai a passos lentos, porque o presidente sempre foi contra a aquisição das vacinas. 

De acordo com bastidores do Planalto, Bolsonaro se irritou com as declarações de Mourão na entrevista dada à Globo, emissora que o presidente também não agrada muito. Mas não é a primeira vez que Bolsonaro e Mourão se estranham. O vice-presidente já deixou claro que os dois não têm um diálogo consolidado e que Bolsonaro não o convida para reuniões ministeriais. Além disso, Mourão já declarou que o presidente não deve mantê-lo como vice nas campanhas presidenciais para 2022. 

Assim como Temer se sentiu, Mourão se diz um figurante no governo. Isso é um perigo para a democracia de uma república federativa como o Brasil, que necessita que seus membros tenham um diálogo e uma interação efetiva. Mas, infelizmente, diálogo e efetividade é o que menos se vê dentro do governo atual.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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