Michel Temer: terceira via?

Ex-presidente não ajudou Bolsonaro com a “carta-recuo” à toa. Nada na política é de graça.

“É importante que alguém venha a público para dizer que precisamos de paz no país, harmonia entre as instituições, precisamos que se cumpra a Constituição rigorosamente.” O ex-presidente do Brasil, Michel Temer, citou essas palavras em uma entrevista que deu em um webinar em agosto. Na ocasião, a reunião discutia sobre os rumos das eleições brasileiras de 2022 e ponderava sobre a possibilidade de uma terceira via. 

Durante o ano, Temer deu declarações diferentes sobre essa terceira via, que escapa de uma eleição polarizada entre Lula e Bolsonaro. Na ocasião citada acima, o ex-presidente ressaltou a necessidade de um outro candidato para essas eleições. Temer afirmou que ter uma terceira via, era uma homenagem ao eleitor. 

Depois, em setembro, logo após ajudar Bolsonaro com a carta de reconciliação entre o presidente e o STF, Temer deu uma outra entrevista dizendo que a tal terceira via era essencial, mas que não vê isso acontecendo atualmente. 

Entretanto, o emedebista voltou a movimentar suas redes sociais de uma forma bem saudosa. Temer tem colocado posts relacionados à época em que era presidente, exaltando a forma como ele resolveu alguns dos problemas do Brasil durante sua gestão. No mesmo dia em que afirmou que não via uma terceira via nas eleições do ano que vem, trocou sua foto de perfil do Facebook, a qual mantinha desde 2018, para uma foto oficial de quando ainda era presidente. 

Além disso, em uma postagem recente, ele pediu aos seus seguidores que se lembrassem de alguns feitos de sua gestão frente ao Brasil. No post, ele dizia: “Pegamos o país com 9,32% de gestão da gestão anterior. Com trabalho eficiente, reduzimos a inflação para 2,76% ao ano. Passando aqui só para relembrar, pois é.” 

Temer se utiliza de um tema em voga para o país, já que a alta acumulada da inflação em 12 meses é de 9,85%. O ex-presidente, nesse movimento, afirma aos seus eleitores que conseguiria resolver a alta dos preços que tanto preocupa as famílias brasileiras.

No Facebook, as buscas pelo ex-presidente estão crescendo e ele já aparece como um usuário popular da rede social. Em alguns comentários em suas postagens, já é possível verificar seguidores pedindo o “Volta, Temer”. Para um ex-presidente que ficou conhecido como “Fora, Temer”, essa mudança em sua imagem é bastante significativa. 

Seria Temer a terceira via que irá preocupar Bolsonaro e Lula?

Na política não há movimento sem uma intenção muito bem fundamentada. Temer, quando ajudou Bolsonaro na carta de reconciliação com o STF, sabia que esse ato lhe daria projeção. Até porque Bolsonaro, quando lançou a carta, não deu nenhum crédito ao ex-presidente. Quem assumiu a autoria foi o próprio Temer, para que essa projeção nacional que ele tanto almejava se concretizasse. 

Ao ajudar Bolsonaro, Temer demonstra ser um político com P maiúsculo. Isso não significa ser bom ou não para o país, mas o ex-presidente demonstra uma característica essencial para quem quer se manter dentro do sistema político brasileiro: poder de persuasão e articulação

Temer mostrou que sabe dialogar com qualquer lado e nisso, ele se diferencia muito de Bolsonaro, mas nem tanto de Lula, que é outro político que está traçando a mesma estratégia para sua candidatura. Após a carta, muitos internautas questionaram no Twitter o porquê muitos brasileiros estarem com medo de Bolsonaro dar um golpe na democracia, porque até para isso é necessário ter uma boa articulação e o presidente dependeu de Temer para articular com o Poder Judiciário. 

E nesse caos em que se faz o presente, causado por essa política de conflitos de Bolsonaro, Temer aparece como o pacificador, que dialoga com todos os poderes e com todas as parcelas da população brasileira. E isso é um ponto positivo para quem tenta ser essa terceira via. 

Vejamos mais desses pontos positivos para Michel Temer.

  • Pacificador: Temer seria o candidato “paz e amor”, já que, com os lados muito polarizados, governo Lula ou Bolsonaro seria conflituoso para as partes polarizadas da população.
  • Temer não agradaria nenhum dos lados polarizados, mas seria o candidato neutro. Para a direita e a extrema-direita de Bolsonaro, Temer ainda é o articulador do golpe contra o PT. Já para a esquerda, atualmente, qualquer coisa é melhor que Bolsonaro.
  • Passa tranquilidade para outros políticos, justamente porque sabe dialogar com todos os lados. Temer é um exímio articulador, ele articulou de forma muito assertiva o impeachment de Dilma, sendo os dois da mesma chapa. Logo, congressistas, principalmente do centrão (de onde vem Temer), ficariam mais tranquilos em tê-lo na presidência. 

Entretanto, para conseguir o feito de ser o candidato da terceira via, Temer dará um grande trabalho para sua equipe de gestão de imagem e crise. Isso porque o ex-presidente atingiu 82% de reprovação em 2018. 

Além disso, Temer foi o presidente que precisou lidar com a fatídica Greve dos Caminhoneiros de 2018, que colocou a economia do país em risco e, bom, como ele era quem estava na presidência, as críticas e demandas dos caminhoneiros foram inteiras para ele. 

Análise: redes sociais ajudam a nova/velha política brasileira

A volta de Temer foi marcada, também, por um vídeo que diz muito sobre suas novas estratégias enquanto candidato da terceira via. Nesse vídeo, que você pode assisti-lo clicando aqui, Temer se apresenta como um político nato, um verdadeiro articulador, mas de uma forma mais leve e moderna. 

Ele não se isentou das estratégias típicas, como mostrar a foto de sua esposa, Marcela Temer, e de seu filho, o Michelzinho. Isso mostra o lado família do ex-presidente, que é importante para grande parte da população brasileira. 

Temer também citou seus feitos enquanto presidente, como as reformas trabalhista e do ensino médio, falou sobre estabilização da economia e se mostrou como um mero entendedor de direito constitucional. 

No final, ele olha diretamente para a câmera e convida quem está assistindo para conversar com ele. Fala que irá usar as redes sociais para debater os rumos do Brasil e falar de “outras coisas também” com seus seguidores. Quem o assiste, sente que o convite é individualmente para si e isso é importante para a construção de novos eleitores, já que Temer se mostra disposto a ouvir a população. 

Bolsonaro, literalmente, ensinou os novos políticos a utilizarem as redes sociais para fazer campanha. Infelizmente, ele as utilizou de formas ilícitas espalhando fake news, inclusive há a suspeita de que haja um suposto “gabinete do ódio” na presidência, que continua espalhando notícias falsas pela internet. Mas, os políticos viram que não é necessário, sequer, se fazer presente em debates na TV para ganhar o cargo de presidente da república, basta saber utilizar bem as redes sociais e as eleições de 2022 serão pautadas por esse fato. 

Temer, Lula, Ciro, os presidenciáveis já se antecipam nessa toada para dialogar com seus seguidores. O caminho é longo, mas é importante começar agora. 

Entretanto, apesar da “roupagem” ser nova, a política velha se mantém. Não é porque os políticos se modernizaram e agora se utilizam de memes e vídeos de TikTok para dialogar com seu eleitor, que o modus operandi dentro do Palácio do Planalto mudou. A velha política, a política do toma lá, dá cá ainda não evoluiu, mesmo com o advento das redes sociais. 

Porém, as redes sociais nos permite ter mais um canal para cobrar. O importante nesse contexto todo é termos noção do nosso poder.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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