#TecTec: o barulho que resiste à máquina do tempo de escrever
Relegadas aos museus e memórias, as velhas datilografadoras ainda dão a letra dos destinos de muita gente nos rincões indianos

Enquanto no mundo as máquinas de escrever já são peças de museu, na Índia elas continuam presentes no dia a dia, revelando vantagens curiosas dessa tecnologia analógica mesmo na era digital.
Tecla de espaço três vezes, primeiro parágrafo. Se este texto tivesse sido escrito em uma máquina de escrever, certamente esse ‘protocolo inicial’ teria sido seguido antes de o papel de sulfite ser atingido pelas teclas móveis de metal.
O distanciamento da margem à esquerda do papel, possível também pela livre movimentação da alavanca saliente, acessível à mão esquerda, costuma ser um capricho para identificar, além dos parágrafos, outras anotações.
Pois é assim que se costuma trabalhar com as máquinas de escrever, seja em redações, escritórios ou departamentos públicos da Índia, onde estas velhas companheiras da escrita seguem dando a letra da rotina de muita gente.
Reportagem publicada pela BBC e traduzida pelo Portal UOL dedilha essa analógica realidade indiana em tempos digitais e imprime uma conexão entre diferentes tecnologias pelas linhas das oportunidades da vida
PRAZER, SOU A MÁQUINA DE ESCREVER
Comum para muitos, a máquina de escrever é ‘coisa do passado’ para muita gente que já nasceu em um tempo em que já pareciam obsoletas, substituídas pelos teclados dos computadores e dispositivos móveis.
As primeiras máquinas de escrever foram fabricadas a partir de 1868 pela extinta Remington – ainda hoje, uma ‘grife’ no assunto. Os últimos exemplares saíram de linha de produção em 2011, apesar do sucesso de vendas. Onde? Na Índia!
As máquinas de escrever ganhariam ainda versões elétricas, fabricadas pela IBM a partir de 1941 e eletrônicas, pela Olivetti, no início dos anos 1970. À medida que o equipamento evoluía as empresas procuravam se modernizar.
Até que, ainda no começo dos anos 1980, os computadores pessoais começaram a disputar o espaço e a preferências das máquinas de escrever. Não demorou muito para que se trocasse o papel pelos monitores pelo mundo afora.
VANTAGENS ANALÓGICAS
Mas, pelo menos na Índia, as máquinas de escrever continuam muito presentes no dia a dia das pessoas. Há alguns motivos que justificariam a procura pelos cursos de datilografia, tão raros por aqui.
O primeiro é a agilidade. Pessoas que aprendem a digitar em máquinas de escrever costumam ser mais rápidas ao digitar em computadores em virtude da repetição e da diferença do tipo de teclado (mais ‘baixo’ que no modo ‘antigo’).
Outro e, talvez, o principal, é a exatidão. Quem digita sabe que, se errar, basta marcar a palavra e apertar a tecla ‘delete’ e pronto. Quem datilografa, se vacilar, pode até perder o serviço. Por isso, zela pelo acerto, sempre.
Que o digam os baby boomers (nascidos entre 1945 e 1964) e os(as) das gerações ‘X’ (1965 a 1979) e ‘Y’ (1980 a 1994) que tiveram a oportunidade de cursar datilografia e preservam a mesma habilidade nos computadores dos dias de hoje.
POR QUE A ÍNDIA AINDA RESISTE ÀS MÁQUINAS DE ESCREVER
Parte da explicação para essa resistência está na burocracia indiana, que por muitos anos exigiu documentos datilografados como forma oficial de comprovação em cartórios, tribunais e repartições públicas. Escreventes profissionais, conhecidos por instalarem pequenas bancas nas ruas próximas a órgãos públicos, ainda oferecem o serviço de preencher formulários e petições diretamente na máquina, cobrando por página ou por documento.
Essa cultura formou gerações de datilógrafos que fizeram da profissão um meio de vida estável, muitas vezes transmitido de pai para filho. Mesmo com a digitalização crescente dos serviços públicos indianos, ainda existe uma parcela da população, sobretudo em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos, que prefere recorrer a esses profissionais em vez de lidar diretamente com computadores e formulários eletrônicos.
O RENASCIMENTO DAS MÁQUINAS DE ESCREVER COMO OBJETO DE DESEJO
Curiosamente, fora da Índia, as máquinas de escrever também vivem um pequeno renascimento, só que como objeto de coleção e nostalgia. Escritores, designers e entusiastas do vintage têm restaurado modelos antigos, valorizando o som característico das teclas e a ausência de distrações digitais, como notificações e abas de navegador, na hora de produzir textos.
Esse movimento, batizado por alguns entusiastas de “renascimento analógico”, defende que escrever em uma máquina obriga o autor a pensar melhor antes de teclar, já que corrigir um erro exige muito mais esforço do que simplesmente apertar o botão de apagar. Para essas pessoas, a máquina de escrever deixou de ser apenas uma ferramenta de trabalho e se tornou também uma forma de desacelerar a rotina.
NOSTALGIA
Relegadas a peças de museu, as máquinas de escrever costumam estar ligadas a fatos que remetem a saudosas lembranças para quem conviveu em épocas em que praticamente tudo que se lia era datilografado antes de chegar às mãos.
Documentos, jornais, revistas, memorandos, cartas de amor... tudo passava pelo crivo das teclas e dedos que, freneticamente, providenciavam que as mensagens ultrapassassem as fitas e os papéis de carbono.
Tão presentes na vida das pessoas como os smartphones são nos dias de hoje, as máquinas de escrever foram retratadas nas artes, da pintura à música, do cinema ao teatro, e se imortalizaram no imaginário popular.
Ficou para a história do cinema a impagável cena do comediante Jerry Lewis (1926-2017) e sua máquina de escrever imaginária no filme ‘Errado Pra Cachorro’ (1963).
Entre tantas obras, impossível não citar ainda a música ‘Meu Caro Barão’, da peça musical ‘Os Saltimbancos’ (1977), de Chico Buarque de Holanda, adaptada para o cinema em 1981 pelo clássico “Os Saltimbancos Trapalhões”. E ponto final.
