Japoneses não concordam com as Olimpíadas, mas o mundo já está em Tóquio

Política, economia e opinião pública movem sistemas capazes de realizerem uma Olimpíada em uma cidade que vê os números da pandemia aumentarem cada vez mais

O esporte é uma paixão em comum de todos os povos do mundo. Não interessa se seu país é mais do futebol, do vôlei, do basquete ou do cricket. O esporte é algo que consegue ultrapassar as maiores barreiras em prol do misto de sentimentos que ele consegue nos conceder. Quem nunca se emocionou com a quebra de paradigmas que é ver mulheres muçulmanas praticando um esporte tão masculinamente estigmatizado quanto o futebol? Esse é o poder do esporte. 

Esse poder imenso é possível ser percebido em grandes campeonatos mundiais, como a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas. Basta observar as arquibancadas cheias de pessoas do mundo inteiro felizes e animadas com esse verdadeiro acontecimento. 

Com a pandemia do novo coronavírus assolando o mundo, os esportes entraram em um limbo. O distanciamento social tirou uma das coisas mais importantes da essência do esporte: a cooperação em grupo. Bom, pode ter tirado do esporte, mas o próprio esporte ensinou isso aos milhões de pessoas que foram ou não vítimas da doença: nesse momento, era necessário ter a cooperação em grupo que nos faz ganhar tantos campeonatos, para que pudéssemos ganhar a guerra contra o vírus. 

Após o grande trabalho feito pela ciência para que as vacinas fossem desenvolvidas a tempo de nos salvar, o ritmo da imunização da sociedade começou a caminhar mais rápido fazendo com que muitos países conseguissem retomar aos poucos a vida normal e assim, o esporte também foi voltando.

Campeonatos como a Champions League já acontecem, alguns jogos com um público limitado. A Copa América e a Eurocopa também aconteceram com público em alguns países, mostrando que esportes de grande repercussão estavam voltando ao seu padrão habitual. 

Entretanto, essa aglomeração que os esportes proporcionam não foram isentas de críticas. Isso porque, por mais que a vacinação esteja avançando e os números da pandemia mostrem sinais fortes de desaceleração, ainda não estamos 100% imunizados para barrar de vez o vírus e suas variantes. 

E essa crítica se estendeu a um dos maiores eventos esportivos do mundo: os Jogos Olímpicos. Eles foram cancelados em 2020 depois da propagação do coronavírus pelo mundo e sua data de acontecimento foi remarcada para este ano. O evento multiesportivo será em Tóquio, no Japão, e a cerimônia de abertura está marcada para sexta-feira (23). 

Apesar de ser uma potência mundial, o Japão patinou nas medidas restritivas contra a Covid-19 e sua vacinação acontece em passos lentos. Por enquanto, apenas 20% da população está 100% imunizada contra o vírus. Na iminência de uma nova variante perigosa, a Delta, a pandemia mostra que está viva e que muito há para se fazer ainda. 

Por conta disso, muitos japoneses se dizem contra a ocorrência da Olimpíada neste momento em que as coisas ainda parecem muito incertas. Uma pesquisa feita pelo jornal Asahi Shibum, de grande credibilidade no Japão, mostrou que 70% dos japoneses entrevistados não acreditam que os Jogos Olímpicos podem ser realizados com segurança em relação à pandemia. 

Entretanto, o mundo já se encontra em Tóquio.

Casos de covid crescem entre envolvidos com as Olimpíadas

Dados oficiais confirmam que, até o momento, há 58 casos de covid-19 confirmados entre membros e envolvidos dos Jogos de Tóquio. Dentro desse número, há três atletas infectados, hospedados na Vila Olímpica. Além disso, muitos atletas estão isolados após estarem em contato com pessoas que deram positivo para a doença. Inclusive, a tenista estadunidense Coco Gauff anunciou hoje no Twitter que contraiu covid-19 e não vai participar mais dos Jogos Olímpicos. 

Mesmo com os números de casos aumentando e com as manifestações contrárias da população, o governo japonês e o Comitê Olímpico Internacional (COI) garantem que os Jogos acontecerão de forma segura para os cidadãos japoneses e para todos os membros envolvidos. Segundo o governo e o órgão, as medidas de segurança que estão sendo tomadas amenizam o risco de um novo surto, porque “o grau de contato entre a comunidade internacional e os japoneses é muito pequeno”, afirmou Brian McCloskey, chefe do grupo de especialistas independentes em Covid-19 que orienta o COI, em entrevista à imprensa. 

Por que investir em uma Olimpíada nesse momento?

Apesar da beleza do esporte, há muitos interesses envolvidos nele, principalmente quando falamos de esportes que possibilitam grandes movimentações de dinheiro e lucro. No caso do Japão, o primeiro-ministro Yoshihide Suga tem seus objetivos com o acontecimento das Olimpíadas e um deles é garantir sua popularidade. 

Isso acontece porque o atual premiê não tem a simpatia de grande parte dos japoneses e nem dos partidos políticos que constituem o parlamento. Suga, que entrou no poder com quase 70% de aprovação, viu sua popularidade cair com a ascensão dos casos da Covid-19 no país. 

As Olimpíadas eram a forma que ele tinha de tentar aumentar sua popularidade, mas as polêmicas que cercam esse acontecimento não permitem que os japoneses se sintam confortáveis com a realização dos Jogos Olímpicos. 

Além disso, os Jogos de Tóquio eram uma boa oportunidade para uma possível retomada da economia japonesa, mas as restrições montadas para conter o avanço do vírus não permitirão que os jogos tenham público. Por conta disso, um estudo da NRI (Nomura Research Institute) indica que os Jogos de Tóquio poderiam gerar ganhos de US$ 17,8 bilhões, mas vão perder quase US$ 3 bilhões. De acordo com a pesquisa, o lucro dos jogos deve ficar perto de US$ 15 bilhões. Entretanto, esse valor é inferior a US$ 15,4 bilhões, que é o custo do orçamento atual das Olimpíadas. 

Politicamente falando, o primeiro-ministro japonês precisa convocar novas eleições até o mês de outubro, no máximo. A ideia de uma economia retomando após a grande festa das Olimpíadas era sua verdadeira campanha política. Entretanto, investir em popularidade no meio de uma pandemia pode custar seu cargo.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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