Greve dos caminhoneiros: teremos mais uma em 2021?

Quem não se lembra de sair na rua e ver os entornos dos postos de gasolina com uma fila quilométrica de carros, que ansiavam por um pouco de gasolina? Ônibus parados por não ter combustível, supermercados com alimentos em falta, o Brasil passava por um verdadeiro caos quando os caminhoneiros decidiram entrar em greve em maio de 2018.

A paralisação que mostrou a verdadeira força da classe, aconteceu no governo Temer com a alta dos preços do óleo diesel, que estava associado ao aumento do dólar e do petróleo no mercado internacional, que foram base da política de preços da Petrobras, em que os ajustes aumentavam frequentemente, inclusive de um dia para o outro. Com isso, ficava extremamente difícil para a classe se organizar financeiramente para comprar o combustível necessário para seu trabalho.

O governo foi informado sobre a greve pelos caminhoneiros com antecedência, dando ainda, a possibilidade de anunciarem mudanças na política de preços, além de terem a chance de atender outras reivindicações da categoria, como melhores condições de trabalho e mais segurança nas estradas. 

A paralisação de 2018 durou 10 dias e trouxe diversas consequências para a economia brasileira. Muitas empresas e indústrias diminuíram a produção, universidades tiveram aulas suspensas e até ambulâncias de hospitais ficaram reféns da falta de combustível. Entretanto, apesar de terem dado um grande recado ao Brasil e até terem conseguido, temporariamente, uma redução no preço do diesel, os caminhoneiros ameaçam voltar com a greve em 2021. O motivo? Basicamente os mesmos da greve anterior. 

Ainda em 2018, além de redução dos preços, caminhoneiros pediam por menos corrupção e até governo militar

Apesar da greve ter começado abordando questões econômicas, é preciso lembrar o contexto: Temer, ex-vice presidente de Dilma Rousseff, tinha dado um golpe em 2016, resultando no impeachment da então presidenta. A saída de Dilma da presidência da República ajudou a inflar uma polarização política que já era bastante presente antes mesmo do acontecimento.

Em 2018, ano da greve, aproximava-se as eleições presidenciais novamente, com um candidato, ex-militar, que se dizia ser anticorrupção e que iria trazer a disciplina dos militares de volta ao governo: Jair Bolsonaro. O discurso do então candidato e hoje presidente, conseguiu ganhar as pautas da paralisação dos caminhoneiros e o que era, até então, uma greve sobre questões econômicas, virou uma greve com reivindicações políticas também.

Lá para o terceiro e quarto dia de greve, os caminhoneiros ampliaram o discurso anticorrupção nas estradas e, alguns, solicitaram uma intervenção militar, com a esperança de terem, assim, dias melhores. 

Quase 3 anos se passaram, mas o que faz os caminhoneiros ameaçarem uma greve novamente?

Mais uma vez, os caminhoneiros reclamam da alta do preço do diesel e se dizem contra a política de preços da Petrobras que se baseia no mercado internacional. O que acontece é que, com o dólar em alta, a estatal consegue exportar seus produtos conseguindo um percentual maior de lucro. Isso também acontece com os ruralistas, especialmente, os que estão à frente do agronegócio. Dólar em alta é sinônimo de mais lucro. Entretanto, esse lucro não cai para todo mundo e a população paga preços altos em alimentos básicos, assim como os caminhoneiros sofrem com os altos preços dos combustíveis. 

Além disso, os caminhoneiros solicitam por uma alta nos preços dos fretes, em que inclusive, o STF irá analisar a constitucionalidade do descumprimento da lei que prevê o piso mínimo de fretes. Pedidos como, mais segurança nas estradas e melhores condições de trabalho também são requisitados pelos caminhoneiros, que solicita uma atenção maior do governo para com a classe.

Mas, afinal de contas, a greve vai mesmo acontecer?

Quando a greve aconteceu em 2018, sindicatos e órgãos que representam os caminhoneiros disseram que a paralisação foi organizada com antecedência, seis meses antes e com a classe muito bem articulada, juntamente com outros grupos sociais, como os ruralistas, por exemplo, além do apoio popular.

Entretanto, dessa vez, os caminhoneiros não estão tão organizados assim. Nem todos apoiam a greve, especialmente no meio da pandemia que ainda está vigente. Na verdade, em entrevista ao site da BBC Brasil, o ex-caminhoneiro Wanderlei Alves, um dos líderes da greve de 2018, disse que essa ameaça de greve foi apenas uma tentativa de comunicação com o governo. 

Apesar do presidente Bolsonaro ter feito um apelo à classe, pedindo que eles não paralisassem e que iria tentar zerar o imposto PIS/Cofins do óleo diesel, um áudio vazado do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, dizendo que não iria atender às demandas dos caminhoneiros, colaborou ainda mais na inflamação do problema. 

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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