Governo Bolsonaro ou Governo Centrão?
Bolsonaro realizou mais uma troca ministerial para favorecer o grupo político que já tem o governo nas mãos

“Se você tem críticas aos deputados e senadores do Centrão, não vote mais neles” – essa fala é do presidente Jair Bolsonaro em entrevista à Rádio Banda B (PR), divulgada em suas redes sociais. Na ocasião, o presidente falava sobre a nova troca ministerial que ele está movimentando em seu governo.
Mais uma vez, Bolsonaro mexe em seu tabuleiro de xadrez para colocar mais peões, cavalos, torres e bispos do centrão em cargos importantes do governo, em uma tentativa de agradar o grupo político que comanda o Congresso Nacional.
O objetivo de Bolsonaro com essa nova mudança nos ministérios é tentar se manter no governo, perdurar sua governabilidade e fazer sua base para a tentativa de uma reeleição em 2022. Mas como isso acontece?
Para entender, vamos desmembrar as peças.
Quem é o centrão?
O centrão é um grupo político dentro do Congresso Nacional que tem como principal característica ser maioria. Até porque, se não fosse por isso, ele não teria o poder que tem.
É dentro do Congresso que os projetos que vão influenciar diretamente na vida da população são criados e também votados. Os projetos que o presidente cria, por exemplo, são aprovados ou rejeitados por lá também.
Logo, deputados e senadores têm o poder de dar governabilidade ao presidente da república, que em outras palavras significa, “deixar o presidente trabalhar” e ir aprovando a maioria das coisas que ele sugere.
Quando os deputados e senadores se juntam e formam uma maioria fixa, eles formam o grupo que se chama centrão. Esse centrão é facilmente comprado pelos governos, já que é uma política de “toma lá, dá cá”: o governo compra o centrão para que eles aprovem seus projetos e o centrão cobra do governo cargos e outros benefícios que eles acharem melhor.
No caso de Bolsonaro, além da governabilidade, o presidente também comprou o centrão para que o processo de impeachment não seja iniciado e, juntamente, para que o presidente tenha apoio em uma possível reeleição em 2022.
Mas é importante lembrar – Durante sua campanha em 2018, Bolsonaro fez a promessa de que não iria se sujeitar ao centrão e se render à velha política (que é essa política de compra do centrão). Mas parece que o jogo virou, não é mesmo?
A nova troca
Essa última mudança ministerial do governo Bolsonaro acaba de entregar seu governo ao centrão. O interessante aqui, antes de saber das mudanças feitas, é entender que Bolsonaro tem um governo dividido:
– Antes o governo era dividido entre militares, bolsonaristas e olavistas.
– Depois tivemos um governo mais centrado nos militares e nos olavistas.
– Mais adiante, militares, olavistas e centrão.
– Hoje temos militares e centrão.
Atualmente, há uma disputa entre militares e centrão. Ambos grupos desejam tomar o governo e assim, ter o poder sobre os rumos que o Brasil leva. E essa briga ainda renderá muitas rupturas dentro do governo Bolsonaro.
Nessa última troca, Bolsonaro tirou um membro dos militares, o general Luiz Eduardo Ramos, e colocou em seu lugar o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que é um membro típico do centrão.
O general Ramos ocupava a liderança da Casa Civil, que é um dos ministérios mais importantes, porque é ele quem auxilia na gerência e na integração de um governo. Logo, só é ocupado por pessoas de confiança do presidente. Agora, o ministro-chefe da Casa Civil é um senador do centrão.
Nesse caso, Eduardo Ramos foi transferido para a Secretaria Geral da Presidência, que estava sob o poder do ministro Onyx Lorenzoni.
Já Lorenzoni moveu-se para um novo ministério, que foi desmembrado do ministério da Economia. Bolsonaro mandou recriar o ministério do Trabalho e colocou na mão do ex-ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência.
Em resumo, a troca ficou assim:
– Sai general Ramos da Casa Civil e entra senador Ciro Nogueira;
– Ramos entra para a Secretaria Geral da Presidência, tirando de lá o ministro Onyx Lorenzoni;
– Lorenzoni vai para um novo ministério do Trabalho.
Análise: o perigo disso tudo
Quando reformas ministeriais são feitas de forma recorrente em um governo, significa, principalmente que:
– não há estabilidade dentro do governo;
– e que também o plano de governo apresentado no início do mandato, já não existe mais.
Isso acontece porque tudo o que foi planejado e prometido anteriormente, foi feito seguindo preceitos dos ministros originais. Só na Educação, tivemos 4 ministros. Na Saúde, idem. Não há uma sensação de continuidade no processo e muito menos uma estabilidade no que está sendo feito.
E isso é perigoso porque você vota em um governo que prometeu um planejamento para o país, mas recebe outra coisa.
Além disso, o fato de ter um “governo centrão” ressalta a ideia de que estamos nas mãos de interesses próprios. O centrão age de acordo com o que será benéfico para ele dentro do jogo político.
Logo, não há um cumprimento do papel social dos políticos e dos governos que estão aqui para servir o povo. Ao invés disso, eles estão lá para servir aos seus próprios interesses.
