Era uma vez a história de Lula que não quer que Bolsonaro saia do poder…
Ex-presidente abandona a coerência e não assinou nenhum pedido de impeachment contra Bolsonaro. Pelo contrário, para sua estratégia política dar certo, é preciso que Bolsonaro dispute com ele as eleições de 2022

Há uma teoria nas artes cinematográficas que se chama Jornada do Herói. Essa teoria, basicamente, é um tutorial de como contar histórias interessantes o bastante para convencer quem está assistindo a acompanhar a história até o final. A maioria dos filmes seguem estritamente a jornada do herói, que é composta de um passo a passo para a construção dessa história.
Nesse passo a passo, temos que ter um herói, que ainda não sabe que é herói. Esse herói é convidado a um grande chamado que ele resiste fortemente em aceitar, mas esse chamado é seu destino e, então, ele o segue. Após aceitar esse chamado, nosso herói passa por diversas provações que dificultam o seu caminho, mas após vencer todas essas complicações compostas por situações e pessoas que tentam te derrubar, ele tem sua recompensa. Essa recompensa confirma que suas escolhas foram certas e agora ele sabe que é um grande herói.
Nós temos uma tendência forte em nos identificarmos com essa figura do herói, porque todos nós passamos por essa jornada na vida e, justamente por isso, muitas marcas e empresas utilizam dessa teoria para conseguir vender seus produtos, tanto que a Jornada do Herói, atualmente, é usada em estratégias de marketing. Entretanto, não somente no cinema, nos roteiros, nos livros e empresas que a Jornada do Herói é colocada em prática, mas também na política.
A identificação do público com a política é, simplesmente, essencial. Sem identificação, não há conversão ao voto. E essa estratégia de utilizar da Jornada do Herói, para de fato, construir uma narrativa heroica para o político, é uma jogada muito assertiva para vários cases. Atualmente, conseguimos observar essa estratégia sendo colocada na prática.
O ex-presidente Lula tem uma história interessante dentro da política. Digamos que seu chamado começou lá dentro do sindicato dos metalúrgicos, em que ele conseguiu mobilizar a grande greve que movimentou os trabalhadores a reivindicarem melhores salários e condições de trabalho. A greve dos metalúrgicos teve uma relevância significativa do ponto de vista histórico, porque foi uma das primeiras greves de massa que se desenvolveu no pós-ditadura militar.
Vendo que tinha um carisma para mobilizar grandes massas, Lula expandiu seu lado político e começou a se aventurar nas eleições para a presidência da república no Brasil. Ele se candidatou 4 vezes, sendo as 3 primeiras tendo perdido de forma dramática. Na primeira vez, foi ao segundo turno com Fernando Collor e perdeu para os ex-presidente de forma apertada. Nas outras duas vezes, Lula mudou sua estratégia, passando de um candidato radical que defenderia grandes greves em empresas e indústrias, para um candidato que conversaria de forma mais leve com o empresariado. Entretanto, ainda assim não foi suficiente para bater o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nas duas vezes.
Lula só conseguiu sua recompensa na quarta vez que se candidatou, quando disputou o cargo com José Serra, levando a presidência no segundo turno das eleições. Finalmente, o ex-metalúrgico que movimentava greves, conseguiu se tornar presidente da república. Aqui se terminava uma jornada e iniciava outra.
A que findou, o “herói” Lula, que saiu do nordeste e foi para São Paulo, ouviu seu chamado e entrou na política, mesmo passando por diversas dificuldades até chegar na recompensa que era se tornar presidente da república.
Na jornada que se iniciava a partir daquele momento, o presidente aproveitava os feitos de sua recompensa e, mesmo passando por alguns percalços, como o Mensalão do PT, ele ainda conseguiu se reeleger em 2006.
O presidente era realmente o “herói” da política contemporânea, sendo considerado por muitos brasileiros um dos melhores presidentes que o Brasil já teve. Lula, em 2010, saiu da presidência da república com 87% de aprovação, deixando um largo espaço para eleger Dilma Rousseff, sua candidata para dar continuidade ao PT no centro do poder político no Brasil. E conseguiu.
Dilma venceu José Serra, que tinha se candidatado novamente, nas eleições de 2010. O posto de primeira presidenta mulher foi significativo para a ex-presidenta que conseguiu, com o apoio de Lula, se manter na presidência e ainda prorrogar seu mandato. Em 2014, Dilma conseguiu se reeleger após uma votação apertada contra Aécio Neves, que inclusive alegou que sua perda se deu por conta de uma fraude eleitoral.
Tudo parecia bem para Lula, Dilma e o Partido dos Trabalhadores (PT), entretanto, a segunda jornada do ex-presidente na política começou a entrar na fase das provações. No segundo mandato de Dilma, Lula viu sua candidata passando por um processo de impeachment que tinha comoção nacional e uma articulação forte dentro do Congresso.
Além disso, Lula viu a ascensão da direita crescer no Brasil, aliada a uma crescente do sentimento de ódio ao PT, consolidando o antipetismo na população, por conta das investigações da operação Lava Jato, que colocou o partido e o ex-presidente no centro dos esquemas de corrupção no Brasil.
Lula foi denunciado, julgado, condenado e preso, mas prometeu que sairia da prisão como um herói. Nas palavras do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, Lula se tornava mais que um herói, se tornava um mártir. Era só preciso esperar as cenas da história se desenrolar, para ver.
Na prisão, Lula começava a construir seu caminho de volta ao estrelato, mas Jair Bolsonaro, um grande algoz, era presidente da república do Brasil. Bolsonaro, um ex-deputado federal, prometia aos antipetistas que iria destruir o PT e que seria um presidente que não iria cometer os crimes de corrupção que Lula havia sido julgado e condenado. Bolsonaro, que tem sua própria jornada, se tornava o herói de outra história.
Lula, dentro da prisão, tinha como objetivo ocupar novamente o cargo que Bolsonaro ocupa e para isso, o ex-presidente dizia dia após dia que iria provar sua inocência. Mas para que ele fosse presidente de novo, era necessário que Bolsonaro se tornasse o vilão de sua própria jornada, assim como Lula foi quando foi preso.
E a história foi dentro dos conformes que Lula esperava. Bolsonaro se tornou um grande algoz para uma parte significativa da população brasileira por conta de sua gestão frente à pandemia. Uma pesquisa feita pelo PoderData em maio deste ano ressaltou que a rejeição de Bolsonaro bateu a marca de 59%, enquanto sua aprovação é de 35%. A CPI da Covid e outras suspeitas de corrupção dentro do governo envolvendo o nome do presidente colaboram para a transição do herói Bolsonaro para o vilão Bolsonaro.
Enquanto isso, na jornada de Lula, o ex-presidente começa a colecionar suas primeiras vitórias. O ex-juiz Sérgio Moro, que foi Ministro da Justiça do governo Bolsonaro e saiu por denunciar interferências do presidente dentro da Polícia Federal, ficou conhecido anteriormente por ter sido o juiz a condenar e prender Lula na operação Lava Jato.
Moro se tornou, em sua própria jornada, um herói anticorrupção para a população brasileira. Na jornada de Lula, ele era um dos vilões. Entretanto, a história mudou quando o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que prisões feitas imediatamente após condenação em segunda instância são inconstitucionais. Sendo assim, Lula foi solto após ficar 580 dias na prisão em Curitiba. O ex-presidente não foi considerado inocente, mas sair da prisão já era um grande começo.
O grande objetivo de Lula era conseguir anular suas sentenças e recuperar seus direitos políticos para se candidatar à presidência novamente. Estando fora da cadeia, esse objetivo começou a ficar mais fácil. E isso se concretizou quando o STF considerou Moro suspeito nas condenações de Lula. Os ministros entenderam que Moro foi imparcial ao condenar Lula, porque logo depois de Lula ter sido preso, o ex-juiz aceitou ser ministro da Justiça do governo Bolsonaro. É importante frisar que durante as eleições de 2018, Lula era um dos únicos candidatos que conseguia vencer Bolsonaro, mas o petista foi barrado pela justiça e teve seus direitos políticos confiscados, não podendo se candidatar à presidência.
Moro foi considerado suspeito e todas as condenações de Lula foram anuladas, fazendo com que o ex-presidente recuperasse seus direitos políticos e pudesse se candidatar à presidência novamente. Lula ainda não é considerado inocente pela justiça, mas para ser condenado novamente, é preciso que haja uma nova denúncia, uma nova investigação e um novo julgamento.
Logo após recuperar seus direitos, Lula afirmou que seria candidato à presidência, caso a justiça não barrasse sua candidatura como fez em 2018. Ainda não há investigação contra Lula, mas tudo pode acontecer até 2022. Nas pesquisas de intenção de voto para o ano que vem, Lula consegue ganhar de Bolsonaro no primeiro turno. Nas pesquisas que apontam um segundo turno, Lula também ganha.
Em seus discursos, o ex-presidente se coloca enquanto um candidato que irá salvar o Brasil das mãos de Bolsonaro e insiste no argumento mais forte que tem: Bolsonaro não quis comprar vacinas e deixou mais de 500.000 brasileiros morrerem de covid-19 no Brasil. A CPI da Covid vem tentando comprovar isso e essa ideia está sendo investigada dia após dia.
Com isso, Bolsonaro viu sua rejeição crescer e multidões estão indo às ruas pedir o impeachment e a condenação do presidente da república por crimes contra a vida e contra a saúde pública. Em muitas dessas manifestações, petistas pedem Lula como presidente e inflam a disputa que irá dominar as eleições de 2022 entre Lula e Bolsonaro.
Em sua jornada, Lula ainda atravessa momentos de tensão, mas tem mais força para chegar a mais uma recompensa e atingir seu objetivo. Mas aí, pensamos: se Bolsonaro sair antes, por meio de um impeachment, ele provavelmente não irá disputar as eleições de 2022 e o caminho ficará ainda mais fácil para Lula, certo? Esse raciocínio é bem pertinente. Logo, dessa forma, Lula não deveria se posicionar positivamente em relação ao impeachment do presidente? Bom, sim. Mas não foi isso que aconteceu.
O superpedido de impeachment que aconteceu na última semana contra o presidente Jair Bolsonaro, reuniu assinaturas de ex-aliados do presidente, de partidos do centro e da oposição ao governo. O PT foi um dos partidos que estava presente na assinatura, mas Lula não assinou nem esse e nem nenhum pedido de impeachment que foi feito para tentar tirar Bolsonaro do poder. Por que? Lula e Bolsonaro não são algozes de uma mesma jornada?
Sim. Entretanto, pensando na jornada do herói de Lula, é de extrema importância que Bolsonaro continue no poder, porque se Bolsonaro for impeachmado, Lula não irá salvar o Brasil das mãos de seu algoz. E aí, mesmo conseguindo a presidência da república em 2022, a recompensa não virá com o mesmo gosto de vencer Bolsonaro, de ver Bolsonaro passar a faixa presidencial para ele. Depois de tudo que Lula passou, o que ele quer mesmo é ser presidente vencendo Bolsonaro, porque assim, ele vence uma parte significativa do que representa o antipetismo no Brasil. Essa narrativa heroica para Lula é uma estratégia pensada. Não é por acaso. O marketing do ex-presidente já definiu que ele vai preservar sua imagem agora e não irá se envolver em discussões que remetem à figura de Jair Bolsonaro. Não espere Lula em manifestações contra o presidente ou se posicionando a favor do impeachment. Pelo menos por enquanto. Lula agora irá agir nos bastidores, deixando que Bolsonaro se enrole em sua própria jornada, para que assim, ele possa chegar e salvar o Brasil, fechando sua carreira política como o mártir que ele sempre quis ser.
