Encarecida, carne abre espaço no prato do brasileiro para a dieta do bolso

O preço da carne segue ‘cheio de proteína’ no Brasil. Os sucessivos reajustes nos últimos doze meses engorduraram o valor final ao consumidor em 38%, em média, segundo dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), divulgados nesta quarta (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A engorda no valor do produto foi provocada, segundo especialistas da economia e do setor, pela abertura da porteira rumo às exportações, alimentada pelo verde da moeda americana que, apesar de nutrir a balança comercial brasileira, afetou a mistura do dia a dia do próprio gado, à base de soja e milho, agora inflacionados.
Apesar das oportunidades abertas ao agronegócio, o cenário atual é cada vez mais indigesto para o consumidor doméstico que, já não bastasse o impacto da pandemia no orçamento, precisou abrir espaço no prato para a ‘dieta do bolso’ – aquela em que você só come o que consegue pagar.
OUTROS CORTES
Por hábito, o consumidor, quando possível, começa a emagrecer a conta da carne pela escolha de peças mais baratas no açougue ou nos supermercados. Na insistência do peso na carteira, a solução carnívora que resta é o consumo de aves, porco, peixes e, para não ficar zerado de proteína, ao menos de ovos.
Por enquanto, a demanda está garantida no mercado nacional, segundo informou a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A procura, aliás, aumentou a oferta de frangos e suínos, ainda em 2021, para 14,7 e 4,35 milhões de toneladas, de acordo com estimativas da companhia.
Há quem opte pelas carnes exóticas – capivara, codornas, coelho, cordeiro, javali, entre outras de caça. A preferência, no entanto, pode não ser apenas por uma questão de gosto, mas de bolso mesmo. O acesso depende tanto da disponibilidade de receita quanto de sobrevivência – neste segundo caso, por família ribeirinhas, por exemplo.
BOLSOS ‘VERDES’
O consumo cada vez mais fracionado ou mesmo interrompido de carnes tem forçado muita gente a experimentar dietas vegetarianas ou até mesmo veganas. Essa ‘mudança forçada’ no regime alimentar não é garantia de ‘bolsos saudáveis’, a depender dos produtos escolhidos para substituir o bife do dia.
Em tese, a vida sem produtos de origem animal costuma ser mais baratas que a daqueles que não ficam muito tempo sem passar pelo açougue. Basta comparar os valores das prateleiras de carnes com as de frutas e verduras de uma forma geral. O impacto aqui é maior em relação aos produtos processados e/ou industrializados.
Mas é preciso estar atento à variação dos preços de hortifrútis para garantir uma feirinha mais econômica e não menos saudável. Em janeiro, o preço do tomate, por exemplo, encareceu ao ponto de disputar a vilania na inflação com a própria carne, segundo dados divulgados pelo IBGE naquele período.
DIETA SOB RISCO
Mas, há quem resista e não deixe faltar nem o churrasquinho. Estes privilegiados, no prato e no bolso, são os adeptos da controversa dieta da carne, popularizada através do método divulgado pelo médico Pierre Dukan em seu livro ‘Eu Não Consigo Emagrecer’ (Best Seller, 399 páginas, em português).
A ‘dieta Dukan’, como passou a ser conhecida, consiste na alimentação exclusiva de proteína animal, seja nas carnes bovinas, suína, de aves, peixes e outras. Estão excluídas, no entanto, alimentos processados de origem animal como linguiças, mortadelas e salsichas ou gorduras artificiais como a da margarina.
O estilo carnívoro de ser e de comer esbarra na contraindicação de outros médicos e nutricionistas, que advertem o risco de eventuais danos deste método à saúde devido à carência de nutrientes que beneficiam o organismo através do consumo de grãos, frutas, legumes e verduras.
CONSUMO EM BAIXA
A considerar os números mais recentes do consumo de carne no Brasil, a ‘dieta Dukan’ parece estar longe de ser uma prioridade na mesa de cada dia. Segundo dados da Conab, o consumo individual médio no país em 2020 foi de 26,4 quilos – o menor desde o início deste levantamento, em 1996.
A redução na procura por carnes no varejo está ligada, principalmente, à redução da capacidade de compra provocada pela pandemia, conforme analisou a companhia. Enquanto a economia não se recupera, o brasileiro comum sobrevive à base do prato desfeito: arroz, feijão, salada, ovo. E sem bife.
