Em live, Bolsonaro afirma que não tem provas, mas tem convicção que urnas eletrônicas são fraudadas

Seria essa a segunda temporada do “não tenho provas, mas tenho convicção” na política brasileira?

Apesar de toda a propaganda, o presidente não entregou nenhuma novidade na live em que prometeu entregar provas que mostravam fraudes nas urnas eletrônicas, ele apenas afirmou o óbvio: que não tinha como provar que as últimas eleições foram fraudadas.

Entretanto, Bolsonaro apresentou as esperadas “impressionantes imagens” e vídeos que, segundo o próprio, dão fortes indícios de que já houveram fraudes nas eleições passadas. 

Além disso, o presidente aproveitou para atacar o PT e o petista Lula, afirmando que o Brasil não pode deixar que os mesmos ministros que tiraram Lula da cadeia, contarem os votos nas eleições de 2022. 

Antes, ele foi no discurso habitual

Antes de apresentar as imagens, Bolsonaro iniciou sua live fazendo seu discurso de sempre: atacou o PT, falou mal da imprensa brasileira, mas ressaltou que a defende com unhas e dentes, porque o governo dele é democrático e ele preza por uma imprensa livre, sem censura. 

Reforçou que, diferentemente dos 14 anos de PT no Brasil, o governo Bolsonaro não tem corrupção e frisou que as acusações da CPI são infundadas. Referente à compra da vacina Covaxin, Bolsonaro disse que a verba não foi paga para a empresa e por isso não há conclusão do crime de corrupção e, consequentemente, do crime de prevaricação. 

Logo depois, Bolsonaro começou a lançar suas desconfianças em relação às urnas eletrônicas e transferiu a responsabilidade pelas fraudes do sistema eleitoral, ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luís Roberto Barroso. Segundo o presidente, ele não está acusando ninguém, mas desconfia dos motivos pelos quais Barroso é contra a instauração do voto impresso no Brasil.

As “provas”

Para sustentar seu argumento das fraudes nas urnas eletrônicas, Bolsonaro contou com o auxílio de um “especialista”, que foi apresentado como “Eduardo, analista de inteligência”. O especialista é coronel do Exército e ex-assessor especial do ministro Luiz Eduardo Ramos na Casa Civil, de acordo com o governo. Entretanto, segundo o G1, o currículo divulgado pelo Planalto não informa qualquer especialização na área de programação ou segurança da informação.

Quando Eduardo começou a falar, ele ressaltou que iria mostrar fatos e acontecimentos que civis tinham relatado quanto às fraudes nas eleições. Mas nada passou de vídeos da internet que foram desmentidos várias vezes pelas agências de checagem e pelo próprio TSE.

Além dos vídeos da internet, Eduardo e Bolsonaro mostraram um outro vídeo de um programador que simula um código-fonte das urnas eletrônicas, evidenciando uma forma de fraudá-las. Na ocasião, o programador dizia que a cada três votos para Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, um voto iria para Fernando Haddad e foi assim que houve a fraude que levou Bolsonaro e Haddad ao segundo turno.

Entretanto, em tempo real, o TSE desmentiu em sua página do Twitter, os vídeos e as afirmações que Bolsonaro fazia quanto às fraudes no sistema eleitoral brasileiro da única forma que isso pode ser feito: com dados sólidos que, facilmente, conseguiam derrubar a narrativa criada por Bolsonaro.

Análise: ele tentou, mas não conseguiu

Bolsonaro conseguiu convencer alguns eleitores. Se você for ao Twitter e pesquisar sobre o TSE, vai encontrar twittes de bolsonaristas dizendo o quão corrupto é o Tribunal que não faz o que o presidente quer. 

Entretanto, para conseguir aprovar uma PEC do Voto Impresso ou para convencer grande parte da opinião pública, imprensa e órgãos de investigação, Bolsonaro precisaria de mais. Na verdade, ele precisaria de provas reais e contundentes de que essa fraude existe. 

Isso ele não conseguiu. O presidente fez com que seu poder político diminuísse, perdeu qualquer tipo de respaldo de paciência que o Supremo Tribunal Federal tinha com ele e até mesmo o empresariado que ainda apoia Bolsonaro questionou onde estavam as tais provas que ele tinha prometido apresentar contra as urnas eletrônicas, porque aquilo que ele mostrou na live não eram provas.

A verdade é que Bolsonaro tentou movimentar o debate, descredibilizar o TSE e o sistema eleitoral e conseguir alguns adeptos nessa narrativa, mas o que sobrou para ele foi perda de força política, perda de moral até com apoiadores dentro do Congresso e um verdadeiro próximo contra-ataque do Supremo. 

Em tempo…

Se você desconfia da veracidade das urnas eletrônicas, busquem fatos reais e não vídeos da internet. Temos órgãos sérios e responsáveis que fiscalizam o sistema eleitoral. O site do TSE mostra, com dados e ciência, como todo o processo eleitoral é feito e ainda deixa explicita a forma como a segurança e a auditoria das urnas eletrônicas são realizadas.

E se isso ainda não for o bastante, conte com a imprensa. Há agência especializadas em checar notícias falsas que atestam a credibilidade do que o presidente Bolsonaro e o que o TSE estão falando, dando condições de ter uma noção maior do que é jogo político e do que, realmente, é uma instituição à serviço do povo. Nesse momento, é importante prezarmos e pensarmos na nossa democracia, ao invés de comprarmos, sem nenhum pé atrás, o discurso político de outros.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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