De portas (re)abertas: as realidades e oportunidades para quem à antiga casa volta

O retorno de profissionais a empresas onde já trabalharam, como fez o técnico Vanderlei Luxemburgo ao Cruzeiro, revela cuidados necessários com relacionamentos, hierarquia e expectativas antes de aceitar voltar à antiga casa.
O técnico Vanderlei Luxemburgo era aguardado ainda nesta quarta-feira (4) na Toca da Raposa II, em Belo Horizonte (MG), para sua reapresentação ao Cruzeiro – hoje um dos lanternas do Campeonato Brasileiro da Série B.
O veterano treinador retorna ao clube após seis anos de uma discreta passagem – entre junho e agosto de 2015 –, cuja contratação se sustentou à época por uma prestação de serviço histórica – os títulos levantados entre 2002 e 2004.
Este vai-e-vem de Luxemburgo no Cruzeiro – e com outros times –, comum no futebol entre técnicos, jogadores e clubes, é mais um entre muitos exemplos de profissionais que decidem retornar ao antigo emprego.
‘PORTAS ABERTAS’
Se voltou, é porque Luxemburgo deixou as ‘portas abertas’, como se costuma referir à condição daqueles(as) que são aceitos novamente por uma mesma empresa devido ao seu desligamento anterior, digamos, amistoso.
Por vezes, o desligamento se dá por um convite do tipo ‘irrecusável’ até da concorrência e a empresa atual, sem condições de cobrir a oferta, libera o colaborador com direito até a um ‘convite prévio’ de retorno.
Mas, nem sempre as portas se mantém abertas por circunstâncias que envolvem ambos os lados. Condições de trabalho inadequadas refutam bons colaboradores, ao tempo que prestadores de serviços incompetentes afastam bons empregadores.
CONVERSAS PARALELAS
Quem retorna a uma empresa precisa lidar com o que deixou para trás quando saiu. E aqui não necessariamente de trata de coisas, mas de relacionamentos. Empresas sérias prezam por ambientes saudáveis.
A manutenção da rotina respeitosa entre atuais e funcionários de volta à casa envolve o cuidado com as conversas no cafezinho. É importante evitar críticas relacionadas a outros colegas e chefes.
É o tipo de assunto que deve ser resolvido com os próprios envolvidos, por ocasião do desligamento anterior da empresa. Se for para reencontrar o ex-chefe, que o relacionamento valha a pena pelo retorno.
EU, CHEFE(A)
Há casos em que o retorno à ex-empresa acontece em uma condição de ‘promoção’, seja já recebida em outra casa ou na que se volta, dada a experiência adquirida – somada a que já tinha do local onde já trabalhou.
Cabe lembrar que nem todo mundo tem o perfil para gerir processos e pessoas. Por isso, seja na condição de chefia ou operacional, o importante é manter uma comunicação objetiva e respeitosa com os colegas.
Até porque, quem retorna com um cargo de cartão de visitas geralmente precisa justificar a eventual ‘promoção de retorno’ tanto ou mais do que se estivesse retornando para o velho posto que ocupou um dia.
EU, EMPREENDEDOR(A)
Além de chefe(a), há outro ‘degrau’ de possível relação com o ex-patrão. É aquele quando o colaborador deixa a empresa para montar o próprio negócio e de funcionário torna-se prestador de serviço da antiga empresa.
Não por acaso, quem bate o ponto todo dia e sonha em trocar o holerite pelo pró-labore costuma ser mais pragmático nas relações de trabalho ciente de que o patrão de hoje pode ser o seu cliente de amanhã.
COMO SE PREPARAR PARA VOLTAR
Antes de aceitar o convite para retornar a uma antiga empresa, especialistas em recursos humanos costumam recomendar uma análise honesta dos motivos que levaram à saída anterior. Se os problemas que causaram o desligamento continuam presentes, a experiência de voltar pode se repetir de forma frustrante.
Também é importante negociar com clareza as condições do retorno, sejam elas salário, cargo ou responsabilidades, evitando basear a decisão apenas na nostalgia do tempo em que se trabalhou naquele lugar. Afinal, tanto a empresa quanto o profissional mudam ao longo dos anos.
Conversar com ex-colegas que permaneceram na empresa pode ajudar a entender o clima atual da equipe e se as mudanças ocorridas, na cultura ou na liderança, são compatíveis com as expectativas de quem está pensando em voltar.
QUANDO O RETORNO NÃO VALE A PENA
Nem toda porta que permanece aberta deveria ser atravessada de novo. Há casos em que o profissional idealiza demais o período em que trabalhou naquela empresa, esquecendo dos motivos reais que o levaram a buscar outras oportunidades.
Sinais de alerta incluem a repetição das mesmas queixas de colegas que ficaram, a ausência de mudanças estruturais nos problemas que motivaram a saída e propostas de retorno que não reconhecem a experiência adquirida fora da empresa nesse período.
Por isso, antes de qualquer decisão, vale a máxima de pesar com calma os ganhos e as possíveis armadilhas de um recomeço que, embora pareça familiar, nunca é exatamente igual ao que ficou registrado na memória.
O PAPEL DA REPUTAÇÃO PROFISSIONAL
Convites para voltar a uma antiga empresa costumam surgir justamente porque a reputação do profissional permaneceu positiva mesmo depois da saída. Manter contato cordial com antigos gestores e colegas, entregar bem o trabalho até o último dia e evitar queimar pontes são atitudes que ajudam a preservar essa porta aberta.
Esse cuidado com a própria imagem profissional vale tanto para quem sai por iniciativa própria quanto para quem é dispensado, já que o mercado de trabalho, sobretudo dentro de um mesmo setor, tende a ser mais próximo do que se imagina, e histórias de bastidores viajam rápido entre empresas concorrentes ou parceiras.
Portanto, o retorno ao antigo trabalho pode significar mais do que garantir um renda ou reencontrar velhos colegas: é uma oportunidade para se visualizar a possibilidade de mudar de status na sua relação com o trabalho e a profissão.
