CPI e investigação de corrupção conseguem manchar a imagem do presidente Bolsonaro?

Presidente foi eleito com a promessa de um político que iria acabar com a corrupção no governo e agora está sendo investigado, justamente, por supostos esquemas de corrupção na compra de vacinas pelo Ministério da Saúde

A estratégia de Bolsonaro para se tornar presidente da república brasileira é algo para ser estudado e analisado por diversos políticos, acadêmicos e, mais importante ainda, pela população. Na visão do jogo político, Bolsonaro foi um dos melhores estrategistas que houve na história do país, já que ele foi contra tudo o que era convencional para se atingir o objetivo e, ainda assim, conseguiu chegar à presidência com uma campanha e votação expressiva. 

Bolsonaro movimentou multidões pelo Brasil, porque era um candidato que estava ali para “salvar” a população do terror da corrupção, que estava em extrema evidência por conta das investigações da Operação Lava Jato. O brasileiro tem, por histórico, uma tendência a votar em políticos que tenham essa roupagem de herói. Com Lula, foi a mesma coisa e, pelas pesquisas de intenção de voto para 2022, ser o herói da nação continua sendo uma estratégia acertada. 

Mas o presidente atual tinha esse objetivo durante as campanhas: ser o presidente do combate à corrupção, ser o presidente da segurança pública, o presidente da política simples. Em 2019, logo após o slogan do governo ter sido divulgado, Bolsonaro afirmou que faria um governo “sem corrupção, sem impunidade, sem doutrinação nas escolas e sem erotização de nossas crianças”, afirmou na ocasião. 

Bolsonaro também queria ser esse político populista, que está com o povo. As fotos no meio da multidão, comendo pão com leite condensado, segurando crianças no colo, são fotos que provocam uma identificação entre a população e o presidente. Grande parte dos votos que Bolsonaro obteve foi por conta dessa identificação do povo brasileiro com o presidente que luta contra a corrupção e come pão com leite condensado. 

Entretanto, agora, passados mais da metade do seu governo, o povo perdeu grande parte dessa identificação com o presidente Bolsonaro por conta de sua gestão frente à pandemia. Isso quem diz são as pesquisas de rejeição e aprovação do presidente que foram colhidas desde o início da pandemia até os dias atuais. 

Tomando como base as pesquisas feitas pela DataFolha, no início da pandemia, em abril de 2020, a aprovação de Bolsonaro girava em torno de 33%, enquanto sua reprovação estava na casa de 39%. Agora este ano, a mesma DataFolha publicou dados de uma nova pesquisa que mostra que a aprovação de Bolsonaro caiu para 24% e sua reprovação aumentou para 45%. 

Esses números batem com o que dizem as pesquisas de intenção de voto para 2022. No ano passado, o DataFolha, considerando a gestão de Bolsonaro frente à pandemia, mostrou que 83% dos eleitores do Bolsonaro, não tinham se arrependido de ter votado no presidente em 2018. Isso vai contra pesquisas do Instituto IPEC deste ano, que mostram que ⅓ dos eleitores do presidente no ano em que foi eleito se arrependeu de ter depositado seu voto nele. Além disso, os números da pesquisa mostram que 38% das pessoas que votaram em Bolsonaro em 2018, se colocaram à possível disposição para votar em Lula em 2022. 

O fato de termos uma CPI que investiga as ações e omissões do governo federal frente à pandemia no Brasil acarreta bastante nos números das pesquisas citadas acima. Bolsonaro deixou de ser o herói que era antes, mas ainda assim não deixa de ser temido para 2022. Afinal de contas, ele é um presidente que conseguiu ser eleito sem comparecer a debates e fazendo sua campanha diretamente nas redes sociais. 

Entretanto, mesmo com CPI e investigações sobre a pandemia, Bolsonaro tem uma parcela da população que se mantém fiel ao seu governo. Esses 24% não creditam na conta do presidente os péssimos números na pandemia. Porque para eles, Bolsonaro ainda é o político anticorrupção que eles depositaram seu voto em 2018. A corrupção é um assunto muito caro a esse eleitorado, porque para eles, muito do que aconteceu na era PT foram crimes relacionados ao desvio de dinheiro público e isso Bolsonaro prometeu e afirmou não acontecer em seu governo. 

Porém, Bolsonaro agora sofre com investigações sobre supostos crimes de corrupção em seu governo durante a pandemia e compra de vacinas, além de novos áudios terem sido publicados na imprensa relacionando Bolsonaro com o caso das rachadinhas enquanto ainda era deputado federal. Se esses 24% de aprovação estão com Bolsonaro por conta de ele ser o presidente “anticorrupção”, o que será da imagem do presidente com todas essas acusações? 

Mas do que, exatamente, Bolsonaro está sendo investigado?

Após o depoimento dos irmãos Miranda na CPI da Covid, o presidente está sendo investigado pela Procuradoria Geral da República pelo crime de prevaricação. A suspeita é que o presidente sabia que havia irregularidades no contrato de compra da vacina Covaxin, em que, supostamente, esse contrato estaria superfaturado, com cobranças de propina pela compra da vacina. Os irmãos Miranda afirmaram que avisaram o presidente Bolsonaro dessas irregularidades e o presidente não fez nada para investigar o caso. 

O governo se pronunciou por meio do Ministro-chefe da Secretaria-geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, que afirmou que houve investigação por parte do governo, mas eles não acharam nenhuma irregularidade. A Polícia Federal disse que não foi informada ou solicitada para iniciar nenhuma investigação sobre esse caso. 

Entretanto, a imprensa continua noticiando outros possíveis pontos de investigação para os órgãos competentes. Ontem (05), o site UOL publicou áudios da ex-cunhada de Bolsonaro, Andrea Siqueira Valle, afirmando o envolvimento do presidente em esquemas de “rachadinhas” enquanto era deputado federal. 

“O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6 mil, ele devolvia R$ 2 mil, R$ 3 mil. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: ‘Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo’. Não sei o que deu pra ele”, disse Andrea no áudio publicado. 

O esquema de rachadinha, basicamente, é o crime de peculato. O crime de peculato consiste no roubo ou desvio, mediante abuso de confiança, de dinheiro público para proveito próprio ou alheio, por funcionário público que os administra. No suposto esquema de Bolsonaro e de de seu filho Flávio Bolsonaro, sendo este último investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, os funcionários públicos recebiam um valor alto de salário, mas tinham que devolver parte dele. 

Bolsonaro ainda não é investigado nesse caso, mas com a divulgação dos áudios, esse processo deverá ser iniciado em breve.

Eleitorado balançado

Outra pesquisa do DataFolha publicada em março deste ano, mostra que 67% dos brasileiros consideram que a corrupção vai aumentar no Brasil. Isso é relevante porque o presidente Bolsonaro prometeu fazer um governo sem corrupção, inclusive, ele afirmou em outubro do ano passado que ele tinha acabado com a Lava Jato, porque não existia mais corrupção no governo. Bom, claramente, a percepção da população é outra. 

Os 24% de aprovação de Bolsonaro são essenciais para serem medidos, porque eles podem levar o presidente ao segundo turno nas eleições de 2022. A oscilação da aprovação do presidente varia de acordo com as novas descobertas da CPI da Covid e agora com os possíveis crimes de corrupção sendo descobertos, esses 24% irão se manter com o presidente?

É possível analisar, a partir de um histórico do governo, que o eleitorado de Bolsonaro é dividido em diferentes âmbitos. Há o eleitor antipetista, o eleitor anticorrupção. Há o eleitor que votou no Bolsonaro por conta do juiz Sérgio Moro e o eleitor que realmente se identifica com o modus operandi de Bolsonaro frente ao governo, que é um verdadeiro fã do presidente. 

Bolsonaro já perdeu grande parte do eleitorado antipetista, que tentará ir por outra via. O eleitor que votou por conta de Moro, também já saiu do barco, desde a saída do ex-ministro do governo. Muito do que se sobrou foi o eleitor que votou no Bolsonaro pelo discurso anticorrupção e aqueles que estão fechados com o presidente não importa o que for. 

Então, o mais importante agora, é analisar as próximas pesquisas de intenção de voto e de aprovação do governo, para que possamos saber se as denúncias de corrupção que recaem no governo Bolsonaro serão decisivas para seu eleitorado e, consequentemente, para as eleições de 2022.

Para que consiga vencer as eleições com mais tranquilidade, Bolsonaro precisará reconquistar esse eleitorado que perdeu. Para isso, ele deve investir no antipetismo e atacar o ex-presidente Lula, ao invés de focar em discursos carregados de promessas e planos para os próximos 4 anos à frente do poder executivo federal.

Centrão sente a ameaça

Outro ponto que é preciso analisar é se o centrão continuará apoiando Bolsonaro dentro do Congresso Nacional. Pode ser que o preço fique mais caro e o presidente tenha que dar mais ao grupo político. Isso acontece porque as pesquisas de intenção de voto e de aprovação do governo Bolsonaro não estão muito favoráveis ao presidente. 

Nesse caso, é importante frisar que o centrão composto pelos deputados e senadores também tentarão reeleição em 2022 e por isso, o apoio intrínseco a Bolsonaro pode atrapalhar os planos de alguns parlamentares, porque os eleitores procuram e pesquisam quem os candidatos irão apoiar para a presidência da república e essa rejeição ou aprovação pode respingar nos senadores e deputados. 

Justamente por isso, é preciso analisar se esse apoio do centrão continuará vigorando no governo ou se o preço ficou mais caro. Para saber, basta acompanhar as notícias sobre verbas parlamentares, reformas ministeriais em que o governo concede cargos para o centrão e se o Congresso está barrando pautas importantes para o Palácio do Planalto. O apoio do centrão é de extrema importância para o presidente, que precisa dessa “garantia” para ter governabilidade.

Como fica a imagem do presidente com isso tudo?

Muitos especialistas da área política dizem que a CPI da Covid serve para um objetivo específico: manchar a imagem do presidente para que ele não se reeleja em 2022. Se esse for real o objetivo da Comissão Parlamentar de Inquérito, ele vem sendo atingido, já que a reprovação de Bolsonaro aumenta a cada pesquisa.

Por enquanto, com a CPI e as investigações, a imagem de Bolsonaro fica instavelmente prejudicada com a população e seu eleitorado. Entretanto, agora, ele tentará reverter essa situação investindo em políticas sociais para aumentar sua popularidade. Hoje mesmo (06), o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou a prorrogação do auxílio emergencial para a população que já recebe o benefício. 

O governo também tentará movimentar as pautas liberais, com as privatizações e reformas, para conquistar o mercado e o eleitorado empresarial. 

E até o ano que vem, Bolsonaro deverá lançar mais um programa social para liberar verba ao trabalhador brasileiro. A estratégia é simples e antiga: mexer com o bolso do eleitor é o monitor para saber se sua popularidade irá aumentar ou não.

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Ricardo Almeida
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