“#CNNLixo”: Descarte à direita do jornalismo fast food à moda Alexandre Garcia
Cancelamento de emissora após demissão de jornalista expõe paladar de clientela que come do mesmo prato de opinião

A demissão do jornalista Alexandre Garcia pela CNN Brasil, motivada pela defesa reiterada do chamado tratamento precoce contra a covid-19, reacende o debate sobre os limites entre opinião jornalística e divulgação de informações sem comprovação científica.
A demissão do jornalista Alexandre Garcia pela CNN, nesta sexta-feira (24), ainda não foi bem digerida pelo público que o acompanhava e concordava com suas declarações no quadro “Liberdade de Opinião”, exibido em um noticiário.
Ao final da noite, a hashtag #CNNLixo aparecia entre as três mais tuitadas no Brasil, atrás apenas do nome do agora ex-comentarista da ‘ex-TV’ dos apreciadores de suas iguarias conservadoras.
São os mesmos que trataram de fritar a reputação do recém-criado canal de notícias que, ao menos para estes, passou do ponto ao tirar do ar um dos principais chefs do jornalismo da direita no Brasil.
PALADAR ALHEIO
Alexandre Garcia perdeu o avental depois de defender, mais uma e pela última vez na CNN Brasil, uma receita que, apesar do gosto de sua clientela, ainda não teve condições de provar – e por isso serve fria: o tratamento precoce.
A emissora, por sua vez, tratou rapidamente de declarar seu paladar distinto ao do jornalista, como já fizera outras vezes, com um aviso bem claro à porta de sua audiência: não servimos este tipo de notícia.
Mesmo assim, Alexandre Garcia persistiu no prato – afinal, o freguês tem sempre a razão, não? Sobretudo porque lhe basta entregar a opinião, sem a preocupação de que seus clientes se preocupem em investigar a cozinha de suas razões.
RECEITA DE JORNALISMO
Afinal de contas, Garcia hoje é um comentarista. Ele mais serve do que, necessariamente, prepara. Tal qual um crítico gastronômico, tem autoridade conferida por cinco décadas de jornalismo para posicionar-se – à direita.
A escolha por um lado diz mais sobre ele do que do jornalismo. Este, por sua vez, tem receita própria, simples de se preparar: junta-se a notícia, as opiniões e versões distintas, unta-se em uma reportagem e sirva-se. Nada mais.
Mesmo o comentarista, sob o dólmã de sua opinião, continua a ser um jornalista – o tipo de profissional que se ocupa de filtrar notícias, raspar fake News e azeitar reflexões temperadas à la carte de sua credibilidade.
SELF-SERVICE
Demitido da CNN, Alexandre Garcia já juntou suas panelas em outro lugar. Ainda nesta sexta (24), ele convidou sua clientela a visitá-lo diariamente em seu canal no Youtube. “Seja muito bem-vindo!”, recepcionou.
A considerar a mobilização da clientela conservadora e militante das redes sociais, Alexandre Garcia haverá de ter uma movimentação típica da inauguração de um novo restaurante nos próximos dias e até meses.
O QUE DIZ A CIÊNCIA SOBRE O TRATAMENTO PRECOCE
Estudos conduzidos por instituições de saúde ao redor do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde, não encontraram evidências científicas robustas que sustentem a eficácia dos chamados tratamentos precoces amplamente divulgados durante a pandemia. Medicamentos como a cloroquina e a ivermectina, frequentemente citados nesse contexto, foram testados em diversos ensaios clínicos randomizados sem apresentar resultados consistentes contra a covid-19.
A divulgação de informações sem base científica sólida durante uma crise sanitária é vista por especialistas em saúde pública como um risco real, já que pode levar parte da população a adiar medidas comprovadamente eficazes, como a vacinação, o uso de máscaras e o distanciamento social.
A RESPONSABILIDADE EDITORIAL DOS VEÍCULOS DE IMPRENSA
Emissoras e portais de notícia enfrentam, cada vez mais, pressão para equilibrar a pluralidade de opiniões com o compromisso de não veicular informações que possam colocar a saúde pública em risco. Esse equilíbrio se tornou ainda mais delicado durante a pandemia, quando declarações de figuras públicas passaram a ser rapidamente compartilhadas e replicadas nas redes sociais, muitas vezes sem o contexto necessário.
Casos como o de Alexandre Garcia ilustram esse dilema editorial, no qual empresas de comunicação precisam decidir até que ponto a liberdade de opinião de um comentarista pode conviver com a responsabilidade de não contribuir para a desinformação em temas de saúde.
OUTROS CASOS DE DEMISSÕES POR POSICIONAMENTO NA PANDEMIA
Alexandre Garcia não foi o único comunicador a perder espaço em grandes veículos por defender publicamente tratamentos sem comprovação científica durante a pandemia. Casos semelhantes ocorreram em diferentes emissoras e portais de notícia ao redor do mundo, à medida que a pressão por responsabilidade editorial cresceu entre anunciantes e público.
Esse tipo de episódio evidencia uma mudança de postura das empresas de comunicação, que passaram a adotar políticas editoriais mais rígidas para conteúdos relacionados à saúde, buscando equilibrar liberdade de expressão com o compromisso de não amplificar informações potencialmente perigosas para a população.
O PAPEL DO FACT-CHECKING NO JORNALISMO ATUAL
Agências de verificação de fatos ganharam protagonismo durante a pandemia, ajudando o público a identificar informações falsas antes que se espalhassem ainda mais nas redes sociais. Esse tipo de trabalho se tornou uma ferramenta essencial para conter a desinformação em temas sensíveis, como tratamentos médicos sem comprovação científica.
Acostumado a servir massas, bastará ao veterano jornalista manter o menu: tratamento precoce cru (acompanha cloroquina), chacina à bolonhesa e muito bolsonarismo de sobremesa. Sem máscaras, claro. É do caldo da democracia.
