#CampeõesSemMedalhas: a disputa diária dos cadeirantes na paralimpíada da vida
Milhões de brasileiros precisam superar as provas do cotidiano para tentar alçar algum lugar no pódio da dignidade

O funcionário público, Jaílson Carvalho, sai à luta todo dia. Paratleta da vida, ele é especialista em modalidades estranhas às Paralimpíadas que acontecem em Tóquio: ‘corrida’ sobre vias esburacadas (inclusive em ladeiras), desvios de barreiras em calçadas e ‘saltos’ sobre espaços sem nenhum tipo de acessibilidade.
Tudo isso sobre duas rodas: as de sua cadeira mesmo.
Atual presidente da Associação Municipal e Metropolitana de Apoio aos Deficientes Físicos (Ampdef) de Salvador (BA), Carvalho é apenas um entre os cerca de 45 milhões brasileiros – segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – que precisam derrotar todo tipo de obstáculos para vencer na vida.
São os nossos campeões sem medalhas.
AS PROVAS DO COTIDIANO
A rotina de um(a) cadeirante é uma competição diária contra os próprios limites e todos os outros que encontra pelo caminho. E não são poucos. Listamos os mais comuns enfrentados por nossa ‘delegação’:
Acessibilidades a prédios públicos
A exemplo de qualquer outra(o) cidadã(o),o(a) cadeirante tem direito de frequentar prédios públicos m geral. Muitos dos próprios, de tão antigos, ainda não dispõem de itens básicos de acessibilidade como rampas e elevadores.
Brincar
Crianças cadeirantes nem sempre encontram as mesmas possibilidades de diversão em um parque ao ar livre como qualquer outra que não tenha igual necessidade especial. Ainda são raros playgrounds adaptados nas cidades brasileiras.
Usar o transporte coletivo
Apesar da ampliação de frota adaptada no Brasil, ainda há localidades nos quais o uso de coletivos – ônibus, principalmente – não oferecem condições de acessibilidade necessários para que os cadeirantes possam entrar e sair dos veículos.
Vagas em estacionamentos
A Lei de Acessibilidade e o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) asseguram aos cadeirantes o direito a vagas exclusivas em estacionamentos. Não raro, no entanto, os lugares são ocupados por deficientes – de educação.
Vida social
Cadeirantes também vão a restaurantes, cinemas, supermercados, clubes, teatros. O problema é que nem sempre estes ambientes estão adaptados para recebe-los. Para evitar mais desconfortos é recomendável checar a acessibilidade antes de ir (veja como abaixo)
Votar
Pessoas com deficiências detêm igual qualidade de exercício de cidadania, seja para reclamar seus direitos – inclusive os agregados por conta de suas limitações – ou para votar em seções adaptadas para cheguem até as urnas.
PONTO PARA A TECNOLOGIA
Na ausência da inteligência humana para propor soluções práticas para o dia a dia dos cadeirantes, a artificial tem entrado em campo para facilitar a vida de quem não quer entrar em qualquer dividida com sua cadeira.
O guiaderodas é uma mão na roda mesmo. A plataforma, de uso global, possibilita ao cadeirante exatamente a checagem sugerida aí acima: saber quais lugares, entre os citados, oferecem acessibilidade – ou não.
Criada pelo cadeirante Bruno Mahfuz, a startup é abastecida voluntariamente por usuários. Já a Signumweb oferece tradução de situações diversas do dia a dia, em Libras, àqueles(las) que, além das rodas, convivem com o silêncio.
PREPARAÇÃO DE PARATLETA
A necessidade do uso frequente dos braços para locomoção acaba por dotar os(as) cadeirantes de braços mais fortes e resistentes. Não raro, semelhante aos de paratletas das diversas modalidades paralímpicas.
Seguem abaixo cinco dicas para manter ou melhorar a qualidade de vida sobre duas rodas:
Alimentação saudável
O(A) cadeirante precisa ficar muito atento ao que come para não desenvolver ganho de peso excessivo, que pode deixa-lo(a) vulnerável a diversas doenças. A orientação de um(a) nutricionista é recomendável para manter a alimentação saudável.
Cadeira correta
Companhia permanente da vida do cadeirante, a cadeira precisa estar ajustada às suas características para garantir conforto e segurança. A comum é a manual, mas também há modelos motorizados, disponíveis para diferentes idades.
Casa em ordem
A residência do(a) cadeirante precisa ser o primeiro ambiente totalmente acessível, a começar pelo banheiro, onde as barras de apoio são indispensáveis. A adaptação dos móveis, o nivelamento dos pisos e as rampas também facilitam a vida no lar.
Exercitar-se
Cadeirantes sem comprometimento dos membros superiores podem aprimorar ainda mais a capacidade de seus braços com atividade física específica e regular. A prática diária faz bem para a saúde, a mente e a autoestima.
Interagir
Apenas uma pessoa cabe em uma cadeira de rodas, mas isso não significa que ela tenha que ficar sozinha o tempo todo. O ser humano continua o mesmo: é importante sair de casa para se divertir, reunir amigos.
