Desfile militar e a mensagem ao Congresso Nacional

Bolsonaro participa de desfile militar no dia da votação da PEC do Voto Impresso na Câmara dos Deputados e parlamentares entenderam a "coincidência" como intimidação aos poderes que constituem a democracia do Brasil

Um dia que as fotos e relatos estarão nos livros de história do Brasil. Mas, com toda certeza, confundirá os novos alunos que estudarão essa fatídica parte da política nacional. Consigo imaginar as perguntas que farão aos professores: “Mas a gente não já estudou o militarismo há alguns meses atrás?”. 

Pois bem, a cena de hoje (10) será difícil de ser explicada no futuro, porque mesmo atualmente, diante dos fatos, está complicado encontrar alguma lógica. 

O que aconteceu: O ministro da Defesa, Braga Netto, convocou um desfile da Marinha com carros blindados e outros veículos militares, para entregar ao presidente da República, Jair Bolsonaro, um convite de um treinamento de militares das três forças que será feito em Formosa, Goiás. 

O mais curioso é que, apesar do presidente ter sido convidado por Braga Netto para comparecer ao desfile, Bolsonaro repassou o convite para outros membros dos três poderes, como o presidente do STF, ministro Luiz Fux, o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Luís Roberto Barroso, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Outros ministros da Justiça brasileira, além de deputados e senadores que foram também convidados a comparecer ao desfile, mas nenhum dos convidados dos outros poderes compareceu. 

Estava ao lado do presidente, somente, o ministro Braga Netto e os comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica. Da área política, os ministros  Ciro Nogueira (Casa Civil), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Milton Ribeiro (Educação) e o deputado federal Ricardo Barros também se faziam presentes no desfile, sendo a maioria sem máscara e bem próximos um do outro. 

O desfile

Para entregar esse convite, foi utilizado tanques de guerra e outros veículos militares, além de uma grande movimentação desses servidores, no Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios e bem próximo do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. 

O treinamento para o qual o presidente Bolsonaro foi convidado acontece todo ano desde 1988 e é tradicional das três forças, entretanto, o desfile com tamanho esforço dos servidores e ministros não é comum. 

Famosa “coincidência”

Justamente por não ser algo habitual, comum ou de costume da presidência e das três forças realizarem, é que a “coincidência” aqui fica entre aspas. O desfile acontece exatamente no dia em que está marcada a votação da PEC do Voto Impresso no plenário da Câmara dos Deputados. 

Além disso, a relação entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o governo Bolsonaro e com a figura do presidente da República passa por uma fase catastrófica. Ontem (9), o TSE enviou mais uma notícia-crime contra Bolsonaro ao STF, por vazamento de inquérito sigiloso, quando o presidente divulgou nas redes sociais a íntegra de um inquérito da Polícia Federal que investiga um suposto ataque ao sistema interno do TSE em 2018 e que, conforme o próprio tribunal, não representou qualquer risco ao resultado final das eleições. 

Importante frisar: O ministro Braga Netto, segundo o jornal Estadão, supostamente teria ameaçado o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), avisando que as eleições de 2022 só aconteceriam se a Câmara aprovasse a PEC do Voto Impresso. O ministro negou a ameaça, mas na sua defesa, continuou exaltando o voto impresso. 

Além disso, o presidente Bolsonaro já afirmou diversas vezes que ele só passará a faixa presidencial para algum candidato que ganhar dele em 2022, caso as eleições sejam limpas e auditáveis, por meio do voto impresso. 

Análise: presidente mostra suas armas, mas só demonstra sua fraqueza política

Dar um golpe militar não é simples. Quando tivemos em 1964, os militares tinham apoio político e de órgãos internacionais que auxiliaram e deram insumos ($$$) cruciais para que o golpe acontecesse. 

Bolsonaro não tem esse poder. Ele não tem poder nem mesmo dentro do centrão, que ele comprou e colocou em seu governo e mesmo tendo feito o jogo da velha política, não irá conseguir aprovar um dos principais projetos do governo, que é a instauração do voto impresso no Brasil.

Sim, parece estranho falar que um dos principais projetos do governo é a PEC do Voto Impresso, em um contexto de desemprego, inflação alta, crise na saúde pública e dentre outros tantos problemas que poderíamos citar aqui. 

Mas como o plano de Bolsonaro nunca foi governar para o povo e sim se manter no poder por meio do jogo político (lembrando que Bolsonaro está na política há mais de 30 anos e ainda elegeu seus filhos), então é fácil e simples enxergar que a PEC é um dos principais projetos do governo atual. 

Sendo assim, para manter sua pouca credibilidade para sua média de 25% de base eleitoral bolsonarista, o presidente precisa jogar com as armas que têm. O espetáculo, as declarações que, de tão absurdas, são notícias por diversos dias, a cortina de fumaça para tentar nublar as investigações que o ronda, são cartas que Bolsonaro joga para mostrar que ainda tem um certo poder. 

Segundo a comentarista da Globo, Miriam Leitão, quem convocou esse desfile não foi o ministro Braga Netto e sim Bolsonaro. Essa mostra de veículos blindados das três forças em um dia comum, sem nenhuma comemoração relacionada e sem qualquer resquício de tradicionalidade, no dia da votação da PEC do Voto Impresso, só demonstra que Bolsonaro quer intimidar o Congresso Nacional e o Poder Judiciário. 

Nada do jogo político é “coincidência”. Não foi uma mera causalidade esse desfile acontecer depois de tantas declarações do ministro e do presidente reforçando que estavam de posse das Forças Armadas em casos de fraudes nas eleições. Também não é coincidência esse desfile acontecer com tantas investigações sobre Bolsonaro no Poder Legislativo e no Judiciário. Muito mesmo, não é apenas uma obra do destino esse desfile acontecer no exato dia da votação da PEC do Voto Impresso, que o governo já sabe que não tem maioria dentro da Câmara para poder aprovar.

A verdade é que Bolsonaro tentou mostrar seu poderio colocando as Forças Armadas como cobaias de seus devaneios, mas só demonstrou o tamanho de sua fraqueza política e sua limitação em se articular dentro do jogo. Mas política não é só jogo, então ele também mostra sua fraqueza enquanto ser humano, que coloca como prioridade um projeto de emenda à constituição sobre voto impresso, enquanto o Brasil se aproxima cada vez mais de 600.000 mortos pela pandemia no país.

O sopro de alívio nisso tudo é que, além de os outros poderes, Legislativo e Judiciário, se reforçarem enquanto instituições democráticas, o presidente não tem apoio massivo nas Forças Armadas. Segundo muitos jornalistas de bastidores, como Octavio Guedes, da GloboNews, por exemplo, os militares não podem manifestar publicamente sua insatisfação com o presidente, mas que Bolsonaro não precisa contar com as três forças para dar qualquer golpe no Brasil.

Ricardo Almeida
Bem-vindo! Sou Ricardo, e neste espaço, minha paixão por futebol, o universo do esporte e as nuances da política se transformam em análises e discussões. Venha falar comigo os temas que moldam o Brasil.
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