Para não sofrer impeachment, Bolsonaro se rende à velha política, alia-se ao centrão e consegue eleger suas indicações para a presidência da Câmara e do Senado

“Chega de velha política.” Afirmou Bolsonaro, em abril de 2020. Na ocasião, o presidente estava com apoiadores em uma manifestação contra Rodrigo Maia (DEM-RJ). As placas e os gritos que pediam “Fora, Maia” da presidência da Câmara dos Deputados, acreditavam que Maia não deixava o presidente trabalhar.
Rodrigo Maia, durante seus mais de 4 anos na presidência da Câmara dos Deputados, em 2, acompanhou o mandato de Bolsonaro (sem partido) à frente da presidência da república. Durante esse tempo, de acordo com a agência Lupa, Maia aprovou 304 propostas, que dentre essas, haviam projetos de lei, emendas constitucionais e medidas provisórias.
Alguns projetos considerados de extrema relevância para o Governo, também foram aprovados, como a Reforma da Previdência, por exemplo. Além de muitas medidas de emergência para o enfrentamento da pandemia no Brasil.
Entretanto, Maia virou um algoz de Bolsonaro por não aprovar as Propostas de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma Tributária e Administrativa e pelas diversas declarações que dava à imprensa, discordando de atitudes do presidente frente à pandemia. Já do lado da oposição do Governo, Maia foi duramente criticado por não ter aberto o processo de impeachment de Bolsonaro, sendo que o ex-presidente da Câmara colecionava mais de 60 pedidos para o impedimento do presidente.
Às vezes criticado, às vezes amado, Maia conseguiu despertar emoções da esquerda, da direita e das alas bolsonaristas presentes no Governo e no Congresso Nacional.
Ele estava em cima do muro ou estava jogando o jogo político de forma estratégica?
Sai Maia, entra Lira
Se Rodrigo Maia estava, no caso, jogando o jogo político de forma estratégica, aparentemente não deu muito certo. Na noite de ontem (01), o deputado federal Arthur Lira (PP-AL) ganhou as eleições para presidência da Câmara dos Deputados com 302 votos contra 145 de Baleia Rossi (MDB-SP).
Lira era a indicação de Bolsonaro para a presidência da Câmara e Rossi, a indicação de Maia. Em tom de disputa, as vitórias poderiam ser consideradas como vitórias de Maia ou de Bolsonaro e não dos dois deputados que haviam, de fato, se candidatado para os cargos.
Maia, que não abriu o processo de impeachment de Bolsonaro, mesmo com mais de 60 pedidos protocolados na Câmara, apoiou Baleia Rossi que o iria fazer. Esse era o preço para que os partidos de esquerda votassem no candidato de Maia: em troca dos votos, o processo de impeachment.
Sabendo da alta e iminente possibilidade de ser impeachmado, Bolsonaro também precisou se articular para conseguir votos para Arthur Lira. Caso eleito, a indicação do presidente para a Câmara não abriria os processos de impeachment e ainda garantiria mais governabilidade, aprovando os projetos de Bolsonaro e sua equipe, especialmente a econômica, chefiada por Paulo Guedes.
No caso, Bolsonaro precisou fazer o jogo da “velha política”, a qual consiste em, basicamente, se vender ao centrão. O “centrão” é um grupo de partidos políticos que se juntam para definir os rumos das decisões tomadas na Câmara e no Senado. De forma didática, o centrão faz a mesma coisa que os participantes do BBB fazem quando precisam combinar votos, ou seja, articulam-se para votar da mesma maneira em algum projeto.
Os partidos que fazem parte desse grupo são: PP (41 deputados), PL (41), Republicanos (31), Solidariedade (14), PTB (10), PSD (34), MDB (34), DEM (31) sendo que esses três últimos votam junto com o centrão em pautas mais específicas. Partidos menores também compõem o grupo do centrão, sendo eles: PROS (11), PSC (10), Avante (8) e Patriota (6).
No caso das eleições para a Câmara e para o Senado, Bolsonaro precisou “comprar” o centrão, oferecendo cargos e outros benefícios, para que os deputados e senadores que o compõem dentro do Congresso, votassem de forma positiva aos interesses do presidente.
Bolsonaro, ainda na época de candidato ao cargo de presidente, prometeu diversas vezes que não iria apelar para a velha política para conseguir aprovar projetos no Congresso Nacional. Entretanto, escancaradamente, não foi o que aconteceu.
Ele afirmou publicamente a possibilidade de fazer uma minirreforma ministerial, colocando políticos dos partidos do centrão como líderes desses ministérios. Um dos ministérios que foi solicitado pelo centrão, de acordo com o blog da jornalista Andréia Sadi, foi o Ministério da Saúde, que provavelmente trocará seu comando pela 4ª vez durante o período de pandemia, ou seja, 2020/2021.
Além disso, Bolsonaro liberou R$ 511.529.626,00 em emendas parlamentares para a Câmara dos Deputados e para o Senado Federal, durante o período de campanha dos candidatos. Apesar desse pagamento ser obrigatório ao executivo, o presidente tem o poder de escolher quando irá liberar essa verba.
Arthur Lira, um dos líderes do centrão
Arthur Lira não foi escolhido ao acaso para ser a indicação de Bolsonaro para a presidência da Câmara. O deputado federal é líder do Partido Progressista (PP) na Casa, sendo um dos principais articuladores do centrão. Articulando com ele, Bolsonaro tem a certeza de que seu processo de impeachment não será aberto e ainda, tem a segurança de ter muitos projetos aprovados na casa legislativa.Entretanto, Bolsonaro não está contando com uma atitude que o centrão faz com frequência: a da traição. A jornalista Natuza Nery, da GloboNews, afirmou na tarde de hoje (02) que “o centrão não se compra, o centrão se aluga”. Nery ainda completou dizendo que o preço de manter o centrão como aliado é alto e que uma hora ele iria cobrar mais do que o combinado.
O grupo tem a fama de trair seus aliados quando estes não colaboram mais com suas demandas. O “toma lá, dá cá” que é característica do centrão, costuma aumentar de preço conforme o tempo vai passando. Em 2016, quando a ex-presidenta Dilma foi impeachmada, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que é também um dos líderes do centrão, tomou café com Dilma horas antes de votar positivamente em seu impedimento.
Especialistas da área política dizem que acordos feitos com o centrão podem ser bons para um objetivo inicial, mas também é uma compra para um problema futuro, já que a ideologia do centrão é se manter no poder, não importando em com quem esse poder esteja.
No Senado, o centrão também fez seu trabalho

As articulações com o centrão não foram somente para a Câmara dos Deputados. Bolsonaro também precisava de um nome aliado no Senado e isso também aconteceu. Rodrigo Pacheco (DEM-MG), senador apoiado por Bolsonaro para presidir o Senado, foi eleito com 57 votos contra 21 da senadora Simone Tebet (MDB-MS).
Rodrigo Pacheco, que também era apoiado pelo ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre, fez articulações para chegar ao resultado favorável. Junto com Alcolumbre, o senador mineiro conseguiu reunir cerca de 10 partidos para votarem a favor de sua candidatura. Já Alcolumbre, teve o trabalho de manejar alguns cargos no senado para que os votos fossem para seu candidato apoiado.
Durante seu discurso, Simone Tebet alfinetou a estratégia utilizada para angariar votos: “Não tenho cargos, emendas para oferecer aos senhores, não tenho os apoios. Repito, o que tenho a oferecer é um trabalho conjunto a favor do Brasil”, disse.
Já Pacheco, que assim como Rodrigo Maia, tem a característica de se aliar nos dois lados: esquerda e direita, após ser eleito presidente do Senado, afirmou que, apesar do apoio de Jair Bolsonaro, não será submisso ao Governo.
