A queda: as últimas horas da operação Lava Jato

Em 2014, quando surgiu, toda a equipe que trabalhava na Operação Lava Jato não tinha noção do tamanho e da repercussão que a ação teria. Com um singelo início, em uma investigação sobre lavagem de dinheiro em um posto de gasolina em Brasília, a Lava Jato conseguiu se expandir de forma a ser considerada como uma das maiores operações da história do Brasil e ainda ser um marco representativo na luta contra a corrupção e o crime organizado. 

Durante seus 7 anos, a operação prendeu grandes empresários e personalidades políticas, incluindo, o ex-presidente Lula, que até hoje não possui seus direitos políticos por ter sido condenado nos casos do triplex e do sítio em Atibaia, pelo ex-juiz Sergio Moro e pela juíza Gabriela Hardt, respectivamente. Além do ex-presidente, o empresário Marcelo Odebrecht, ex-CEO da construtora que leva seu sobrenome, também foi preso, já que a empresa era uma das grandes construtoras que pagava propina a políticos de vários partidos diferentes, para que pudesse obter contratos com a estatal Petrobras. 

Com um balanço de 174 condenados no Brasil, a Lava Jato foi perdendo seu brilho e importância com o passar do tempo. Após a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro, a expansão e continuidade da operação dependia do atual presidente que declarou, no ano passado, que ele “acabou com a Lava Jato, porque no governo não havia mais corrupção.” Após essa fala de Bolsonaro e diversos outros acontecimentos que ocorreram antes, a pá de cal foi jogada na Lava Jato depois que o Ministério Público anunciou, na semana passada, o fim da força-tarefa da operação no Paraná, em que as principais condenações aconteceram por lá.

Apesar da fala de Bolsonaro e do anúncio do fim da força-tarefa no Paraná, a Operação Lava Jato já dava sinais de que estava chegando ao seu final antes mesmo desses fatos acontecerem. Segundo especialistas da área, um dos principais erros da operação foi se concentrar na figura de Sergio Moro e do procurador Deltan Dallagnol. 

A personificação da Lava Jato em volta de Moro e Dallagnol

O ex-juiz Sergio Moro ganhou um título social pelas pessoas que acompanhavam as fases da Lava Jato: heroi brasileiro anti-corrupção. Após pegar firme para tentar provar os crimes que o ex-presidente Lula teria cometido, Moro caiu nas graças do povo, iniciando a onda anti-petista que se instalava no Brasil. 

Juntamente com ele, o Procurador da República Deltan Dallagnol ficou famoso, principalmente, pela apresentação em Powerpoint, que afirmava que Lula era o comandante do esquema criminoso alvo da operação Lava Jato. Com essa afirmação, Dallagnol ganhou adeptos pelo Brasil, já que o jurista foi peça-chave da condenação do ex-presidente petista.

Apesar de terem sido de extrema importância para as condenações na operação, a Lava Jato, basicamente, no âmbito popular se pautou na prisão de Lula como um algoz, tendo Moro e Deltan como dois herois, dando um parecer de que a condenação do ex-presidente era o ponto final da corrupção no Brasil.

Basear a Lava Jato, que é tão grande e expressiva, em uma apenas uma condenação e dois juristas, é colocar a operação em um risco desnecessário. Como bem sabemos, Lula já foi solto, Moro não é juiz e nem faz parte do governo mais e Dallagnol e outros procuradores deixaram o comando da Lava Jato, no ano passado. 

Vaza Jato

Outro ponto que desfavoreceu a operação, foi a série de reportagens investigativas feitas pelo site The Intercept, que publicou, dentre outras coisas, conversas de chat trocadas entre Moro, Dallagnol e outros personagens importantes da operação, evidenciando uma imparcialidade no julgamento de Lula. 

Uma das conclusões que o site tirou, foi que Moro ajudou nas investigações contra o ex-presidente e essa não é a função de um juiz, já que é preciso que o jurista se mantenha imparcial na hora do julgamento. 

Com toda a exposição realizada pelo The Intercept, apoiadores do petista inflaram a opinião pública, ressaltando a ilegalidade das investigações e julgamentos da Lava Jato, colocando em xeque a credibilidade que a operação conquistou durante os anos. 

Apesar de ter sido publicada em 2019, o The Intercept continua investigando e publicando novas mensagens trocadas entre os personagens da Lava Jato até hoje. No contexto atual, a defesa de Lula tenta usar das reportagens e das novas conversas publicadas, para anular o julgamento e recuperar os direitos políticos do ex-presidente, fazendo com que ele possa se candidatar à presidência em 2022. 

“Não há mais corrupção no governo”

É impossível não relacionar o fato de que a Lava Jato começou a decair, após a eleição do presidente Jair Bolsonaro. Ele, que aproveitou da onda antipetista criada na operação para se eleger, não cumpriu com a promessa de dar continuidade e investimento nas futuras fases da Lava Jato. 

Bolsonaro, que foi eleito com o discurso anti-corrupção, trouxe Sergio Moro como seu ministro da Justiça, colocando um selo contra a corrupção em seu governo. A ida de Moro para o governo Bolsonaro, em tese, significava a continuidade da Lava Jato, além de ações mais contundentes contra o crime organizado. O ex-ministro até emplacou seu Pacote Anti-crime na justiça brasileira, mas ainda assim não foi o bastante para fazê-lo ficar à frente do cargo. 

Após acusar Bolsonaro de querer interferir na Polícia Federal em benefício próprio, Moro pediu demissão e saiu brigado do governo, em 2020. Depois de sua saída, o ex-juiz é um dos políticos cotados para sair candidato à presidência da república em 2022, fazendo oposição a Lula e a Bolsonaro.

Com a demissão de Moro, Bolsonaro tirou o selo anti-corrupção do governo e a Lava Jato perdeu força. Sendo altamente criticado por conta disso, o presidente declarou à imprensa que “acabou com a Lava Jato porque não existe mais corrupção no governo.” Essa declaração foi dada em meio às investigações que envolvem seus filhos, especialmente, o senador Flávio Bolsonaro no esquema das rachadinhas e após Moro afirmar que o presidente estava interferindo nas investigações da PF. 

Apenas cerca de uma semana após Bolsonaro afirmar que não existia mais corrupção no governo, o ex-senador e ex-vice líder do governo Bolsonaro no Senado, Chico Rodrigues (DEM-RR), foi encontrado pela PF com 33 mil reais na cueca. A operação da Polícia apurava um suposto esquema de desvio de recursos públicos que seriam destinados para o combate ao coronavírus em Roraima. O ex-parlamentar integrava uma comissão dentro do Congresso Nacional que, justamente, monitorava o dinheiro público que é usado no combate à pandemia. 

“O lavajatismo há de passar”

E passou. O dono dessa frase, o procurador-geral da República, Augusto Aras, indicado por Bolsonaro, foi um dos grandes responsáveis por dar a assinatura final na Lava Jato. No ano passado, o procurador criticou a operação em uma live dos advogados do grupo Prerrogativas, em que falava que era preciso “corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure”. 

O chefe do Ministério Público justificou sua fala afirmando que o trabalho da Lava Jato tinha sim um objetivo de combater à corrupção, mas era feito fora dos trâmites legais e constitucionais. Além disso, Aras, na mesma ocasião, criticou principalmente o trabalho que era feito pela força-tarefa no Paraná. Ele ressaltou que a operação paranaense tinha mais dados pessoais do que o arquivo geral do Ministério Público Federal.


Sem surpresas, Aras foi o responsável por encerrar o núcleo da Lava Jato no Paraná, deslocando os membros da equipe para o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, do Ministério Público Federal.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
Leia também