Em quem você votou nas eleições passadas?

Há quem diga que a cidade de Conceição do Mato Dentro, com cerca de 18 mil habitantes, no interior de Minas Gerais, é pequena. “Se engana quem pensa assim”, disse Gustavo Aguiar, um jornalista recém formado, que desde os 7 anos de idade participava de grandes comícios políticos em sua cidade e se recorda de realmente gostar de acompanhar os processos eleitorais: “Lembro de estar em cima de trios elétricos com adesivos e bandeirolas”, disse saudando os tempos. 

Hoje, aos 28 anos de idade, com maior conhecimento político adquirido na faculdade de jornalismo em Belo Horizonte, vê sua “pequena” cidade repetir uma cena que ele nem sequer era nascido quando teve origem. “A população continua dando votos para o partido que manda aqui há anos, elegendo por meio de voto de compra, de troca”. 

Por meio dessa inconformidade, Gustavo se juntou com um amigo conterrâneo, locutor e estudante de psicologia, Délvio Utsch, para tentar conversar com essa população através de lives nas redes sociais, buscando evidenciar a esses eleitores que há outras opções na mesa política e, principalmente, fazendo-os valorizar o poder do seu voto. 

“Eu e Gustavo tivemos que voltar para Conceição do Mato Dentro por conta da pandemia e de repente, nas eleições que tivemos agora, uma cidade de 18 mil habitantes tinha 90 candidatos a vereador. A gente assustou e se perguntou: tem algo estranho! Quem são essas pessoas?”, questionou Utsch.

Nessas lives, Gustavo e Délvio trouxeram alguns candidatos às eleições de vereadores para bater um papo e dar a chance de exporem suas propostas para a população. Juntamente, eles próprios conheceram alguns dos candidatos e suas ideias, ajudando também na formulação dos seus votos. 

“E deu muito certo! A gente teve milhares de visualizações, mais de 6 mil horas de reprodução das lives, as pessoas realmente começaram a acompanhar. A gente não tinha noção dessa repercussão, mas tinha noção de que isso iria influenciar de alguma forma na política. Talvez não nessas eleições de 2020, mas daqui pra frente a gente poderia ajudar trazendo temas importantes”, comemorou Gustavo. 

O objetivo, tanto do jornalista, quanto do estudante de psicologia com as lives era o mesmo: levar mais do conhecimento político para a população de Conceição do Mato Dentro. Délvio relatou que sente as pessoas um pouco perdidas em meio a tanta informação dos vários candidatos aos cargos políticos e que isso dificulta o compromisso eleitoral. “Ficamos muito reféns da mídia tradicional aqui. É preciso que essa mídia converse com a linguagem que a população de Conceição entenda, então, como isso não acontece, tomamos essa iniciativa de fazer acontecer”, disse Délvio.

Ele ainda completou relatando que, quando se tem muita informação fragmentada de diversos tipos de veículos, na verdade, não há informação de nada. Gustavo, na toada do raciocínio do colega,  acrescentou que quando não existe um cuidado na linguagem da mídia ao retratar o que está acontecendo naquela cidade, considerando todas as suas características e vivências, utilizando-se apenas de uma linguagem padrão, isso dificulta passar a mensagem. “E quando não se tem informação, não se tem conhecimento. Nesse caso, além do voto por clientelismo, o que vemos aqui é um esquecimento muito breve em quem as pessoas votaram. E se não esquece, não tem o interesse de acompanhar esse candidato, eleito ou não, posteriormente, para realizar as devidas cobranças”, completou.

Entretanto, esse fenômeno do esquecimento não é um “privilégio” da cidade do interior de Minas.

Pesquisa divulgada em 2018 já relatava que…

80% da população brasileira esqueceu em quem votou nas eleições para o legislativo em 2014. O estudo feito pelo Instituto Idea Big Data confirmou que 8 em cada 10 brasileiros não se lembram em quem votou para o Congresso, ou seja, deputados federais e senadores, mostrando um detrimento pelo voto no campo legislativo. Mas por que essa amnésia coletiva acontece?

“O eleitor que esquece em quem votou é porque fez essa escolha de última hora, muitas vezes em frente às urnas. Não há um compromisso com a informação disponibilizada nas campanhas eleitorais.” Assim afirma o doutor em Ciência Política e professor da PUC Minas, Malco Camargos.

Quando perguntado o porquê disso acontecer, o cientista político elencou algumas razões que passam, principalmente, pela emoção. “Para se envolver no processo eleitoral, as pessoas precisam de emoção, ou seja, votar por amor ou ódio. Quando votam pela razão, votam com a percepção de quem fez um bom trabalho. Mas no caso das eleições nas casas legislativas, dificilmente irão gerar emoção, embate ou um posicionamento político forte para que as pessoas se recordem.”

Além disso, Camargos encontra na natureza das campanhas políticas uma preferência por quem efetivamente executa as políticas públicas. Nesse caso, as eleições para o executivo (presidentes, governadores e prefeitos), são mais valorizadas pelo público votante. “Justamente por isso, muitos candidatos do legislativo acabam se comportando como candidatos do executivo, fazendo uma confusão no eleitor, no que tange diferenciar a função de um para a função de outro, fragilizando a relação entre o povo e as casas legislativas”, alertou.

Logo, é fácil perceber o papel da desinformação nesse processo do esquecimento coletivo. Gustavo e Délvio, em diversas oportunidades, criticaram a política coronelista que é feita em Conceição do Mato Dentro. “Infelizmente as pessoas ainda trocam votos para ter material de construção e o processo eleitoral para elas acaba ali. Não há um aprofundamento no que está acontecendo posteriormente, por diversos motivos. Pela falta de informação sobre o que de fato é política e também porque, como que o pessoal dos distritos mais distantes daqui virão para o centro participar das audiências nas casas legislativas sendo que não tem nem transporte para que eles venham pra cá?”, lamentou o jornalista. 

“Sendo assim”, completou Gustavo, “mantivemos o status quo, das mesmas coligações sendo eleitas, sendo que tivemos a reeleição de 9 dos 11 vereadores que aqui já estavam. Os mesmos vereadores e o mesmo executivo que prometeram várias ações e não cumpriram. De eleição em eleição, eles vão prometendo as mesmas coisas e continuam não tendo esse compromisso com o povo.”

Malco Camargos sintetiza esse movimento como um distanciamento do eleitor com o político, já que o que foi prometido nas campanhas, geralmente não é cumprido em sua totalidade, sendo assim, isso gera um “desinteresse. Com o desinteresse, a desinformação. Com a desinformação, o esquecimento”, explicou o professor da PUC Minas.

O voto para a fulana da padaria 

“Quem sou eu para julgar o voto alheio, mas muitas vezes vemos a população votar na fulana da padaria como vereadora, porque ela prometeu fazer uma obra lá na rua da cidade que vai melhorar a mobilidade urbana. Mas ‘perai’, vereador nem faz obra!”, exclamou Bruno Lazzarotti, doutor em Sociologia e Política pela UFMG e professor da Fundação João Pinheiro.

Lazzarotti também culpou a falta de informação como causa primordial do grande número de esquecidos no processo eleitoral, mas ressaltou que até mesmo classes sociais que possuem um amplo acesso à informação passam por essa mesma situação. 

“Vamos supor que eu sou um eleitor nota 10 e quero fazer uma pesquisa muito bem fundamentada sobre as propostas dos candidatos a vereadores de Belo Horizonte. Entretanto, como eu faço essa pesquisa sendo que há mais de 1500 candidatos? Como eu vou pesquisar a vida, as propostas de mais de 1500 pessoas?”, indagou.

Como essa situação é a realidade dos brasileiros votantes, o professor disse que, para fazer a escolha de quem votar, esse cidadão utiliza de “atalhos cognitivos”, ou seja, busca por outros critérios para se decidir em meio a tanta opção. “Pode ser escolhido porque o candidato é de esquerda, ou de direita, ou é da oposição, ou qualquer outro motivo que leve o voto”, explicou. 

No caso de Conceição do Mato Dentro, Délvio comenta que o “atalho cognitivo” também pode estar relacionado à cabide de empregos que são as prefeituras e as câmaras. Segundo o apresentador das lives, é possível entender o porquê da população continuar votando nos mesmos candidatos, já que muitos acabam prometendo emprego e outros benefícios em troca dos votos. “É difícil você votar em uma oposição que não promete um emprego na prefeitura, então a lógica realmente é de continuar reelegendo essas mesmas pessoas”, disse Utsch.

Sobre deveres e direitos 

“O voto, no Brasil, pode ser visto mais como um dever do que como um direito, afinal, o fato de termos ainda o voto obrigatório, e não facultativo, traz-nos esta ideia. Ninguém gosta de ser obrigado a fazer ou deixar de fazer algo – até mesmo uma criança se ressente diante de um “faça isso ou aquilo!”” Se ser obrigado a votar é algo que te desanima, então você concorda com os dizeres do doutor e mestre em Direito, Prof. Dhenis Madeira. 

Segundo o jurista, votos obrigatórios em uma democracia que preza pela liberdade é uma grande contradição do sistema eleitoral brasileiro, fazendo com que a população veja o voto como uma mera formalidade obrigatória. Isso evidencia que a população brasileira não considera o voto como uma conquista de direito, mesmo após a proibição do sufrágio com o Golpe de 1964 e toda a luta que foi necessária para que os cidadãos pudessem escolher seus representantes diretamente novamente. E o sistema eleitoral brasileiro reforça isso. 

Entretanto, no que tange aos reais deveres, o próprio site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ressalta que a fiscalização dos políticos eleitos é um dos papéis da população: “Mais do que ser eleitor, compete ao cidadão acompanhar de forma permanente o que está sendo executado em seu município.”

Para Madeira, esse é um dos principais deveres da população: “Não existe democracia sem controle”, e ainda completou, “Numa democracia, não dá mais para aceitar as decisões tomadas às portas fechadas. Não podemos apenas terceirizar esse papel de fiscalização ao aparato burocrático como o Tribunal de Contas, ou mesmo, o Judiciário e o Ministério Público”, disse. 

Porém, o professor Malco Camargos não concorda com essa premissa do professor Dhenis. Para ele, “é demais exigir do cidadão esse papel de fiscalização, sendo que ele já tem a vida dele, tem que cuidar da vida daqueles que estão próximos a ele e ainda queremos que ele cuide da vida daqueles políticos eleitos?”, questionou. 

Camargos diz que essa função da fiscalização precisa ficar com os três poderes, para que cada um se fiscalize em si, mas que é necessário que a população acompanhe a imprensa livre que deve existir em uma democracia, para que se saiba o que acontece com esses políticos, para enfim, esses cidadãos “os premiarem” com uma eleição ou reeleição nos próximos pleitos. 

Entretanto, como é possível fazer isso se mais de 80% da população se esquece em quem votou?

Resoluções

Para que isso se resolva, os especialistas seguem por caminhos diferentes. Para Lazzarotti, é preciso que as eleições para o legislativo siga o sistema proporcional de lista fechada, ou seja, cada partido apresenta uma lista de candidatos que irão disputar os cargos para vereadores, por exemplo. Quando ocorrem as eleições, os votos dados a essas listas partidárias de vereadores são contados e as cadeiras disputadas são distribuídas entre os partidos proporcionalmente aos votos recebidos pelas suas listas. Logo, se eu tiver 40 cadeiras disponíveis e meu partido receber 10% dos votos totais, esse meu partido terá 4 cadeiras disponíveis na câmara. 

Mas, no sistema de lista fechada, o candidato não se desvincula do partido, fazendo uma campanha individualizada. Nesse tipo de sistema, o cidadão vota em uma lista fixa e não no candidato em si. Para o professor, isso ajudaria em uma valorização dos partidos e diminuindo o esquecimento do candidato enquanto indivíduo. 

Já para o doutor em Ciência Política, Malco Camargos, não há uma solução que resolva o problema do esquecimento coletivo de uma hora para a outra. Segundo ele, a democracia é um aprendizado, um exercício constante de acertos e erros, e que investindo em boas práticas políticas, como não tendo ações corruptas no dia a dia, já se torna possível melhorar a experiência democrática. 

O doutor Dhenis Madeira ressalta que o esquecimento é algo normal do ser humano, dessa forma, se o cidadão brasileiro não procurar se envolver de forma significativa com os processos políticos-eleitorais, que realmente será difícil se recordarem dos políticos que votaram e principalmente, será custoso manter um acompanhamento do que foi feito com seu próprio voto: “Sou capaz de apostar, porém, que os eleitores mais radicais e extremistas se recordam muito bem em quem votaram nas últimas eleições, justamente, por se importarem com o pleito e criarem um vínculo emocional com seus candidatos”, concluiu. 

Mas, para Gustavo e Délvio, o caminho é continuar com as lives. Os apresentadores pretendem continuar a discutir outros temas, não somente em épocas eleitorais: “Vamos continuar com as lives e trazer temas como gordofobia, homofobia, machismo e outros pontos de educação política para que possamos quebrar paradigmas”, disse Gustavo. Délvio diz saber que o eleitor vota por paixão e pretende utilizar essa paixão nas lives, para que os eleitores consigam ter noção do valor do seu voto. Para ambos, o bate papo entre a população, os políticos e eles é uma forma de cumprir com seus papéis dentro da democracia. 

“Conceição tem uma das maiores arrecadações minerárias do país, nossa cidade é grande demais para ficar votando por troca e investindo em um processo de esquecimento coletivo e seletivo”, fechou o jornalista.

Ricardo Almeida
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