Bolsonaro promete um novo Bolsa Família e repete estratégia populista de Lula
Para conseguir se eleger em 2022, Bolsonaro irá liberar verba para a população mais pobre, tentando se desvincular de imagem negativa que tem agora com as investigações que rondam seu governo

O Ministério da Economia e da Cidadania já anunciaram que estão trabalhando para conceder à população brasileira um novo Bolsa Família. A ordem é do presidente Bolsonaro, que quer liberar a verba logo no início de 2022, que é importante frisar, é ano eleitoral e o presidente irá tentar a reeleição.
Bolsonaro ainda quer ampliar o número de pessoas que irão receber o benefício, além de aumentar o valor, que era em uma média de R$ 190 e agora, conforme disse o presidente, provavelmente será de R$ 300 para cada beneficiário. O projeto do governo é substituir o auxílio emergencial que foi dado durante a pandemia no Brasil, para que essas famílias que estão desamparadas não perca a pequena dignidade social que a verba possibilita.
Lembrando que no Brasil, atualmente, temos quase 15 milhões de pessoas desempregadas e, de acordo com pesquisas tocadas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pela Universidade de Brasília (UNB) e pela alemã Universidade Livre de Berlim, mais da metade dos lares brasileiros sofrem com a insegurança alimentar.
A verba é, de fato, necessária para uma grande parte da população brasileira. O CadÚnico (Cadastro Único do governo federal), divulgou em abril deste ano que 14,5 milhões de famílias registradas vivem em extrema pobreza. Segundo o próprio governo federal, isso significa que 14,5 milhões de famílias vivem com renda per capita de até R$ 89 por mês. Com a alta inflação que assola os preços de alimentos básicos, esse valor não paga uma semana de alimentação saudável e digna para essas famílias.
Um dos problemas que está barrando o êxito do novo Bolsa Família é que o governo, já há meses, afirma que não ter verba. Paulo Guedes, ministro da Economia, afirmou por um bom tempo que não tinha dinheiro nem para prorrogar o auxílio emergencial, quanto mais para dar conta de mais um programa social. E a ordem de Bolsonaro, inicialmente, é aumentar o valor da verba. Para conseguir, os ministérios da Economia e da Cidadania estão contando com o recurso que será gerado após a reforma tributária, que ainda não aconteceu e nem passou pelo Congresso.
Entretanto, o próprio Bolsonaro que está ordenando seus ministérios a “rebolarem” para conseguir a verba para o novo Bolsa Família, é o mesmo Bolsonaro que, enquanto deputado federal, criticou os programas sociais dos governos PT e afirmou que era uma forma de compra de votos. Inclusive, o Bolsonaro deputado, já chegou a enfatizar seu desejo de extinguir os programas sociais.
Mas o que muda entre o Bolsonaro deputado federal e o Bolsonaro presidente da república? Bom, o que muda são as estratégias de se manter no poder. Sendo assim, lhe pergunto: você conhece o que é o populismo?
Uma estratégia acertada: o populismo
O populismo, de acordo com a ciência política e a história, é um termo e uma estratégia que políticos utilizam na forma de conduzir seus governos ou funções dentro do sistema político. Falando em termos simples, é quando um político adota um discurso voltado às massas populacionais, tenta se aproximar delas sem intermédio de outras instituições políticas e em alguns casos, utiliza-se da premissa de que será um político que irá suprir as demandas do povo, sem precedentes. Seja na área financeira, que é a mais visada, mas também em outras demandas da população.
O termo foi utilizado por historiadores e outros profissionais, para exemplificar o período de 1930 até 1964, em que muitos políticos utilizaram-se dessas características populistas para lidar com o povo brasileiro. O presidente Getúlio Vargas ficou conhecido como o grande símbolo do populismo no Brasil, mas outros presidentes seguiram seus passos e também repetiram essas características, como Juscelino Kubitscheck, João Goulart e, mais recentemente, Lula e Bolsonaro.
Vargas era um líder carismático, talvez um dos maiores que já tivemos. Ele conversava diretamente com o povo brasileiro, dando uma impressão de quem ouvia a população. O ex-presidente centralizou o poder em suas mãos, passando para o povo brasileiro que ele seria responsável por suprir suas demandas. Com essa atitude, Vargas foi considerado como um ditador por muitos historiadores.
Getúlio ficou 15 anos no poder e se utilizava de estratégias para se manter próximo do povo. Em uma dessas ocasiões, ele aparece dando uma nota de dinheiro a uma criança, com uma multidão do lado. Por essas atitudes, Getúlio tinha um grande apoio popular e isso ajudava a mascarar a sua centralização do poder.
O ex-presidente deu golpes para se manter na presidência do Brasil e mesmo que seu apoio popular tivesse caído em decorrência dessa necessidade de se manter no poder, quando Getúlio suicidou-se, saindo enfim da presidência do Brasil, o traslado do seu corpo foi um verdadeiro acontecimento no país, em que milhares de pessoas foram às ruas para acompanhar. A morte do ex-presidente teve comoção nacional, com pessoas chorando e se lamentando porque, para eles, “um dos melhores presidentes do Brasil” tinha morrido.
Passando um pouco mais para frente na história, um presidente que teve um grande apoio popular e falava diretamente com as massas foi o presidente Lula. Na verdade, Lula só entrou para a política porque, durante a greve dos metalúrgicos no final da década de 70, ele viu que tinha carisma para falar com grandes multidões.
Quando se tornou presidente, Lula prometeu governar para e pelo povo, investindo em programas sociais que tentavam suprir as demandas da população, como o programa Luz Para Todos, Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e outros. Até o próprio nome dos programas já trazia essa imagem de que eram feitos para a população de massa, com o objetivo de dar um pouco de dignidade para o povo brasileiro.
Assim como Vargas, Lula também entrava no meio da multidão para tentar dar a impressão de que era um presidente “gente como a gente” e conversava diretamente com a população. Com grande apoio popular mesmo após escândalos de corrupção envolvendo seu governo e seu partido, o PT, Lula conseguiu se reeleger e, quando precisou sair da presidência, ainda conseguiu eleger sua candidata, a ex-presidenta Dilma Rousseff. O petista saiu do poder em 2010 com 87% de aprovação do povo brasileiro.
Porém, Lula foi muito criticado pela oposição ao seu governo por fazer uma política de troca de votos. Para muitos, Lula dava dinheiro para o povo, mas não investia em projetos que auxiliassem a população brasileira a se emancipar e ela própria conseguir produzir suas riquezas. Bolsonaro, quando deputado federal, foi um dos políticos da oposição que criticou no Congresso Nacional a política populista de Lula e ainda enfatizou seu desejo de que os programas fossem excluídos.
Mas, hoje, Bolsonaro cresceu no espectro político e é presidente da república, e assim como Lula, investe em estratégias populistas para se aproximar de sua base eleitoral, mascarando os problemas que englobam seu nome e seu governo frente à pandemia.
Nosso presidente atual dificilmente fala com a imprensa e quando fala, corta as perguntas que ele não quer responder. Ao invés disso, ele vai até o cercadinho do Palácio da Alvorada e conversa diretamente com seus eleitores que, por sua vez, filmam e postam em grupos de redes sociais na internet.
Além disso, Bolsonaro, por mais que tenha prometido reformas liberais em seu governo, que geralmente remete a medidas de austeridade fiscal e isso não é nada popular, tenta agora ser mais populista em seus planos governamentais. Com isso, ele bate de frente com o ministério da Economia, que tem metas liberais. Mas, para conseguir se reeleger e tentar nublar toda a polêmica que envolve seu nome e seu governo frente à pandemia no Brasil, o presidente terá que realizar uma premissa básica para os populistas: colocar dinheiro no bolso do brasileiro.
Isso é muito fácil de ser observado. Enquanto o auxílio emergencial de R$600 ainda existia, por mais que Bolsonaro desse declarações controversas sobre a pandemia no Brasil, sua popularidade se mantinha em um nível bom/regular. Agora que não há mais auxílio de R$600, o presidente que continua com essas declarações e ainda lida com diversas investigações sobre crimes contra a vida e saúde pública, além de supostos crimes de corrupção na compra de vacinas, já tem sua popularidade diminuída em uma média de 25%.
Com essa popularidade, Bolsonaro não consegue se reeleger presidente da república e por isso está buscando movimentar seu governo para colocar dinheiro no bolso do trabalhador. Para isso, a tentativa da vez é investir em um novo Bolsa Família, seguindo mais uma vez os passos do ex-presidente Lula.
Bolsa Família lembra o PT e não é isso que Bolsonaro quer
Por mais que esteja se utilizando da estratégia populista que tanto criticou no Congresso quando era deputado, Bolsonaro não quer seu nome relacionado à imagem de Lula. Justamente por isso, o presidente deseja mudar o nome do Bolsa Família para um outro nome que não remeta às lembranças do governo PT.
É importante frisar que Lula é o maior opositor de Bolsonaro e, nesse momento, por meio das pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2022, o petista ganha com facilidade de Bolsonaro, inclusive no primeiro turno.
Por isso, ter um programa com o nome de Bolsa Família, que tanto lembra o governo Lula é uma estratégia perigosa para 2022, porque Bolsonaro tentará colocar esse programa, ainda sem nome, em ação no ano que vem, para que a população lembre, nesse próximo ano de eleição, que quem liberou a verba foi ele. A meta é desvincular um projeto idêntico ao Bolsa Família da imagem de Lula e vinculá-lo ao Bolsonaro.
Por que é importante ter análise crítica com políticos que se utilizam da estratégia populista?
Se pudermos sintetizar o que é populismo, em termos básicos e em recorte simples, ele se caracteriza muito por ser a estratégia política que coloca dinheiro no bolso da população, que tenta suprir as demandas financeiras e se aproxima do povo com um carisma muito significativo.
Entretanto, por mais que seja de enorme importância ter dinheiro no bolso, ter um político e, mais especificamente, um presidente que se aproxime do povo e fale com essa linguagem popular, é preciso que sejamos críticos quanto ao que o presidente Bolsonaro falava enquanto era deputado federal: esse programa social foi feito para trazer um verdadeiro benefício para o Brasil ou é uma estratégia para angariar votos em uma possível reeleição? Porque os problemas e as demandas da população brasileira não serão resolvidos, apenas, dando dinheiro à população. É preciso muito mais, para, de fato, suprir as demandas do povo.
Assim como diria grandes pensadores da ciência política, ter poder e ter dinheiro são coisas diferentes. Políticos, inseridos nessa cultura que temos no Brasil, querem se manter no poder, ter o país em suas mãos. Dinheiro eles “podem” ter em qualquer outra instância dentro do sistema político, mas poder é algo mais significativo. Por isso, eles utilizam de diversas estratégias para se manterem poderosos no Brasil.
Sendo assim, é importante se questionar: de onde virá esse dinheiro que pagará o programa? O governo vai dar com uma mão e tirar com a outra? Por exemplo, teremos programas sociais, mas os impostos cobrados também irão aumentar? Qual é o objetivo do governo com esse programa social? Há uma meta para esse programa acabar e se acabar, como ficarão as famílias que foram assistidas pelo recurso? Como o Congresso Nacional está se comportando com esse novo programa social do governo?
Tendo as respostas dessas perguntas, será possível realizar uma análise crítica para saber, de fato, se o objetivo do programa social é angariar votos ou fazer um verdadeiro bem para a população.
