Polêmica da compra da vacina Covaxin dá o tom da CPI da Covid nesta sexta-feira
No Twitter, as pessoas se sentem em final de copa do mundo, abrindo cerveja e fazendo tira-gosto, esperando o depoimento dos irmãos Luis Miranda

O governo Bolsonaro enfrenta seu pior momento, até agora. Isso acontece porque o presidente, realmente, não tem sossego. São tantas crises para resolver, que fica difícil escolher qual dar prioridade. Além da pandemia, que por si só, acopla, pelo menos, umas três crises dentro, o presidente tem que lidar com a CPI da Covid, reformas ministeriais demandadas pelo centrão, investigações sobre seus ministros e, agora, uma investigação com peso de “derrubar a República”.
A polêmica da compra da vacina Covaxin começou a se tornar pública quando o servidor Luís Ricardo Miranda, chefe da divisão de importação do Ministério da Saúde, relatou ao Ministério Público Federal ter sofrido uma “pressão incomum” de pessoas de cima, para assinar o contrato com a empresa Precisa Medicamentos, que fez o meio de campo entre o governo brasileiro e a fabricante indiana Bharat Biotech.
Luís Ricardo Miranda é irmão do deputado, bolsonarista, Luis Miranda (DEM-DF), que procurou o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), dizendo que tinha provas de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin pelo governo federal e que ia “derrubar a República”.
Quando perguntado sobre o que ele, de fato, estava falando, o deputado explicou que era irmão do chefe da divisão de importação do Ministério da Saúde e afirmou que tinha informações que a CPI não tinha e que estava disposto a falar.
O que o deputado Mirando se referia, era em relação ao contrato da vacina Covaxin. Em fevereiro, o Ministério da Saúde publicou que havia fechado um contrato de compra de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin ao preço de R$ 1,6 bilhão. Um telegrama enviado no ano passado pela embaixada brasileira em Nova Délhi ao Itamaraty, dizia que a vacina da Bharat Biotech tinha o preço estimado em US$ 1,34 por dose, mas, no início deste ano, o Ministério da Saúde concordou em pagar US$ 15 por unidade (R$ 80,70 na cotação da época).
Este foi o imunizante mais caro e com a negociação mais rápida que o governo brasileiro encomendou. Foram apenas 97 dias de negociação, enquanto com a Pfizer, que era mais barata, o governo demorou 330 dias para assinar o contrato. O que mais chama a atenção, neste caso, é que o ex-ministro Eduardo Pazuello, em depoimento à CPI, disse que não comprou as vacinas da Pfizer porque eram muito caras.
Apesar da compra ter sido anunciada em fevereiro deste ano, com previsão de entrega das doses entre os meses de março e maio, nenhuma dose foi entregue. Entretanto, o acordo era de que o pagamento seria antecipado e seria repassado a uma terceira empresa, chamada Madison Biotech, com sede em Cingapura. Hoje, o site The Intercept foi até o endereço da Madison Biotech para tentar contatar com a empresa e o que os repórteres acharam foi um local “sem qualquer sinalização comercial da Madison (…) apenas uma placa escrito Sashi Kala Devi Associates”.
Nesse caso, então, cadê o dinheiro? De acordo com documentos oficiais, o governo federal já empenhou o valor total do contrato para compra da Covaxin, ou seja, o dinheiro está reservado e não pode ser gasto com outra coisa.Com isso, a suspeita da CPI da Covid é de que essa Madison Biotech é uma empresa de fachada. Outra coisa que a Comissão irá investigar é o porquê do governo federal não ter solicitado à Polícia Federal para investigar os supostos contratos ilícitos, porque, segundo o deputado Miranda, ele avisou o presidente Bolsonaro sobre indícios de irregularidades na compra da Covaxin, mas ele deixou passar. De acordo com o governo, Bolsonaro avisou a Pazuello sobre essas irregularidades e o ex-ministro não encontrou nada suspeito.
Para que a CPI encontre essas respostas, o depoimento de hoje será com os irmãos Miranda, que estão protegidos pela Polícia Federal. Tanto o deputado, quanto o servidor serão questionados sobre a compra da vacina, as possíveis irregularidades e o envolvimento de Bolsonaro e do governo federal nesse suposto esquema de corrupção.
Os senadores do G7, que investigam as ações e omissões do governo federal no desastre da pandemia no Brasil, devem focar as perguntas na figura de Bolsonaro e do ex-ministro Eduardo Pazuello, trazendo trechos de entrevistas, declarações e até mesmo trechos dos depoimentos da CPI, para contradizer versões do governo e dar credibilidade ao que os irmãos irão denunciar.
Já os senadores governistas, que hoje deve ter o apoio de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) em sua composição, devem utilizar da estratégia de atacar pessoalmente o servidor e o deputado, já que o próprio governo já pediu à PF para investigá-los.
Esse depoimento é de suma importância para os rumos do governo Bolsonaro, já que o presidente está caindo nas pesquisas de aprovação e ainda precisa lidar com uma campanha presidencial que muitas pesquisas já apontam o ex-presidente Lula com grandes vantagens à frente dele.
Se a investigação vai derrubar a república, eu não sei. Mas posso afirmar que Bolsonaro está com medo, já que, afinal de contas, ele está na presidência hoje por ser um ícone anticorrupção.
