Brasil, terra de “isentões”?
Público em redes sociais mostram que é melhor não agradar todo mundo com seu posicionamento político, do que não se posicionar em nada

Geraldo Vandré disse em seus versos que “esperar não é saber e que quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Quando escreveu a poesia que é Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, Vandré tinha a necessidade de expressar que era preciso que todas as lutas se juntassem para derrubar um dos períodos mais críticos da história do Brasil, a ditadura militar.
Artistas de todas as áreas se reuniram em um só propósito durante o golpe militar: se posicionaram, utilizaram de suas vozes, corpos e representatividade para extinguir a dura censura que as artes sofriam. Eles sabiam, naquele momento, o tamanho e o poder que tinham para fazerem suas partes e entrarem para a história como uma classe que ajudou a acabar com o golpe.
Na época, os artistas corriam risco de vida por se posicionarem contra a ditadura militar, mas isso não os assustavam ao ponto de passarem passivos por esse momento. Havia algumas estratégias, como a que Chico Buarque utilizava nas letras de suas canções, abusando das metáforas, para que conseguisse aprovar sua música pelo filtro da censura da ditadura, que decidia qual música poderia ir para as rádios brasileiras.
Um bom exemplo é a música Cálice, que faz uma tremenda crítica ao golpe, mas foi aprovada porque os militares entenderam que a letra dizia respeito ao cálice das igrejas católicas. Mas na verdade, o “cálice” era o “cale-se” tão presente na censura da ditadura militar.
Os riscos da censura, da tortura e da morte não barraram os artistas. Eles escolheram não se isentarem da opressão que eles e tantas outras classes sofriam. 21 anos depois, eles venceram e foram um dos responsáveis por fazerem a democracia renascer no Brasil. Chico Buarque, Zuzu Angel, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Milton Nascimento e tantos outros, pode passar o tempo que for, que serão respeitados por sua obra e por suas ações dentro da história do Brasil.
Mas, por que hoje em dia, grandes artistas da nossa geração tem tanto medo de se posicionarem, especialmente no momento que estamos atravessando?
Um mundo conectado, pessoas distantes
Na época da ditadura militar, não havia nem a previsão de que as redes sociais teriam a proporção que se tem hoje. Quase posso afirmar que nem se imaginava que esse conceito de redes sociais seria real. Mas é a nossa realidade atual.
Quando o Brasil atravessava o período militar, os artistas não tinham medo do “cancelamento” das redes sociais. Não havia o receio de postar algo no Twitter e ser bombardeado com xingamentos pessoais, que ofendem sua moral. No mundo polarizado que vivemos hoje, se posicionar politicamente pode significar um cancelamento. Na verdade, significa um cancelamento, porque você será cancelado por um dos lados do polo.
Não há um diálogo construtivo dentro das redes sociais, com um objetivo de ampliar formas de ver o mundo. Há ataques. E isso, realmente, faz com que artistas pensem muito antes de postar alguma mensagem que possa comprometê-los em um dos lados do polo social. E, consequentemente, faz com que eles pensem muito antes de agir em prol de alguma causa também.
Entretanto, o Brasil atravessa, hoje, uma pandemia que já levou mais de 500.000 mortos para a Covid-19. O presidente da república, Jair Bolsonaro (sem partido), ao invés de investir na única solução para acabar com a pandemia, que são as vacinas, preferiu investir tempo e dinheiro em um medicamento sem eficácia.
Além disso, ele já deu diversas declarações públicas negando a seriedade da pandemia (quem não se lembra da “gripezinha?”) e ainda fez piadas com as mortes causadas pela falta de oxigênio que a doença causa. E o pior é que isso é apenas um breve resumo de toda a irresponsabilidade que Bolsonaro e seu governo cometeram durante a gestão na pandemia.
Considerando isso e todas as 500.000 vidas perdidas, se preocupar com “cancelamento” das redes sociais é algo supérfluo. Se posicionar contra tudo o que o governo NÃO está fazendo para barrar a pandemia no Brasil, é uma questão de humanidade. E aqui, não interessa se você votou no presidente que está lá, é preciso reconhecer que ele é um dos grandes responsáveis por esse expressivo número de óbitos, além de todas as consequências econômicas, políticas e sociais que essa omissão acarreta.
Entretanto, muitos artistas parecem ter se esquecido do nome do presidente da república e mostram uma atitude passiva frente ao que está acontecendo. Não se utilizam de suas vozes, corpos e representatividade para, de fato, representar quem admira e quem se identifica com seus trabalhos. Não se inspiram nos artistas que os antecederam durante a ditadura militar.
E em tempos conectados como estes, em que o que acontece na China, aparece no Brasil de forma instantânea, é impossível ser isento da realidade. E considerando que o artista precisa do seu público, como não utilizar de seu ofício para representar esse público, utilizando-se do seu lugar de fala?
Se você for um artista privilegiado, é ainda mais necessário que haja esse posicionamento, porque o seu alcance é maior e pode influenciar mais pessoas a fazer o certo, que agora se traduz em usar máscara, manter o distanciamento social e tomar a vacina.
Grande representatividade e grande isenção
Juliana Paes, Claudia Leitte e Ivete Sangalo são nomes significativos da arte brasileira. Por esse “título”, muito se espera que suas vozes sejam utilizadas para representar os amantes de suas artes. Entretanto, nas últimas semanas, as artistas não escaparam de críticas por serem consideradas isentonas demais ao contexto atual.
A cantora Claudia Leitte, em uma participação no programa Altas Horas, da Globo, foi perguntada sobre qual é a sua indignação com o momento que o Brasil atravessa e a baiana fez todo um discurso sobre luz e escuridão: “A minha indignação? Eu tenho um coração pacificador. Eu me indigno, sou capaz de virar tudo pelo avesso, de chutar as barracas, mas acho que todo mundo tem um lugar onde pode brilhar uma luz para desfazer o que está acontecendo e se essa luz se acende, obviamente, não vai ter escuridão”, respondeu a cantora.
Obviamente, sua fala foi duramente criticada nas redes sociais e ela precisou se retratar quanto ao ocorrido: “Precisava ter consciência do meu papel social e não tive”, disse. Claudia gravou um vídeo com características comuns das pessoas canceladas na internet. Imagem limpa, com maquiagem leve, roupas claras e uma fala suave.
Juliana Paes se indignou com o fato de uma colega de trabalho tê-la cobrado um posicionamento político neste momento da pandemia e gravou um vídeo de 5 minutos para falar sobre isso. Mas o ato não ajudou a atriz a melhorar sua imagem nas redes sociais.
“Você critica a minha escolha de não militar publicamente escolhendo um dos lados políticos nesse debate todo, então deixa eu te falar sobre o que eu penso. Estamos vivendo um dos momentos mais nebulosos. O mundo inteiro está angustiado. Qualquer assunto é politizado, é um maniqueísmo. Eu não sou bolsominion, como adoram acreditar”, disse Juliana.
Apesar de falar que não é “bolsominion”, a atriz disse que os “delírios comunistas” da esquerda também não a representam e que ela é uma pessoa múltipla: “Eu não admito ser colocada em nenhum desses dois polos. Não quero contribuir para essa polarização doentia. Não nesse momento obscuro, onde o ódio reverbera mais. Ou você é isso ou é aquilo. Isso não existe. Somos múltiplos”, completou.
A global, que foi extremamente criticada, também recebeu mensagens de apoio de outros colegas e isso ajudou, segundo seguidores, a entender quem são os outros “isentões” dentro da classe artística. Entretanto, o ator Ícaro Silva e a atriz Letícia Sabatella foram contra o posicionamento de Juliana e deixaram isso bem claro no post.
“Um dia, a gente pode conversar com calma, te mostraria que, através de muitas fakenews disseminadas para acreditarmos que o Brasil corre o risco de virar uma ditadura comunista, partem de quem está querendo implantar uma ditadura ao molde do que já houve em nosso país. Em meu caminho, sempre cuidei de conhecer de perto os movimentos sociais tão criminalizados. Só este cuidado, te peço na sua linda fala, minha querida”, comentou Sabatella.
Já Ícaro comentou sobre o lugar de fala de Juliana Paes: “Ju, acho que é simples. Você é inteligente, talentosa, carismática, amada, icônica, belíssima. Mas seu pensamento não ultrapassa a bolha da classe alta; não ultrapassa o cercado de privilégios que seu talento te permitiu alcançar. Seu posicionamento é de quem não sabe o que é fome, de quem não entende o que é miséria. Dá pra entender o que você está dizendo, aqui do meu cercadinho de jovem ator morando na Barra da Tijuca. Mas é como se você estivesse falando de uma pequena ilha de tesouros pra um continente cheio de gente à beira da morte”, disse o ator.
A cantora Ivete Sangalo foi a “isentona” mais recente que disse que todas essas mortes decorrentes da covid-19 não é “sobre partido e sim sobre humanidade”: “Não é natural. Não é uma mentira. É estarrecedor pensar sobre as milhares de vidas ceifadas e dores irreparáveis em torno dessas perdas. Não é sobre partidos, é sobre humanidade”, escreveu a artista.
Ivete foi criticada após seu post, com seguidores dizendo que realmente não é sobre partido e sim sobre Jair Bolsonaro.
A negação da cultura brasileira no Governo Bolsonaro
Não é preciso acompanhar muito as notícias políticas para saber que a cultura brasileira não é uma prioridade no Governo Bolsonaro. Não há nem um ministério dedicado à cultura no governo, sendo que esta fica por conta do Ministério do Turismo.
A cultura só teve protagonismo no governo quando a atriz Regina Duarte era a secretária especial da área. Mas seu protagonismo só era evidenciado por polêmicas e não por ações que efetivamente ajudassem a classe artística durante a pandemia no Brasil e em outros momentos também.
Apesar de ter liberado um auxílio financeiro dedicado à cultura no início da pandemia, o governo federal cortou quase 80% dos recursos que são destinados à pasta em 2021. É o famoso “dei, mas tomei”.
Se a pandemia não for motivo o bastante para fazer com que mais artistas se posicionem contra o governo, talvez a desvalorização das várias profissões que compõem a classe artística seja. Escolhendo um motivo ou outro, ou até mesmo escolhendo os dois e tantos outros, é importante sabermos qual artista efetivamente nos representa, já que tantos escolhem calar suas vozes para se manterem “bonzinhos” frente aos públicos polarizados.
