Política, ideologia e ciência: o caminho tortuoso da vacina contra a Covid-19 no Brasil
Após 200.000 óbitos decorrentes da Covid-19 no Brasil, o país inicia seu plano de vacinação, tendo início em São Paulo. Entre brigas e disputas políticas, saiba como foi o longo percurso da imunização no Brasil.

“Que a população acredite na vacina”. Foi com essa frase que a enfermeira Mônica Calazans, a primeira pessoa vacinada contra a Covid-19 no Brasil, pediu um basta no negacionismo, apelando para que os brasileiros confiem na ciência.
Linha de frente no combate ao vírus no estado de São Paulo, a enfermeira desabafou à imprensa logo após ser vacinada, lamentando sobre as vidas perdidas na pandemia do novo coronavírus e afirmou que a vacina é a “grande chance que temos de salvar mais vidas”. Até a produção dessa reportagem, o Brasil já passa dos 210.000 óbitos em decorrência da doença.
Entretanto, para que Mônica pudesse, enfim, ser imunizada contra a Covid-19, houveram percalços políticos e ideológicos impedindo que a vacina tivesse chegado ao Brasil de forma ainda mais breve.
A iniciativa de Doria: os primeiros passos da vacina no Brasil
Antes mesmo do Ministério da Saúde, o Governo de São Paulo já anunciava o início da busca pela vacina contra a Covid-19 para o estado. No dia 11 de junho de 2020, Doria apresentou à imprensa o contrato firmado entre o Instituto Butantan e o laboratório Sinovac, para a produção da vacina Coronavac aqui no Brasil.
A vacina, que já tinha sido aprovada em testes clínicos na China, ainda precisava passar pela fase 3 no Brasil para que pudesse ter sua eficácia e segurança comprovada. A parceria foi, justamente, firmada para que os testes fossem feitos em São Paulo com a participação de 9 mil voluntários.
Segundo João Doria, o objetivo era fazer com que, caso os testes fossem bem sucedidos, a vacina poderia começar a ser produzida no Brasil pelo Instituto Butantan e, após aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), enfim ser disponibilizada para os brasileiros.
Para concluir essa empreitada entre o instituto brasileiro e a empresa chinesa, foi necessário que o Governo de São Paulo desembolsasse um valor de 85 milhões de reais.
Após Doria, Ministério da Saúde fecha parceria com AstraZeneca
Pressionados pela iniciativa de Doria, em São Paulo, o Governo Federal trabalhou para avançar com a parceria firmada junto à farmacêutica britânica, AstraZeneca, e a Universidade de Oxford para a disponibilização da vacina, que é comumente conhecida como a vacina de Oxford.
No dia 27 de junho de 2020, o Ministério da Saúde anunciou o acordo realizado, num intuito de cooperação entre a farmacêutica, a universidade e o Governo brasileiro, no desenvolvimento tecnológico e acesso do Brasil à vacina contra a Covid-19.
A partir dessa transferência, o Ministério da Saúde teria autonomia na produção da vacina por meio da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). O imunizante ainda precisaria passar pela fase 3 dos testes no Brasil.
A compra das vacinas foi dividida em duas fases. Nessa primeira instância, o Governo anunciou a compra de 30 milhões de doses da vacina mesmo sem a comprovação da eficácia. Segundo o Ministério da Saúde, a compra necessitava ser feita pela urgência e para acelerar a retomada do crescimento econômico do Brasil. Segundo o acordo, o país receberia as 30 milhões de doses até janeiro de 2021.
Na segunda instância, após a comprovação da eficácia e segurança da vacina pela Anvisa, o Ministério da Saúde compraria outras 70 milhões de doses da vacina para a população brasileira, disponibilizando-a para todo o país.
Ampliando a disputa entre Governo de São Paulo e Governo Federal, Doria assina contrato com a Sinovac
No dia 30 de setembro de 2020, o governo de São Paulo tomava as principais manchetes nacionais. O governador João Dória assinou um contrato com o laboratório chinês Sinovac para a compra de 46 milhões de doses da vacina Coronavac.
Nessa época, a vacina ainda precisava passar pela fase 3 dos testes, a última antes de ter sua eficácia e segurança comprovadas.
Durante coletiva de imprensa realizada no dia da assinatura do contrato entre o Governo de São Paulo e a Sinovac, Dória ressaltou quais seriam os primeiros passos da campanha de vacinação no estado, priorizando os profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao vírus.
Para o recebimento das 46 milhões de doses, o governador precisou desembolsar um valor de 90 milhões de dólares à empresa chinesa.
O pano de fundo da corrida pela vacina era marcada por uma disputa clara entre Bolsonaro e Doria, que trocavam farpas durante as coletivas de imprensa que participavam. A politização da vacina pelos dois políticos ficou ainda mais evidente após a assinatura do contrato entre o Governo de São Paulo e a empresa Sinovac.
Doria cobra verba de Bolsonaro para ampliar vacinação com a Coronavac
Com a expectativa de vacinar não somente São Paulo, mas sim “milhões de brasileiros”, Doria pressionava o Ministério da Saúde com um plano de vacinação mais sólido. Apesar de anunciar a compra das 46 milhões de doses da Coronavac para o estado de São Paulo, o governador cobrou do Ministério da Saúde mais verba para a compra das vacinas.
Segundo Doria, ele não tinha o objetivo de politizar a vacina, mas que a falta de resposta do Governo Federal quanto à solicitação feita, teria causado um mal-estar.
O Ministério da Saúde, em nota, afirmou que estava avaliando todas as possibilidades e que a vacina que ficar pronta primeiro, seguindo os preceitos da Anvisa, seria uma opção para aquisição.
Posteriormente, Doria ressaltou que, mesmo sem a ajuda do Governo Federal, que teria condições de vacinar todos os brasileiros de São Paulo.
Bolsonaro afirma que vacina não será obrigatória
Em meio aos apoiadores, Bolsonaro afirmou no dia 19 de outubro de 2020, que a vacinação não será obrigatória no Brasil. “Vacina não será obrigatória e ponto final”, enfatizou.
A declaração foi feita após o presidente criticar o governador Doria por defender a obrigatoriedade do imunizante: “O Programa Nacional da Vacinação, incluindo as vacinas obrigatórias, é de 1975. A lei atual incluiu a questão da pandemia. Mas a lei é bem clara e quem define isso é o Ministério da Saúde. O meu ministro da Saúde [Eduardo Pazuello] já disse, claramente, que não será obrigatório esta vacina e ponto final”, disse Bolsonaro.
Pazuello e o vai e vem do Ministério da Saúde com a Coronavac
Após pressão exercida por Doria e outros governadores da federação, o Ministério da Saúde anunciou a compra das 46 milhões de doses da Coronavac. Entretanto, a decisão pareceu não ter sido aprovada pelo presidente Jair Bolsonaro que logo depois pediu que a compra fosse cancelada.
O Ministro Pazuello, após reunião com governadores no dia 20 de outubro de 2020, firmou acordo com a Sinovac pelas 46 milhões de doses, no valor de 90 milhões de dólares. A previsão era que, após a assinatura do contrato, a Sinovac enviaria 6 milhões de doses já prontas e as outras 40 milhões seriam produzidas em São Paulo pelo Instituto Butantan.
Pazuello ainda afirmou, na ocasião, que assim que a Coronavac fosse aprovada pela Anvisa, ela seria distribuída por meio da PNI (Programa Nacional de Imunização) para todos os brasileiros.
Porém, passado um dia após a conclusão do acordo, Bolsonaro, através de um comentário via rede social a uma seguidora, afirmou que “não compraria a vacina da China”, vetando a ação realizada pelo Ministério da Saúde.
Apesar de ter causado um mal-estar nos bastidores do Governo Federal, Bolsonaro e Pazuello gravaram um vídeo no dia seguinte, em clima descontraído, em que o Ministro da Saúde disse que a situação era “simples assim: um manda e o outro obedece”.
Bolsonaro comprova a disputa entre o Governo de São Paulo e o Governo Federal, após comemorar suspensão de testes da Coronavac
“Mais uma que Bolsonaro ganha”. Esse foi o comentário feito pelo presidente após a Anvisa suspender temporariamente os testes da Coronavac depois da morte de um dos voluntários. O óbito nada teve a ver com o imunizante, mas Jair Bolsonaro encarou o ocorrido como uma vitória do Governo Federal.
Ao se pronunciar sobre a suspensão dos testes, o presidente fez questão de cittar Doria: “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória”, disse.
Logo após a comprovação da morte do voluntário não ter relação com a vacina, a Anvisa manteve a conclusão das análises dos testes.
Doria anuncia plano de vacinação para São Paulo
O governador de São Paulo anunciou no dia 7 de dezembro de 2020, o plano de vacinação do estado.
Segundo Doria, a vacinação com a Coronavac teria início no dia 25 de janeiro de 2021 e daria prioridade aos profissionais de saúde, indígenas e quilombolas de todo o estado.
Governo Federal muda o tom e diz que comprará Coronavac “se tiver demanda”
Após pressão contínua do governador Doria que manteve suas indagações quanto ao Ministério da Saúde realizar a compra da Coronavac, o Ministro Pazuello afirmou em uma reunião com os governadores, que compraria a Coronavac caso houvesse demanda e preço.
“O Butantan, quando concluir o seu trabalho e tiver sua vacina registrada, nós avaliaremos a demanda e, se houver demanda e houver preço, nós vamos comprar”, respondeu Pazuello.
Instituto Butantan afirma eficácia e segurança da Coronavac
Com muita comemoração, o Instituto Butantan constatou, após os testes e análises feitas no Brasil, que a vacina Coronavac é segura e eficaz contra a Covid-19.
Em suma, os estudos mostraram que caso você tenha sido vacinado com a Coronavac:
- você tem 50,38% de chances de não se contaminar com a Covid-19;
- caso tenha se contaminado, você tem 78% de chances de não manifestar sintomas;
- se tiver causado sintomas, você tem 100% de chances de não evoluir para um caso mais grave.
“Dia D, hora H”
Após a comprovação da eficácia da vacina Coronavac pelo Instituto Butantan, o Ministro Pazuello deu uma declaração à imprensa no dia 11 de janeiro deste ano, afirmando que o início da vacinação no Brasil começaria no “dia D e na hora H”.
“Todos os estados receberão simultaneamente as vacinas, no mesmo dia. A vacina vai começar no dia D, na hora H, no Brasil. No primeiro dia que a autorização for feita, a partir do terceiro ou quarto dia estará nos estados e municípios para iniciar a vacinação. A prioridade já está dada, é o Brasil todo”, afirmou o Ministro.
Durante a declaração dada em Manaus, que passa por um colapso da saúde pública por conta da Covid-19, Pazuello já considerava a distribuição da vacina Coronavac dentro do Programa Nacional de Imunização.
Após solicitação para uso emergencial da Coronavac e AstraZeneca, Anvisa aprova as vacinas e São Paulo é o primeiro estado a vacinar
E, finalmente, após uma longa jornada, no dia 17 de janeiro de 2021, a Anvisa transmitiu ao vivo a votação que aprovou, por unanimidade, as vacinas Coronavac e AstraZeneca (ou vacina de Oxford) para uso emergencial, iniciando assim, a imunização no Brasil.
Os primeiros grupos a serem vacinados são os profissionais de saúde e a comunidade indígena, avançando posteriormente, para os mais idosos. Preferencialmente, as vacinas serão distribuídas para uso do SUS.
Com a aprovação da Anvisa, o Brasil já poderia iniciar a vacinação e João Doria levou isso ao pé da letra, vacinando, logo após o parecer positivo da Anvisa, a enfermeira Mônica Calazans, colocando São Paulo como o primeiro estado a vacinar no Brasil.
Em meio a críticas e elogios, Doria saiu na frente do Ministério da Saúde e iniciou a vacinação antes mesmo de Pazuello enviar as doses programadas dos imunizantes para os outros estados do Brasil.
Especialistas do meio político afirmam que a iniciativa do governador de São Paulo em buscar a vacina para o estado, o colocou em projeção para um forte candidato à presidência em 2022, concorrendo inclusive, com Jair Bolsonaro que já afirmou que tentará a reeleição.
Entretanto, para quem acha que a “briga” entre Doria e Bolsonaro acabou com o início da vacinação no Brasil, se engana. Pessoas próximas ao presidente, nos bastidores do Palácio do Planalto, confirmaram que Bolsonaro dará o troco no governador de São Paulo.
