Witzel joga o jogo político e sai da CPI deixando um mistério para os próximos capítulos

Ex-governador impeachmado do Rio é também ex-aliado de Bolsonaro e fez o que pôde para provocar o presidente durante seu curto depoimento na CPI da Covid

Se você já assistiu House of Cards na Netflix, com certeza você deve ter pensado: “Meu Deus, como essas alianças políticas podem ser feitas dessa forma?”, afinal de contas, a política mexe diretamente com nossas vidas enquanto população. Mas se tivermos um pouco de análise crítica, conseguimos comparar qualquer roteiro de série política com a política brasileira e a CPI da Covid demonstra isso em todos os depoimentos.

Durante a CPI, já tivemos depoente falando sobre um suporto “pênis” na portaria da Fiocruz, já tivemos senador colocando uma atriz pornô como empresária que financiou estudos sobre a eficácia da cloroquina e dentre tantas outras pérolas que parecem ter sido inspiradas para algum roteiro de série política.

Entretanto, a CPI é realidade e temos que lidar com ela, parecendo uma série da Netflix ou não. E por isso, vamos falar sobre o que aconteceu ontem, no depoimento do ex-governador impeachmado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. O depoimento de Witzel é fruto de uma das estratégias dos senadores governistas para tentar desviar o foco da CPI no governo federal e colocar nos governadores, com o objetivo de provar que Bolsonaro fez tudo o que podia para barrar a pandemia e que os governadores são os verdadeiros culpados.

Mas, Witzel se convidou a ir à CPI, dizendo que tinha informações importantes contra o governo Bolsonaro e que iria ajudar na investigação proposta pela Comissão. Entretanto, na hora que foi convocado, pediu um habeas corpus ao Supremo Tribunal Federal (STF) para não ser obrigado a comparecer na CPI e ter o direito garantido de ficar calado e não produzir provas contra ele próprio, já que o ex-governador é investigado pela justiça por desvios de recursos da saúde pública do Rio, motivo pelo qual ele sofreu o impeachment.

Mesmo tendo o direito de não comparecer, Witzel foi à CPI dar seu depoimento, prometendo muitas informações contra o presidente da república.

Mas por que Witzel queria tanto derrubar Bolsonaro?

É fácil recordar que Witzel e Bolsonaro eram aliados políticos, inclusive os dois são muito parecidos no conceitos que têm em relação à segurança pública. Mas como essa aliança se transformou no que se viu na CPI?

De acordo com Witzel, a relação começou a esfriar depois que o ex-governador mandou investigar com mais afinco a morte de Marielle Franco. Por conta dessa investigação, o policial Ronnie Lessa, quem efetuou os tiros conta a vereadora e seu motorista, foi preso e isso irritou Bolsonaro, já que ele e Lessa eram vizinhos, pois moravam no mesmo condomínio e eram próximos.

Entretanto, a relação foi por água baixo durante a pandemia, já que Witzel tentava seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate ao vírus e Bolsonaro sempre foi no completo contrário. Como em uma república federativa é necessário que presidente e governadores estejam com um diálogo consolidado, claramente isso não aconteceu no Brasil e Bolsonaro rompeu com todos os governadores que não concordava com ele.

Quando Witzel foi afastado no governo, a família Bolsonaro comemorou e isso ajudou a piorar a situação entre os dois. E a que parece, Witzel foi à CPI com o sentimento de que se ele caiu, ele iria fazer Bolsonaro cair também.

O que Witzel disse na CPI que pode comprometer Bolsonaro?

Desde o início de seu depoimento, Witzel tentou se defender das acusações que foram feitas e que comprometeram sua estadia no governo do Rio. No início de sua fala, o ex-governador fez de tudo para dar sua versão dos fatos de forma mais ampla e aproveitou para colocar a responsabilidade da tragédia da pandemia no Brasil, no governo federal.

Segundo ele, Bolsonaro boicotou as medidas de isolamento nos estados e recusou o emprego dos hospitais federais no Rio para pacientes com covid-19, afirmando que o presidente criou uma narrativa contra os governadores que seguiam os passos científicos contra a pandemia.

De acordo com o UOL, no auge da pandemia no Rio de Janeiro, 1.243 dos 2.803 leitos federais existentes em unidades estavam fechados por falta de pessoal, insumos, equipamentos ou obras.

O ex-governador disse que havia uma “máfia da saúde” e que tentou derrubá-la enquanto ele estava no comando do estado e que isso foi um dos motivos pelo qual houve um “conluio” para haver o golpe que ele diz ter sofrido. Witzel afirmou que essa “máfia” atua juntamente com milícia do Rio.

Inclusive, para basear sua fala, ele relembrou uma suposta ação de milicianos no Hospital Federal de Bonsucesso, o maior do Rio, denunciada pelo ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebbiano em 2019.

Durante o depoimento, o ex-governador sugeriu à CPI que solicitasse a quebra de sigilo que Organizações Sociais do Rio e de empresas contratadas e ex-superintendentes responsáveis pelas unidades de saúde no Rio para descobrir quem é o verdadeiro “dono” dos hospitais federais do estado. O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente,  nomeou vários funcionários para as unidades.

Witzel afirmou que iria contar mais detalhes do que sabe aos senadores, mas em uma “reunião secreta”, sem ir à público, já que ele teme pela sua segurança e a segurança de sua família. O senador e vice-presidente da CPI Randolffe Rodrigues (Rede-AP) solicitou a aprovação dessa “reunião secreta” para que o ex-governador entregue o que prometeu à Comissão.

Fez o que se propôs a fazer e jogou o jogo político

Witzel saiu do depoimento quando os senadores governistas passaram a fazer as perguntas, indagando sobre seu impeachment e a investigação a qual estava submetido. Enquanto o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) fazia os questionamentos, o ex-governador comunicou ao presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM) que iria se retirar.

Antes de ir, ele afirmou que espera contribuir ainda mais com a Comissão, entregando mais do que sabe. Dessa forma, o saldo para Witzel foi positivo: jogou parte das informações, provocou o governo Bolsonaro, fez um mistério para os próximos capítulos e quando seria perguntado mais diretamente sobre os supostos crimes que praticou enquanto era governador do Rio, comunicou sua saída, se levantou e foi embora.

Witzel sabe que jogou bem o jogo político e que Bolsonaro o teme.

Agora é aguardar os próximos episódios dessa série chamada política brasileira.

Ricardo Almeida
Bem-vindo! Sou Ricardo, e neste espaço, minha paixão por futebol, o universo do esporte e as nuances da política se transformam em análises e discussões. Venha falar comigo os temas que moldam o Brasil.
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