Pária internacional: Brasil de Bolsonaro está isolado no mundo
Qual país podemos, hoje, afirmar que é parceiro do Brasil?

Bolsonaro iniciou os trabalhos da política externa do seu governo de uma forma satisfatória para seus preceitos. Pouco tempo após ser eleito, em outubro de 2018, o presidente recebeu uma ligação de Donald Trump, até então, presidente dos Estados Unidos, em que os dois combinavam uma longa amizade durante os mandatos e que Brasil e EUA seriam parceiros internacionais.
Para Bolsonaro, aquilo já significava sua primeira vitória: ter uma parceria com os EUA é bom, mas ter proximidade com o Trump era tudo o que ele queria. Bolsonaro era considerado o Trump do Brasil, compartilhando desse trumpismo, leia-se, conservadorismo exacerbado e distorcido, por toda a América. Para os eleitores do presidente brasileiro, isso significava um novo Brasil, o Brasil que Bolsonaro tinha prometido nas campanhas, aquele Brasil família, conservador, longe de corrupção e com uma política de segurança pública que aniquilaria os bandidos do país.
A política externa de Bolsonaro, comandada pelo ex-ministro Ernesto Araújo, tinha como objetivo prezar por relações bilaterais, ou seja, país com país, sem entrar em blocos econômicos. O Brasil do PT era o contrário, prezava por relações multilaterais, para ter mais parceiros comerciais no mundo todo, especialmente entrando em blocos de países em desenvolvimento, que geralmente, têm benefícios e apoio durante as negociações com nações mais ricas.
Bolsonaro e Ernesto não queriam mostrar o Brasil como um país em desenvolvimento e sim um Brasil que ditava as negociações. Uma parceria forte com os EUA poderia dar subsídio a isso, mas aí foi o erro dos dois: a parceria não foi com os EUA, a parceria foi com o Trump. Uma dica ao atual Itamaraty, é que países não passam, presidentes sim.
Ainda durante essa relação, o Brasil mais deu do que recebeu. A esperança de muitos eleitores do presidente era que essa proximidade entre Trump e Bolsonaro resultaria em uma flexibilização da entrada de brasileiros nos EUA. Mas o contrário aconteceu: Bolsonaro flexibilizou a entrada de norte-americanos no Brasil e Trump reforçou a dificuldade. Além disso, as promessas que Trump fez a Bolsonaro, tais como entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) e ser uma parceiro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), nenhuma foi cumprida.
Até porque já não havia tempo para Bolsonaro provar a Trump de que seria uma boa investir no Brasil. Mesmo cantando vitória antes da hora, Joe Biden levou a presidência dos Estados Unidos, com uma política totalmente diferente do que Trump exercia no seu mandato. Bolsonaro se recusou a parabenizar o novo presidente. Se tínhamos algum resquício de boa relação com os EUA, ela acabou no final do ano passado.
Mas nem só de Trump vivia Bolsonaro. Ele também investiu pesado na relação com Benjamin Netanyahu, o então premiê de Israel. Mas, mais uma vez, ele investiu na relação pessoal e não na relação entre Brasil e Israel.
Netanyahu parecia ser mais aberto que Trump em relação ao Brasil. Inclusive, na tragédia da Vale em Brumadinho, o então primeiro ministro havia enviado soldados israelenses em missão com equipamentos que poderiam ajudar na busca por corpos na lama.
O intuito da parceria entre os dois chefes de governo, segundo o Itamaraty, era ambos iriam compartilhar de novas tecnologias que pudessem fazer os países evoluírem em várias áreas diferentes.
Ainda não se vê grandes mudanças no Brasil que se referem à essas novas tecnologias, na verdade, não há conhecimento se elas chegaram a vir para o país. Nem mesmo uma viagem que custou 500.000 aos cofres públicos brasileiros foi o bastante para fechar um negócio concreto de Israel para o Brasil.
Nessa viagem, que agora é investigada pela CPI da Covid, Bolsonaro, Ernesto Araújo, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e outros membros do governo foram ao país para negociar a compra de um spray nasal que estaria sendo estudado como um medicamento eficaz contra a covid-19. O spray ainda não foi comprovado cientificamente como algo eficaz contra o vírus e não houve nenhuma negociação entre Brasil e Israel. É importante frisar que Israel é um dos líderes em vacinação completa contra a covid no mundo, mas Bolsonaro queria saber de spray nasal.
Mas ainda assim, com spray nasal ou não, a parceria entre Bolsonaro e Netanyahu acabou mais cedo, já que o parlamento israelense escolheu o nacionalista de direita Naftali Bennett para o posto de primeiro-ministro do país, por uma margem mínima, de apenas um voto.
A saída de Benjamin Netanyahu como chefe de governo de Israel é mais um passo longe da aproximação do Brasil com o mundo. Como a política externa de Ernesto Araújo era a de fomentar o bilateralismo em detrimento do multilateralismo, o Brasil não tem uma relação muito próxima com os países dos quais faz parte. Além disso, pelas polêmicas as quais Bolsonaro se envolve, ainda mais com sua atuação frente à pandemia, países europeus preferem não se misturar com o Brasil.
Bolsonaro e Netanyahu se tratavam como irmãos e essa proximidade é perigosa nesse exato contexto: um novo premiê, com uma política diferente do aliado de Bolsonaro, entra para comandar o país. Naftali Bennett não deve manter a mesma relação de “irmandade” com Bolsonaro, que apoiava seu opositor. Como o Brasil não fez relação de estado com Israel e sim a relação que houve foi entre Bolsonaro e Netanyahu, então não há mais uma “ilusão” de que Israel é um parceiro do Brasil.
A história se fez com Trump e se repetiu com Netanyahu, os dois “parceiros” que davam uma respaldo internacional ao Brasil. O mais curioso é que no ano passado, em uma formatura para novos diplomatas, o então Ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo disse que se essa atuação diplomática do Brasil “faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”. Ernesto Araújo não é ministro mais, mas suas palavras se profetizaram e ficaram marcadas na história e também, no presente.
