Ódio e sombra: os gabinetes que compõem o status quo Bolsonaro
Gabinete do ódio e gabinete paralelo ou das sombras cumprem com funções estratégicas dentro do jogo político que o presidente exerce na atuação da pandemia no Brasil

Muito se ouve na CPI da Covid sobre os “gabinetes” que compõem o governo Bolsonaro. Entretanto, apesar de gabinetes serem comuns na política e na administração pública, os que estão ligados ao presidente são tipos diferentes de gabinetes, que possuem outros objetivos dentro do jogo político.
Mas antes, vamos ao conceito de gabinete. Segundo o site Politize!, gabinete é o espaço físico onde ele exerce suas funções e também, um conjunto de auxiliares, assistentes e assessores imediatos de um político.
Esse grupo de assessores é essencial para o trabalho do presidente, já que ele é informado e faz suas estratégias políticas, também, por meio deste gabinete. Mas, no caso de Bolsonaro, os gabinetes que se destacam são investigados por órgãos do legislativo e também por outros órgãos investigativos, como o Ministério Público e a Polícia Federal.
Estamos falando aqui do Gabinete do Ódio e do Gabinete Paralelo (das sombras).
Gabinete do Ódio
O Gabinete do Ódio existe, na verdade, desde antes de Bolsonaro ser Presidente da República. Isso acontece porque a campanha presidencial de Bolsonaro aconteceu inteiramente nas redes sociais por meio de posts que tinham uma “roupagem” de notícias verdadeiras e essas informações eram compartilhadas por muitas páginas dentro do Facebook e depois enviadas para grandes grupos de WhatsApp.
Tenho certeza que você já viu no Facebook, por exemplo, diversas páginas que se dizem de direita compartilhando posts de defesa à Bolsonaro e esse mesmo post era compartilhado em muitas outras páginas que tinha o mesmo cunho político. Bom, foi assim que a campanha de Bolsonaro foi feita.
Um exemplo claro: a famosa “mamadeira de piroca”, que foi difundida como notícia verdadeira pelas redes sociais e usada por Bolsonaro na época da campanha, foi um dos posts feitos pelo Gabinete do Ódio. Esse Gabinete, controlado principalmente pelo filho 02 do presidente, o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, criava esse tipo de post, muitas vezes com notícias falsas, e enviava a essas variadas páginas de “direita” para engajar no compartilhamento em massa. A premissa é clara: uma mentira contada várias vezes, acaba se tornando verdade.
Mesmo após eleito, Bolsonaro não se desfez do Gabinete do Ódio. Os posts em defesa do presidente continuaram sendo compartilhados em massa nas redes sociais, principalmente em casos em que Bolsonaro estava envolvido em polêmicas.
Entretanto, o cerco acabou se fechando para a famosa “rede bolsonarista” no Facebook pelas postagens realizadas com informações falsas. No ano passado, o Facebook derrubou uma rede de 73 contas, 14 páginas e um grupo na rede social e no Instagram de funcionários de gabinete do presidente, do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), além de outros membros relacionados com o PSL, partido o qual o presidente se elegeu.
Outras contas e páginas foram criadas para movimentar as redes e o Gabinete do Ódio continua existindo. Entretanto, aos trancos e barrancos, por conta das investigações que são acarretadas ao “órgão”. Uma delas, é a CPMI das Fake News, que investiga “os ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público; a utilização de perfis falsos para influenciar os resultados das eleições 2018; a prática de cyberbullying sobre os usuários mais vulneráveis da rede de computadores, bem como sobre agentes públicos”, de acordo com o site do Senado.
A CPMI das Fake News tem como alvo o Gabinete do Ódio que, supostamente, seria o autor da disseminação de notícias falsas e posts ofensivos contra quem se posiciona à oposição do presidente da república. Inclusive, uma notícia que tem ganhado destaque na imprensa, é referente à tentativa de investigação da Polícia Federal em relação à tentativa de obstrução da CPMI das Fake News. Os principais investigados pela PF são os sócios do portal Terça Livre – Allan dos Santos, Bruno Ayres e João Bernardo Barbosa – além da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), depois da PF ter acesso à mensagens trocadas entre eles, articulando contra as ações da CPMI, tentando barrar convocações para depoimentos. A Polícia Federal enviou um documento para o Supremo Tribunal Federal (STF) sugerindo a abertura dessa investigação.
Gabinete paralelo
O Gabinete paralelo ou Gabinete das sombras foi descoberto pela CPI da Covid. A função primordial desse gabinete é a de aconselhar o presidente Bolsonaro quanto às ações referentes à pandemia no Brasil, como uma espécie de Ministério da Saúde paralelo.
Quem citou primeiramente a existência do gabinete paralelo, foi o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que afirmou que Bolsonaro tinha um aconselhamento paralelo, dizendo respeito à produção de cloroquina. Segundo Mandetta, era como se o Ministério da Saúde se dividisse em dois: um que ouve a ciência e outro negacionista. Justamente por não ir de acordo com os preceitos próprios de Bolsonaro e do gabinete paralelo, que Mandetta saiu do governo.
Depois dessa fala de Mandetta, a CPI continuou investigando a existência desse gabinete paralelo, tendo a versão do ex-ministro corroborada por outros depoentes, além de materiais que chegavam aos senadores do chamado G7, que é o grupo majoritário da comissão, formado por senadores de oposição e independentes ao governo Bolsonaro.
Nos relatos, há falas que apontam que os filhos do presidente Bolsonaro são integrantes desse gabinete paralelo, além de outros médicos e políticos que defendem o tratamento precoce contra a covid-19. Inclusive, a tentativa de mudança de bula da cloroquina solicitada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foi uma ideia do suposto gabinete paralelo. Segundo o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, a médica Nise Yamaguchi foi quem sugeriu a mudança, mas a doutora negou em seu depoimento na CPI.
Mas, uma reportagem do site Metrópoles, está auxiliando na comprovação da existência do gabinete paralelo, repostando um vídeo das próprias redes sociais de Bolsonaro, de uma reunião realizada no Palácio do Planalto em setembro de 2020, junto com médicos que defendem o tratamento precoce e ao lado do presidente, estava o deputado Osmar Terra (MDB-RS), ao invés do ex-ministro Eduardo Pazuello, que era líder da pasta da Saúde na época.
Durante a gravação, o virologista Paolo Zanotto citou que era necessária a criação de um ‘shadow cabinet’ (gabinete das sombras, em tradução literal), para que Bolsonaro tivesse um aconselhamento fora do Ministério da Saúde, que o orientasse quanto ao uso de medicamentos, como a hidroxicloroquina, que não tem comprovação científica de sua eficácia. Zanotto ainda completou: “esses indivíduos não precisam ser expostos, digamos assim, à popularidade”, afirmando que deveria ser um aconselhamento escondido do conhecimento da opinião pública.
A junção dos dois gabinetes
O que se tenta investigar agora, em várias instâncias do legislativo e do judiciário, é a junção dos dois gabinetes de Bolsonaro: o do ódio e o paralelo. Isso porque cada um teria uma função nessa pandemia.
O gabinete paralelo, sendo esse segundo Ministério da Saúde, aconselharia e formularia estratégias para que o tratamento precoce fosse difundido no Brasil. Mas, para conseguir convencer a população de algo que o próprio Ministério da Saúde oficial é contra, além da Organização Mundial de Saúde (OMS) e tantas outras instituições médicas, era preciso que entrasse o gabinete do ódio com seu poder de persuasão.
A premissa continua a mesma: conte uma mentira, até que ela seja verdade. Também tenho certeza que você já viu vários vídeos de pessoas que afirmam que pegaram covid e se curaram após o médico ministrar doses de hidroxicloroquina ou ivermectina, azitromicina e outros tratamentos. Esses vídeos e outros posts têm origem no gabinete do ódio, que se utiliza das contas e páginas bolsonaristas para que esses conteúdos tenham engajamento e sejam compartilhados em massa, com o objetivo de fazer com que a população se volte contra quem não recomenda o tratamento precoce.
Logo, os dois gabinetes têm funções específicas, mas complementares na política que Bolsonaro propõe para a pandemia no Brasil, que se torna cada vez mais clara: usar a população de cobaia para uma “imunidade de rebanho”, incitando e influenciando a aglomeração e aplicar, assim, os medicamentos que fazem parte desse tratamento precoce. Mas a pergunta que não se cala é: a quem interessa ($$$) a aplicação desse tratamento precoce que não tem comprovação científica?
