Seleção brasileira ensaia rara jogada no campo da política da Copa América

A suposta resistência dos jogadores da seleção brasileira em disputar a Copa América expõe o raro cruzamento entre futebol e política em meio às críticas à realização do torneio durante a pandemia.
De volta às eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022 após uma intertemporada de sete meses provocada pela pandemia da covid-19, a seleção brasileira enfrenta o Equador nesta sexta-feira (4), às 21h30, no Beira-Rio, em Porto Alegre (RS), sem exibir sua nova jogada, rara de se ver no futebol.
A previsão é que a novidade seja exposta e discutida pelos próprios jogadores, a comissão técnica e até pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) após o encerramento da rodada dupla das eliminatórias – o segundo jogo é contra o Paraguai, na terça (8), em Assunção.
O novo posicionamento tático, no entanto, é fora das quatro linhas. Os jogadores teriam manifestado posicionamento contrário à participação e até à realização da Copa América no Brasil ao próprio presidente da CBF, Rogério Caboclo.
Apurada pelo Globo Esporte.com, a informação repercutiu na imprensa esportiva. Nem jogadores, tampouco a CBF comentaram o assunto. Único porta-voz da seleção, o técnico Tite prometeu manifestar-se após o jogo no Paraguai.
TABELINHA POLÍTICA
A suposta recusa dos jogadores da seleção à disputa da Copa América é interpretado nos corredores da CBF como um posicionamento político do elenco em decorrência do contexto da realização da competição no país.
Transferida da dupla sede na Colômbia e na Argentina por conta do endurecimento das regras sanitárias para conter o avanço da pandemia, a Copa América acabou aceita no Brasil, apesar da iminência de uma 3ª onda no país.
Anunciada pelo próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), realização da competição recebeu apoio mas também forte oposição política e ainda de parte da imprensa e, caso se confirme, da própria seleção.
ALÉM DAS QUATRO LINHAS
Jogadores de futebol raramente manifestam opiniões alheias ao próprio meio. Ainda mais sobre política. Mesmo no emblemático episódio da Democracia Corintiana, no início dos anos 1980, nem todos os jogadores do elenco alvinegro participaram.
Um dos principais representantes daquele movimento, o ex-jogador e comentarista da TV Globo, Casagrande, é uma notória voz da esquerda. Ainda nos gramados, Felipe Mello, do Palmeiras e Dagoberto, do Londrina, estão os que se declararam bolsonaristas.
Em sua maioria, jogadores, clubes e as entidades do futebol têm procurado se manifestar, além das quatro linhas, apenas em demandas sociais como o combate ao racismo – há campanha oficial na Fifa – e os preconceitos de gênero.
FUTEBOL E POLÍTICA
Apesar da discrição – ou indiferença, para muitos – no trato dado pelo futebol à política nas redes sociais, não é de hoje que ambos os assuntos, considerados entre os ‘não discutíveis’, sejam tão interligados.
Basta um breve exame na história recente da política brasileira para se conferir notáveis tabelinhas entre políticos e cartolas. A mais notória foi a instrumentalização da seleção tricampeã mundial em 1970 como propaganda da ditadura militar.
A cena se repetiu nas conquistas do tetra, em 94, com Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e do penta, em 2022, com Luís Inácio Lula da Silva (PT) e com o próprio Bolsonaro, na conquista da última Copa América, no Brasil, em 2019.
REAÇÃO DOS TORCEDORES E DE OUTROS ATLETAS
A possível recusa dos jogadores da seleção em disputar a Copa América dividiu opiniões entre os torcedores. Parte do público defendeu a postura do elenco como um gesto de responsabilidade sanitária, em um momento de alta na curva de contágios e de lentidão na vacinação. Outra parcela, no entanto, criticou a manifestação, argumentando que o futebol deveria permanecer distante de discussões políticas.
Atletas de outras modalidades também se posicionaram nas redes sociais, cobrando mais transparência sobre os protocolos sanitários da competição. Federações esportivas de outros países da América do Sul, inclusive, chegaram a questionar a rapidez com que o torneio foi realocado para o Brasil sem uma consulta mais ampla aos próprios competidores.
O IMPACTO DA TRANSMISSÃO E DOS PATROCÍNIOS
Emissoras de TV e patrocinadores já haviam fechado contratos para a cobertura da Copa América antes da mudança de sede, o que também pesou na decisão final de manter a competição, mesmo com a resistência de parte do elenco. A pressão comercial se somou à política, tornando ainda mais delicada a posição da CBF diante da entidade continental e dos próprios jogadores.
Diante desse cenário, a expectativa é que o assunto volte a ser discutido publicamente somente depois do encerramento da rodada dupla das eliminatórias, quando o técnico Tite prometeu se posicionar sobre a participação da seleção no torneio continental.
‘COPA DA VACINA’
Instalada em abril no Senado para investigar a atuação do Governo Federal no enfrentamento à covid-19 no país, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) também criticou, em sua maioria, a realização da Copa América no Brasil.
Do relator Renan Calheiros (MDB-AL), veio a opinião mais contundente e direcionada ao craque da seleção, Neymar Junior. “Não é esse campeonato que nós precisamos disputar. Nós precisamos disputar o da vacinação. É esse que precisamos ganhar”.
A campanha do Brasil nesta disputa ainda não é das melhores. Até esta quinta (3), apenas 22,53% da população já havia recebido a primeira dose da vacina, segundo números do consórcio de veículos de imprensa.
Já em relação ao número de mortes, o Brasil amarga uma tragédia muito maior à do 7 a 1 para a Alemanha, em 2014. Até esta quinta (3), o país há havia perdido 469 mil derrotas para a covid-19. A fúnebre marca pode chegar às 500 mil em plena Copa América, prevista para acontecer de 13 de junho a 9 de julho.
