Pão e circo: assim como Dilma, Bolsonaro investe em competições esportivas em um país colapsado

Em junho de 2013, nos recordamos de um momento crucial para a população brasileira: as manifestações que assolaram as ruas de norte a sul do Brasil. No meio de tantas pautas, cada região gritava aos montes as demandas que solicitavam, e eram muitas. Mas no meio delas, havia uma que era como um grito de guerra que ecoava em comum em todas as cidades manifestantes: “Não vai ter copa!”

No mesmo, acontecia no Brasil a Copa das Confederações, que iria anteceder a Copa do Mundo no Brasil. Com todas as suspeitas de contratos superfaturados para desviar dinheiro dos astronômicos estádios “padrão Fifa”, enquanto faltava estrutura para hospitais e escolas, os brasileiros saíram às ruas para manifestar contra o acontecimento que seria a Copa do Mundo no país do futebol. 

No mundo de críticas que o governo PT já sofria com as manifestações e sendo estas a “origem” do antipetismo que elegeu Bolsonaro, Dilma tinha que lidar com as vaias dentro e fora dos estádios, mesmo a Copa ter sido utilizada como uma estratégia utilizada pelo partido para tentar aumentar sua aprovação e popularidade.

O Brasil realmente é o país do futebol e ter uma copa, seja ela qual for, aqui, é uma felicidade para muitos brasileiros. Mas é preciso arrumar a casa antes. Na época da Copa do Mundo, em 2014, sem uma pandemia nos assolando, já era difícil aceitar um evento internacional dessa magnitude, já que o gasto para deixar o Brasil no “padrão Fifa” é alto, sendo que esse dinheiro poderia ser investido em amenizar as mazelas que acompanham a população brasileira há tanto tempo, como transporte, educação, saúde, infraestrutura. Esse recurso, se tivesse sido investido no SUS, poderia nos fazer ter mais condições para salvar vidas na pandemia que enfrentamos hoje, ainda mais no contexto em que muitos estádios que foram construídos para a Copa não são nem utilizados para campeonatos nacionais hoje em dia. 

E mesmo com o suposto “aprendizado”, o Brasil de Bolsonaro reescreve sua história com os mesmos fatos, aceitando prontamente um pedido da Conmebol para que o país seja a nova sede da Copa América, já que Colômbia e Argentina desistiram de sediar. Os argumentos dos países desistentes é que, no primeiro, há uma crise humanitária, além da covid. Já os argentinos disseram que com o avanço da doença no país, se faz impossível receber esse evento lá. A Colômbia tem, até o fechamento deste artigo, 88.774 óbitos pelo vírus. A Argentina, 78 093. O Brasil se aproxima cada vez mais do marcante número de 500.000 óbitos pela covid-19. 

A partir daí, duas perguntas devem ser feitas: por que a Conmebol  acha que o Brasil, com novas cepas circulando pelo país todo, em um risco iminente de ter uma terceira onda, poderá receber um evento internacional? E por que o governo Brasileiro aceitou? 

Sobre a Conmebol

Uma máxima do jornalismo investigativo é a frase: siga o dinheiro. Sempre que se deseja entender as motivações de determinada pessoa ou instituição, basta seguir o dinheiro. Para a Conmebol, não interessa se o Brasil tem novas cepas, uma terceira onda da covid por vir, se há algum protocolo assertivo de barreiras sanitárias e se os hospitais têm alguma infraestrutura para receber pessoas de outros países. O que importa para a Conmebol é não perder US$ 122 milhões (R$ 637 milhões) em gastos com a competição.

Além disso, para compensar o alto gasto, a Conmebol ainda tenta ter, ao menos, uma final com público. Com a venda dos ingressos, a instituição poderia arrecadar algum recurso, mas é importante lembrar que eventos com público aglomerado estão proibidos no Brasil. 

Entretanto, é ainda mais rentável para a Conmebol transferir o evento para o Brasil, já que aqui tem-se um presidente que nega a pandemia e é contra o discurso do “fique em casa”, como forma de colocar a economia contra a saúde. O Brasil também tem estádios que foram construídos para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas, com uma estrutura essencial para competições internacionais. Mas um evento como esse não se faz apenas com estádios. Não importa muito se o entorno não há estrutura, mas apenas estádios.

Em um país em que o presidente provoca aglomerações, é óbvio que sua população vai se inspirar no líder do executivo federal e também aglomerar. Num momento de Copa América, ainda mais sendo disputada aqui no Brasil, as pessoas não vão ficar quietas em casa sem se aglomerar para ver os jogos. E são essas pessoas que a Conmebol deveria se preocupar, já que jogadores e todas as comissões técnicas de todos os países participantes têm estrutura financeira e sanitária o bastante para se protegerem. A população não.

Sobre o governo Bolsonaro

A política do pão e circo é bem comum: você alimenta e dá diversão à população, que ela ficará, eu diria, adestrada. Bolsonaro não está preocupado com o lucro que uma possível Copa América daria, mas sim com sua popularidade. Em um momento em que as manifestações contra ele crescem no país e considerando que estamos às vésperas do fatídico ano de 2022, com as eleições presidenciais, Bolsonaro precisa distrair a população. 

A Copa América aqui no Brasil poderá ser uma ótima forma de distração para uma população que está focada em uma CPI da Covid que investiga, justamente, Bolsonaro e o Governo Federal. Desfocando de tudo o que está sendo falado na CPI, da tragédia de uma terceira onda e do número de óbitos aumentando, Bolsonaro conseguirá fazer sua campanha de reeleição com uma maior paz. 

O governo já se mostra despreocupado com a terceira onda, ainda mais considerando que o Ministério da Saúde permitiu que a Copa acontecesse aqui. Com isso, o Ministério da Saúde “garante” que haverá estrutura sanitária com segurança para que um evento como esse ocorra no Brasil e que profissionais da saúde e a população em si, estará segura contra o covid. A Argentina, um país significativamente menor que o Brasil geograficamente falando, não se considera capaz de receber uma competição como essa. 

Dessa forma, é uma via de mão dupla: os benefícios vão para ambos envolvidos, tanto a Conmebol, quanto para Bolsonaro. Com a Copa América no Brasil, os objetivos serão cumpridos para qualquer um dos dois. As consequências, como 500.000 mortes no Brasil, é “apenas” um gol contra para uma plenitude de competição como a Copa América.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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