O protagonismo velado das mulheres na CPI da Covid mostra a importância feminina para o Poder Legislativo

Quando se olha para as mesas na CPI da Covid no Senado, é possível observar que em sua grande maioria há homens. Se a gente conseguir enxergar uma ou duas senadoras sentadas lá atrás, é muito. Nos cargos altos da CPI, também só vemos homens ocupando: Omar Aziz (PSD-AM), é o presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o vice, e Renan Calheiros (MDB-AL), o relator.
Em uma CPI que se intitula de CPI da Covid, é importante frisar que, no Brasil, apesar dos homens terem uma taxa de mortalidade mais alta, as mulheres são as que mais são infectadas pelo vírus, segundo pesquisa feita pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Além disso, sobre as consequências da pandemia na economia, as mulheres foram as que mais perderam empregos durante este período, de acordo com o Centro de Estudos de Economia do IREE (Instituto para Reformas das Relações entre Estado e Empresa).
A intenção aqui não é comparar em qual gênero a covid-19 mais atinge, mas sim falar de uma palavrinha da moda: representatividade. Apesar de ser “moda”, não podemos nos distrair da verdadeira discussão que essa palavra nos trás e, como essa discussão, se for bem feita, pode nos fazer avançar enquanto sociedade.
Ao olhar para as mesas na CPI e quase não enxergarmos mulheres sentadas nelas, vemos um grande problema para a democracia: como as nossas demandas estão sendo faladas, discutidas, problematizadas dentro do Poder Legislativo do nosso país? Lembrando que o Poder Legislativo é quem elabora nossas leis e fiscaliza o Poder Executivo, sendo que o Poder Executivo, seja ele federal, estadual ou municipal, é ocupado majoritariamente por homens. Presidente mulher, só tivemos uma, que ainda foi escorraçada por meio de um golpe político.
Uma das coisas que é mais curiosa dentro da CPI, é que existe uma representante da bancada feminina do Senado para representar as mulheres. É justamente por isso que vemos uma ou duas mulheres sentadas lá. Mas por que os homens não são representados dessa maneira? Por que todos os inscritos podem ir e as mulheres não? É bom questionar isso.
São por esses motivos que sempre vemos cotas sendo oferecidas para mulheres entrarem na política. Há vários projetos de lei que tentam defender uma quantidade mínima de vagas femininas dentro dos poderes, para que essa representatividade seja maior e que tenhamos uma democracia mais consolidada. No caso do Poder Legislativo, o Mapa das Mulheres na Política 2020, feito pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela União Interparlamentar (UIP), mostra que o Brasil ocupa o 140º lugar no ranking em número de mulheres no Parlamento.
Dessa forma, pela pouca representatividade das mulheres na política, dependemos dos senadores homens para criar projetos de lei que garantam essas “cotas”. A PL 763/2021, de autoria do senador Wellington Fagundes (PL-MT), tentará “estabelecer a reserva de, ao menos, trinta por cento das cadeiras de Deputado Federal, Deputado Estadual, Deputado Distrital e Vereador para as mulheres e reservar, quando da renovação de dois terços do Senado Federal, uma vaga para candidaturas femininas”, de acordo com a Agência Senado. O projeto ainda está em tramitação.
Entretanto, as mulheres sobrevivem no poder legislativo… E na CPI também
Apesar da falta de representatividade no poder legislativo e a CPI é o retrato disso, as mulheres ainda conseguem ter seu protagonismo e a Comissão Parlamentar de Inquérito está aí para provar.
Como citei acima, na CPI, as mulheres estão em menor número e há uma ou duas representantes da bancada feminina, que é liderada pela senadora Simone Tebet (MDB-MS). Tebet tem grande destaque durante a CPI, já que ela se posiciona de forma incisiva com os depoentes, trazendo fatos concretos para questioná-los.
Por sua postura, várias vezes foi interrompida por outros senadores, mas ela se mantém firme. Em uma de suas falas mais fatídicas, Simone encarou o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e disse que o general colocou a população brasileira em risco durante sua gestão frente ao Ministério.
“Estamos em uma guerra civil não declarada. O Ministério da Saúde nos deixou em campo aberto, sem armas, porque não temos vacina. Com isso, vestimos uma camiseta com um alvo no peito ou no pulmão”, afirmou Tebet na CPI da Covid.
Além disso, a senadora criticou a falta de vacinas que a gestão de Pazuello acarretou no Brasil: “Vossa senhoria não utilizou o melhor Plano de Imunizações do mundo, porque não havia vacinas e nem como aplicá-las. Não fizemos o dever de casa”, lamentou Simone.
Outra senadora que se destacou na CPI da Covid foi Kátia Abreu (PP-TO). Apesar de ser muito criticada por conta de sua atuação frente ao agronegócio, a fala da senadora criticando o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi como uma bomba nas redes sociais.
Os memes que a fala de Kátia Abreu gerou com suas duras, mas significativas falas ao ex-ministro, representou a indignação que muitos brasileiros sentiram ao ouvir o que Ernesto tinha a dizer sobre sua gestão durante a pandemia no Brasil.
“O senhor é um negacionista compulsivo, omisso. O senhor, no MRE, foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, para um naufrágio. Bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira, foi isso que o senhor fez. Isso é voz unânime dos seus colegas no mundo inteiro”, afirmou a senadora em sua longa fala durante a CPI.
Abreu, incisivamente, acusou Ernesto Araújo de ser um dos grandes responsáveis pela falta de vacinas no país, por conta de suas falas contra a China: “Ainda lembro aqui, reitero, o seu artigo: ‘Chegou o comunavírus’. É o título do artigo, ‘comunavírus’. Isso não é um ataque? Eu queria saber se isso ajudou ou atrapalhou a compra de vacinas e as relações do Brasil com aquele país?”, indagou a senadora a Ernesto.
Além disso, reiterou a fala de Araújo que disse no final de 2020, que o Brasil poderia ser um pária: “O senhor colocou o Brasil na posição de irrelevância! E eu não aceito o meu País ser um país irrelevante! Não aceito que isso aconteça!”
Apesar das grandes acusações que fez contra o ex-ministro, Ernesto Araújo se manteve em silêncio após a fala da senadora e preferiu não comentar. O silêncio de Araújo mostra que, após tanto tempo que fomos silenciadas pelo machismo e sexismo, e por mais que ainda tentem calar nossa representatividade, nós sobrevivemos ao preconceito de gênero que é tão cultural. E por ser cultural, é que temos números tão pequenos de mulheres na política. Mas a CPI vem mostrando que apesar de ainda estarmos em menor quantidade, a qualidade de nossas falas comprovam que estamos chegando cada vez mais longe.
