Das eleições à CPI, a verdade sobre a mitomania no meio político de forma nua e crua

Instalada há pouco mais de um mês no Senado Federal com o compromisso de buscar ‘a verdade’ sobre as ações do governo federal no combate à pandemia no país, CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid tem convivido coma mentira, a cada depoimento.
Principalmente daqueles que até poucos dias enfileiravam o Poder Executivo agora investigado como os ex-ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Eduardo Pazuello (Saúde, protegido por um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal – STF).
Muitas das declarações foram desmentidas pela própria comissão, pela imprensa e pelos sites especializados em checagem. O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL) elencou 15 das mentiras ditas por Pazuello que adotou clara estratégia de proteção do Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).
‘LICENÇA’ PARA MENTIR?
Pazuello fez valer sua condição de investigado em inquérito criminal aberto em janeiro STF a pedido da Procuradoria Geral da República. Foi por esta condição que o ministro Ricardo Lewandowski concedeu-lhe o benefício de ficar em silêncio diante de perguntas que pudessem incriminá-lo.
Trata-se de um direito constitucional, garantido no inciso LXIII do artigo 5º, no qual se lê: “o preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado”. É praxe da advocacia criminal a evocação deste direito na defesa do cliente, seja ele suspeito, acusado, réu ou mesmo condenado.
No caso da ‘CPI da Covid’, aliás, soa quase que como uma ‘licença’ para mentir, apesar do compromisso, assinado de próprio punho, de dizer a verdade, sob risco de responder ao crime de falso testemunho, cuja pena é de dois a quatro anos de reclusão, mais multa.
CULTURA POLÍTICA
Apesar deste suposto ‘risco’ a mentira é considerada uma prática ‘comum’ no meio político, sobretudo por ocasião das campanhas eleitorais, da defesa de governos (como é o caso aqui) e nas oposições. Seja na condição que estiver, a verdade não está garantida.
Um dos exemplos mais notórios no Brasil – senão o mais conhecido – é o do ex-prefeito, ex-governador e deputado federal cassado, Paulo Maluf. Por décadas, ele repetiu uma de suas frases mais icônicas: “Paulo Maluf não tem e nunca teve contas no exterior”, em terceira pessoa mesmo.
A mentira ruiu em 2007 quando o então deputado federal pelo PP de São Paulo foi condenado a mais de sete anos de prisão pelo STF por lavagem de dinheiro. Apesar da descoberta de suas contas no exterior e a repatriação de parte do dinheiro aos cofres paulistas, Maluf manteve intacta a defesa de sua inocência.
CASO PRESIDENCIAL
A recorrência da mentira no meio político tem levantado um número cada vez maior de ‘concorrentes’ ao posto de ‘maior mentiroso da nação’. Ao menos por enquanto, as estatísticas do ‘mentirômetro político’ apontam justamente à maior autoridade do país.
Segundo levantamento divulgado pelo site Brasil de Fato no último dia 1º de abril, conhecido popularmente como o ‘Dia da Mentira’, o presidente Jair Bolsonaro já havia feito 2.662 declarações falsas até então – uma média de pelo menos três por dia de mandato.
A mais recorrente, segundo a mesma pesquisa, é a argumentação de que o STF teria eximido da Presidência da República a responsabilidade do enfrentamento à pandemia da covid-19. O tribunal desmentiu Bolsonaro em nota à imprensa, publicada em 18 de janeiro deste ano.
MITOMANIA
Chamado de ‘mito’ por seus eleitores e admiradores, Bolsonaro tem seu apelido atrelado semanticamente, coincidência ou não, à doença caracterizada por se mentir compulsivamente: a mitomania. A patologia exige tratamento psiquiátrico.
Segundo a literatura médica, as características mais comuns do ‘mitomaníaco’ são a ausência de culpa ou qualquer receio de ser flagrado por suas mentiras, a elaboração de respostas delongadas para questões simples e objetivas e a tendência à vitimização ou ao heroísmo.
O tratamento mais comum à mitomania são as sessões de psicoterapia. É por ela que os mentirosos costumazes têm a oportunidade de identificar os gatilhos que desencadeiam seus devaneios da realidade – como a de uma pandemia, por exemplo.
