Custo de vida mais caro na pandemia muda hábitos e estilo de vida de brasileiros

O aumento nas contas de água, luz e telefone devem impactar na inflação que deve fechar o ano em 5,3% segundo previsão de Índice de Preços de Consumidor – Amplo (IPCA) divulgado pelo Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (IPEA).

A conta de energia elétrica, por exemplo, subiu 2,31%, apenas em maio, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A mesma análise registrou o reajuste do preço do botijão de gás pelo 12º mês consecutivo, em meio à queda do consumo.

O encarecimento dos chamados ‘preços administrados’ – além dos já citados, também os medicamentos, combustíveis, taxas e impostos, entre outros – tem levado o brasileiro a recorrer a ‘fontes alternativas’, quando possível, para atender algumas necessidades básicas do dia a dia.

Esta ‘adaptação’ inclui, a depender do caso, mudanças de comportamento, eventuais investimentos, parcerias e criatividade para cozinhar, manter tudo que depende de energia elétrica funcionando em casa ou mesmo deslocar-se com economia e segurança.

TRANSPORTE ALTERNATIVO

Os combustíveis já acumulam reajuste de preços superior aos 46%, apenas em 2021, a considerar todos os anúncios feitos pela Petrobras desde janeiro. O impacto no mercado seguiu o fluxo do repasse ao consumidor final: produtos e serviços encareceram.

O aperto nas contas é ainda maior para quem precisa utilizar o próprio veiculo para trabalhar ou, pelo menos, sair de casa. As alternativas mais comuns tem sido recorrer a aplicativos de transporte ou ao uso da bicicleta – combinados ou não.

É assim que 55% dos moradores de bairros periféricos de, pelo menos, seis capitais brasileiros têm preferido se deslocar nos últimos meses, segundo pesquisa divulgada pela ’99’, que atua no serviço de transporte por aplicativo.

Entre os clientes ouvidos pela concorrente Uber, 38% declararam nem possuírem veículo próprio e terem preferência, quando possível, pelo uso da própria bicicleta. A venda de carros retraiu 26,2% em comparação a 2019, segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Na contramão da indústria automotora, a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) anunciou o aumento médio de 50% na venda de produtos no mesmo período. A demanda segue em alta em 2021, apesar do atraso na produção em decorrência das dificuldades de importação de vários itens por falta de matéria-prima.

Apesar do estímulo ao uso mais frequente da bicicleta, seja por questões econômicas ou por um estilo de vida mais saudável, o caminho ainda segue muito curto nos grandes centros. A malha cicloviária nas capitais estaduais não passa dos 3,2 mil quilômetros, segundo dados atualizados.

MERCADO AQUECIDO

Os reajustes nas contas de luz e de gás apertaram ainda mais o orçamento das famílias, sufocadas economicamente pelo consumo ainda maior devido o confinamento provocado pela pandemia e a queda de receitas provocada pelo desemprego – a taxa atual é de 14,4%, segundo o IBGE.

Diante deste cenário, o brasileiro tem recorrido a alternativas ao consumo de botijões e de energia elétrica. Os fogões à gás têm sido substituídos pelos abastecidos à lenha ou a carvão, sobretudo nos bairros mais populares e pobres espalhados pelo país.

A troca de tipos de fogões alivia o bolso mas provoca riscos maiores a queimaduras e inalação de fumaça. “Essa exposição pode causar um quadro inflamatório agudo. O uso contínuo pode acarretar em doença pulmonar obstrutiva”, explicou o médico pneumologista Elie Fiss, à TV Bandeirantes.

Quem pode investir tem optado pela aquisição de eletrodomésticos que substituam o fogão. Chaleiras, panelas e frigideiras elétricas e o micro-ondas costumam entrar na lista do consumidor, embora a preferência nas compras por e-commerce no país esteja em geladeiras e refrigeradores, segundo pesquisa divulgada pelo Movimento Compre & Confie, que monitora a reputação de empresas pela avaliação dos próprios consumidores.

Entre cozinhar ou não, há quem tenha optado pela segunda opção e terceirizado a preparação. A entrega de comida por delivery foi o negócio que mais cresceu no país durante a pandemia segundo pesquisas divulgadas pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).

De acordo com o levantamento, o serviço está à frente da venda de calçados e acessórios, do streaming de filmes e séries e de compras de supermercados. Por outro lado, nutricionistas têm alertado sobre a importância da aquisição ou produção caseira de alimentos saudáveis como forma de prevenção ao sedentarismo e a doenças.

O consumo de gás natural, por sua vez, apresentou queda de 8,7% em 2020 em comparação ao ano anterior, segundo números consolidados do setor divulgados pela Associação Brasileira de Empresa Distribuidores de Gás Canalizado (Abegás).

ENERGIA RENOVÁVEL

Enquanto que para o transporte, o botijão de gás e à alimentação há soluções mais práticas, o mesmo não se pode dizer em relação à substituição da energia elétrica – que, aliás, interfere diretamente na maioria das atividades e necessidades do dia a dia.

As alternativas à corrente elétrica são as chamadas fontes alternativas. Além da hídrica, que corresponde a 60,8% da potência nacional, há outras em franco crescimento no país como a eólica (sobretudo no Nordeste), a de biomassa (utilizadas em usinas de açúcar e álcool) e a solar.

De todas, a última é a quem tem ficado cada vez mais acessível ao consumidor, apesar dos custos ainda elevados. O serviço consiste na instalação de placas fotovoltaicas que convertem a radiação solar em corrente elétrica.

O mercado, que em outros tempos buscava uma luz ao fim do túnel, vive um claro crescimento: pelo menos 70%, apenas em 2020, segundo números do setor. A multiplicação de linhas de crédito a juros ainda menores tem atraído cada vez mais interessados.

Mesmo assim, os valores praticados ainda são impeditivos para o blecaute sofrido por muitas famílias em suas receitas mensais. A instalação de um sistema residencial – equipamentos, serviço de instalação e integração à rede de rua – tem girado em torno dos R$ 25 mil a R$ 30 mil.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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