Cercada de polêmicas, “Capitã Cloroquina” depõe hoje na CPI da Covid

De acordo com o dicionário online Dicio, capitã significa “aquela que comanda, que chefia um grupo de pessoas; chefe”. A doutora Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde, ficou conhecida nas redes sociais pela alcunha de “Capitã Cloroquina”, por sua grande influência no uso de hidroxicloroquina no combate à covid-19 no Brasil. 

Com um currículo extenso de especialidades médicas, a secretária se envolveu em diversas polêmicas que dizem respeito à recomendação de cloroquina, mesmo após comprovação, ressaltada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de que o medicamento não tem eficácia no tratamento contra o coronavírus. 

Os senadores que fazem parte da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) vão focar suas indagações justamente nos atos da secretária em relação à cloroquina, tanto na recomendação, quanto ao ocorrido em Manaus, já que Pinheiro esteve lá antes, durante e após o colapso do sistema de saúde no Amazonas. 

Apesar de seu depoimento ser de grande importância para o andamento da CPI, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou o habeas corpus para que Mayra tenha o direito de não responder sobre seus atos durante dezembro e janeiro, quando ocorreu o colapso da saúde em Manaus, já que, assim como Eduardo Pazuello, ela está sendo investigada pelo Ministério Público em relação à possível omissão do Governo Federal no enfrentamento da pandemia em Manaus. 

Como Mayra supostamente “chefiou” o uso da cloroquina no Brasil durante a pandemia?

Um dos objetivos da Comissão é identificar quem foi ou foram os responsáveis por recomendar o uso da cloroquina como tratamento precoce contra a covid-19 no Brasil. A secretária Mayra foi integrante de uma equipe de Pazuello que fazia parte de um gabinete temporário contra a covid-19 em Manaus durante a época do colapso da saúde na capital amazonense. 

A secretária esteve em Manaus, no dia 4 de janeiro, antes mesmo do colapso e defendeu o uso de cloroquina como tratamento precoce. Durante a visita, a secretária, que foi como representante do Ministério da Saúde, teve como objetivo “alinhar ações de fortalecimento da pasta, para o enfrentamento da covid-19 no Amazonas”, de acordo com a agenda oficial de Pinheiro. 

No dia 10, enquanto integrantes do Ministério da Saúde ainda estavam em Manaus, o governador do Amazonas Wilson Lima (PSC) anunciou que a situação era grave e pediu assistência ao Ministério da Saúde no transporte de cilindros de oxigênio de outros estados brasileiros para Manaus. 

Importante frisar que, durante depoimentos feitos na CPI, muitos depoentes, como Eduardo Pazuello e Ernesto Araújo afirmaram que o governo não solicitou transporte dos aviões das Forças Aéreas Brasileiras para auxiliar na chegada dos cilindros de oxigênio em Manaus. O Ministério da Saúde havia afirmado oficialmente que isso não era atribuição da FAB e disse que a responsabilidade era da empresa White Martins, que é a empresa fornecedora de oxigênio hospitalar para o estado.

Já no dia 11, a secretária lançava em Manaus, em meio a todo caos, junto ao ex-ministro da Saúde, o aplicativo TrateCov, que orientava médicos quanto ao tratamento precoce, ou seja, uso de medicamentos sem comprovação de eficácia, para pacientes com covid-19. 

Em depoimento ao Ministério Público Federal, Mayra afirmou que o secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Câmpelo, informou a respeito da falta de oxigênio no dia 8 de janeiro.

Mayra Pinheiro compartilhou vídeo defendendo a cloroquina nas vésperas de depoimento

Na tarde de ontem (24), a secretária Pinheiro compartilhou em suas redes sociais um vídeo do ex-senador Magno Malta defendendo a cloroquina: “Cloroquina, todos nós acreditamos. Acreditamos em tratamento precoce”, afirmou Malta no vídeo. 

Entidades médicas já se posicionaram sobre o uso do medicamento contra a covid-19 precocemente. A OMS “desaconselha fortemente” o uso da cloroquina para tratamento contra a doença. A Associação Médica Brasileira (AMB) afirmou que a cloroquina e a ivermectina deveriam ser “banidas” do tratamento contra a doença e também ressaltou o mesmo, a Sociedade Brasileira de Infectologia.

Entre março e abril de 2021, pelo menos três pessoas morreram no Amazonas após profissionais médicos submeterem pacientes com covid-19 a nebulizações com hidroxicloroquina diluída em soro. Assim também aconteceu no Rio Grande do Sul, em que três pacientes foram ao óbito após passarem pelo procedimento.

Como analisar o depoimento de Mayra Pinheiro na CPI?

A secretária será indagada em questões como:

1 – O aplicativo TrateCov, que Pazuello afirmou ser de responsabilidade de Mayra.

2 – A omissão da secretária em Manaus, já que ela estava presente quando houve o colapso.

3 – O uso da hidroxicloroquina para pacientes com covid, mesmo após comprovação de não eficácia do medicamento.

É importante prestar atenção nas perguntas feitas pelos senadores, tanto da oposição, quanto dos governistas, e verificar se há alguma defesa do presidente da república e do ministério da Saúde. 

Outro ponto para basear sua análise é comparar o depoimento de Pazuello com o da secretária, já que ela era subordinada do ex-ministro da Saúde. 

Verificar se a secretária irá utilizar de seu habeas corpus e não responder algumas perguntas feitas sobre Manaus. 

Ainda sobre Manaus, é importante considerar as perguntas e comentários feitos pelos senadores Omar Aziz, presidente da CPI da Covid, e Eduardo Braga, que são senadores representantes do Amazonas. 

Ricardo Almeida
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