Rescaldo de safra recorde e aumento de consumo no lar não dão pausa ao cafezinho

Estimada em 63 milhões de sacas de 60 quilos, a safra de café no Brasil em 2020 bateu recordes de acordo com dados divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Foi a maior série histórica, desde 2016, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic).
A grande colheita do grão se deu no ano da deflagração da pandemia mundial provocada pelo coronavírus, cujas consequências econômicas imediatas foram o fechamento dos principais mercados mundiais – inclusive o do café.
A imposição de lockdowns em muitos países baixou as portas de ambientes propícios para o consumo de café, mas não o diminuiu. Pelo contrário: a estimativa da Organização Mundial do Café (OIC) é de crescimento de 1,3% no atual ano-cafeeiro 2020-2021.
Maior produtor e exportador global, o Brasil ainda mensura os reflexos da pandemia no consumo de café para 2021. Entidades do setor veem com preocupação o impacto dos reajustes da energia elétrica e dos combustíveis no preço final ao consumidor.
YES, TEMOS CAFÉ
O mercado mundial ainda saboreia a safra recorde do Brasil. As exportações cresceram 32% em novembro de 2020 na comparação ao ano anterior, segundo informou a Conab em comunicado à imprensa. Mesmo grandes concorrentes como Colômbia e México recorreram ao café brasileiro para fins de reexportação.
A sede externa saciou, ao menos em parte, o apetite do produtor brasileiro, que aproveitou o momento de valorização do dólar em relação ao real para, inclusive, antecipar novos contratos. As receitas geradas pela exportação do café em 2020 movimentaram US$ 5,6 bilhões (R$ 29,82 bilhões, em valores atuais).
Apesar dos estoques mais fartos em relação ao ano passado, segundo informações da consultoria Safras & Mercado, a estimativa é que a colheita da safra 2021/2022, iniciada em abril, seja 17,8% menor, em virtude da ciclo do grão tipo arábica, o mais produzido no país.
Especialistas do setor temem que o recuo na produção possa afetar o mercado interno. Em entrevista em março, o presidente da Abic, Ricardo Silveira, disse acreditar que a entressafra possa encarecer mas não afugentar o consumidor. “O café é um produto barato”, argumentou.
NOVOS HÁBITOS
Em meio aos efeitos provocados pela pandemia e a produção cafeeira, o consumo do líquido mais bebido no mundo – depois, obviamente, da água – adquiriu novos hábitos, preferências e até estilos, segundo análises de comportamento do público aplicada em vários países.
Uma constatação comum: o confinamento obrigatório ou necessário provocado pela pandemia reforçou o velho hábito do cafezinho caseiro. O fenômeno levantou a fumaça para o mercado de cafeteiras e máquinas de café. No Reino Unido, o aumento das vendas chegou a 129%.
O mercado também se ajustou à realidade. Ainda na Inglaterra, pelo menos 70% das cafeterias autorizadas a abrir focaram o atendimento no sistema ‘take-away’ (exclusivo para retirada). Nos Estados Unidos, os serviços de assinatura de café registraram aumento superior a 100%.
RITUAL SAUDÁVEL
Apesar das comodidades de tempo e preparo de café oferecidas por equipamentos e serviços, especialistas da saúde recomendam a preferência, pelo menos em casa, da escolha pelo ‘modo tradicional’, com a coagem manual do café.
“O ideal é que o café seja feito coado, passando a água quente através do filtro com o pó, pois além das substâncias cancerígenas, o filtro também elimina a maior parte dos compostos que provocam o aumento do colesterol”, explica a cardiologista Ana Luiza Lima.
Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou o café da lista das bebidas consideradas cancerígenas. Especialistas recomendam o consumo de até quatro xícaras diárias, à exceção dos mais sensíveis as efeitos da cafeína – taquicardia, refluxos e ansiedade.
Entre os benefícios já comprovados cientificamente do consumo do café estão a queima de calorias, diminuição do risco de depressão, fortalecimento da memória, fortalecimento do coração, diminuição do diabetes, entre outros.
