#PazuelloDay – parte 2: CPI ouve o ex-ministro novamente após inconsistências no primeiro dia de depoimento

No segundo dia de depoimento na CPI da Covid, o ex-ministro Eduardo Pazuello manteve a estratégia de respostas evasivas, mesmo diante de contradições sobre vacinas, oxigênio em Manaus e o aplicativo TrateCOV.
Com uma estratégia muito bem definida, o general Eduardo Pazuello depôs na CPI da Covid ontem (19) e teve opiniões divididas sobre sua apresentação frente ao Senado. Segundo bastidores do Palácio do Planalto, o governo se sentiu satisfeito com a forma como Pazuello se portou na CPI, defendendo o presidente Bolsonaro e esticando seu tempo de fala, para que ele não fosse objetivo nas respostas das perguntas de “sim ou não”. Desse jeito, o ex-ministro conseguia se esquivar de perguntas mais polêmicas.
Já para o lado da oposição, Pazuello se entregou em diversos pontos do depoimento, mostrando que as decisões tomadas como ministro da Saúde foram cruciais para que o Brasil chegasse ao nível de transmissão e óbitos por covid-19. Inclusive, muitos senadores disseram que o fato dele proteger o presidente, já foi um atestado de culpa em algumas ocasiões.
O presidente da CPI, Omar Aziz, precisou interromper o depoimento algumas vezes por conta de discussão entre os senadores e o depoente, além de alertar o ex-ministro sobre não mentir durante a comissão, que era melhor que ele se utilizasse do seu habeas corpus que garantia-lhe o direito de ficar calado.
Inclusive, Pazuello não se utilizou do silêncio a que tinha direito e respondeu todas as perguntas que lhe foram feitas. Após mais de 7 horas de depoimento, o ex-ministro teve um mal estar e precisou ser atendido pelo médico e senador integrante da CPI, Otto Alencar, mas logo melhorou. Entretanto, o presidente da comissão encerrou as atividades e solicitou que Pazuello voltasse hoje para atender aos outros 23 senadores que tinham se inscrito para perguntar ao depoente.
O que Pazuello disse ontem?
Defesa do presidente Bolsonaro
Pazuello entrou na CPI com o objetivo de proteger Bolsonaro das acusações que eram feitas dirigidas a ele pelos senadores. Em diversos pontos, o ex-ministro transferia a responsabilidade do Ministério da Saúde e do presidente da República referente aos processos da pandemia, a empresas ou outros servidores públicos, tentando se esquivar de perguntas polêmicas e objetivas.
Quando perguntado sobre a compra de vacinas da Coronavac, que Bolsonaro, no ano passado, tinha ido a público afirmar que não compraria, Pazuello foi enfático ao afirmar que o presidente nunca havia mandado desfazer nenhum contrato com o Butantan.
Apesar de isso contradizer os próprios atos do presidente e de Pazuello na época em que era Ministro da Saúde, o general afirmou que Bolsonaro e ele falavam coisas pela internet, mas que oficialmente eles faziam o contrário. Por exemplo: Bolsonaro afirmou em público que não compraria as vacinas da Coronavac. Mas, segundo Pazuello, Bolsonaro nunca solicitou que o ex-ministro cancelasse a compra.
Oxigênio em Manaus
Pazuello afirmou que Manaus ficou sem oxigênio por apenas 3 dias e que ficou sabendo da situação apenas no dia 10 de janeiro. Entretanto, o Ministério da Saúde mudou a data que ficou sabendo sobre a crise do oxigênio em Manaus por 3 vezes, afirmando que as datas certas eram 8, 10 e 17 de janeiro.
Essa versão de Pazuello difere do que foi enviado ao STF pela Advocacia Geral da União, sendo que o documento enviado ao Supremo afirma que o Ministério da Saúde tomou conhecimento da crise em Manaus no dia 8.
TrateCOV
O TrateCOV foi um aplicativo apresentado em Manaus durante a crise do oxigênio, que tinha como objetivo ajudar no diagnóstico da covid-19 por médicos. O paciente preencheria um formulário e esse formulário seria analisado por um médico para auxiliar no diagnóstico.
Ele não foi lançado em nenhum outro lugar no Brasil, somente em Manaus, e na época, Pazuello se utilizou do evento para exaltar o tratamento precoce da doença.
Entretanto, na CPI, o ex-ministro afirmou que o aplicativo não entrou em operação, estava em desenvolvimento e não foi distribuído aos médicos. Além disso, o general ainda ressaltou que o uso da plataforma foi uma decisão feita pela secretária da Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde do ministério, Mayra Pinheiro, que vai depor também na CPI por ser conhecida como a “capitã cloroquina”.
Porém, o aplicativo foi amplamente divulgado, inclusive na TV Brasil, emissora oficial do governo federal, e poderia ser utilizado por qualquer pessoa que quisesse na época. Logo depois da má repercussão, o aplicativo foi retirado do ar e já não pode ser acessado hoje.
REAÇÕES NAS REDES SOCIAIS
Enquanto Pazuello depunha, as redes sociais viveram intensa repercussão do depoimento. De um lado, apoiadores do governo elogiaram a firmeza do ex-ministro ao rebater as perguntas dos senadores da oposição. Do outro, opositores destacaram as contradições entre as datas apresentadas por Pazuello sobre a crise de oxigênio em Manaus e os documentos já enviados ao Supremo Tribunal Federal pela própria Advocacia Geral da União.
Termos como #PazuelloDay e #CPIdaCovid voltaram a figurar entre os assuntos mais comentados no Twitter, reflexo do interesse da população pelos desdobramentos da comissão mesmo após meses de depoimentos.
O QUE DIZEM OS SENADORES DA OPOSIÇÃO
Senadores como Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues classificaram as respostas de Pazuello como evasivas e cobraram maior objetividade nas respostas do segundo dia de depoimento. Para a oposição, a estratégia de alongar as respostas seria uma tentativa deliberada de esgotar o tempo disponível para os questionamentos mais incisivos.
Já os senadores da base governista defenderam que Pazuello estava apenas contextualizando decisões tomadas em um momento de grande pressão sanitária, argumentando que julgar a gestão da pandemia exige levar em conta a falta de informações científicas consolidadas sobre a covid-19 no início da crise.
Hoje, o ex-ministro Pazuello continua com o seu depoimento e é importante analisar se ele irá manter a estratégia de não ser objetivo nas respostas, além de perceber qual será o tom de defesa ao governo e ao presidente.
