Brasil de Juliette Freire lê pouco mas aquece mercado editorial na pandemia

A indicação de livros pela campeã do BBB Juliette Freire impulsionou as vendas no mercado editorial brasileiro, mesmo em um país onde os índices de leitura e alfabetização ainda são baixos.

Vencedora do Big Brother Brasil (BBB) de 2021, da TV Globo, a advogada Juliette Freire provocou um raro alvoroço editorial no Brasil ao indicar a leitura do livro de autoajuda “Os Quatro Compromissos”, escrita pelo mexicano Don Miguel Ruiz.

A simples sugestão da sister em uma live de sua conta no Instagram foi suficiente para alavancar o livro entre os mais vendidos da Amazon, seja nas versões física ou digital. O fenômeno fez com que a editora BestSeller revisse a tiragem para atender a demanda.

O ‘efeito Juliette’ já é aguardado às outras publicações citadas posteriormente pela paraibana ao Splash, do UOL. Anote aí: “O Sol é para todos”, de Harper Lee; “A Morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Cláudia Quintana Arantes; “As Cinco Linguagens do Amor”, de Gary Chapman e “Quem me roubou de mim?”, do padre Fábio de Melo.

POUCOS LEITORES

A proposta de leitura de Juliette Freire é um desafio para um país pouco afeito à leitura de livros. O brasileiro lê, em média, até cinco por ano, embora não chegue à página final da metade, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2020.

O desinteresse pelos livros afetou pelo menos 4,6 milhões de brasileiros entre 2015 e 2019, ainda de acordo com a pesquisa – entre tantos, sobretudo aqueles que, em tese, teriam mais interesse: com ensino superior e/ou ricos. A redução foi de 76% para 67%.

O Brasil de Juliette Freire ainda tem 11 milhões de analfabetos, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação divulgados em 2020. Pelo menos 29% da população ainda é analfabeta funcional – característica de quem tem dificuldade para interpretar textos ou fazer cálculos matemáticos.

EFEITO PANDEMIA

Apesar da triste realidade educacional brasileira e da queda no número de leitores, a venda de livros está em alta. O mercado 3,7 milhões de unidades, apenas entre 27 de janeiro e 23 de fevereiro de 2021 – 18,6% a mais que no mesmo período em 2020.

Os números foram divulgados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). Convertidos em cifras, representam a movimentação de R$ 172,1 milhões, considerando a redução do preço médio em 10,45% – R$ 45,65, segundo valores de mercado.

O QUE OS BRASILEIROS ESTÃO LENDO

Além dos títulos de autoajuda indicados por Juliette Freire, o mercado editorial brasileiro registrou aumento na procura por livros de não ficção durante a pandemia, sobretudo aqueles relacionados a saúde mental, finanças pessoais e desenvolvimento profissional. A busca por conteúdo que ajudasse a lidar com a ansiedade e a incerteza do período parece ter influenciado diretamente essa preferência.

No campo da ficção, romances e obras de fantasia também mantiveram bom desempenho de vendas, beneficiados pelo maior tempo disponível em casa e pela busca por entretenimento que permitisse alguma fuga da realidade. Editoras relataram ainda crescimento na procura por quadrinhos e mangás, especialmente entre o público mais jovem.

LIVRARIAS FÍSICAS E O CRESCIMENTO DO E-COMMERCE

Com o fechamento temporário de livrarias físicas em diversas cidades durante os períodos mais restritivos da pandemia, o comércio eletrônico se consolidou como o principal canal de vendas do setor editorial. Plataformas de venda online e aplicativos de entrega por bicicleta ou moto passaram a ser usados até por pequenas livrarias de bairro, que se adaptaram rapidamente para não fechar as portas.

Esse movimento acelerou uma transição que já vinha ocorrendo de forma mais lenta nos anos anteriores, à medida que grandes redes de livrarias reduziram o número de lojas físicas em shoppings e regiões centrais, concentrando investimentos na venda digital e na distribuição por meio de marketplaces.

INCENTIVO À LEITURA E POLÍTICAS PÚBLICAS

Apesar do bom desempenho comercial do setor durante a pandemia, especialistas em educação alertam que o aumento nas vendas de livros não representa, necessariamente, um avanço nos índices de leitura da população como um todo, já que o público leitor tende a ser o mesmo que já tinha o hábito antes da crise sanitária.

Para ampliar o acesso à leitura entre a população de baixa renda, educadores defendem o investimento em bibliotecas públicas, programas de distribuição gratuita de livros em escolas e políticas de incentivo fiscal para editoras que produzam obras a preços mais acessíveis. Sem esse tipo de ação, o chamado ‘efeito Juliette’ tende a ficar restrito a quem já tinha o hábito de comprar livros regularmente.

Bibliotecários também destacam a importância das bibliotecas comunitárias e dos projetos de leitura promovidos por ONGs, especialmente em regiões onde o acesso a livrarias é limitado. Iniciativas de troca de livros usados e feiras literárias itinerantes ganharam força durante a pandemia como alternativa de baixo custo para aproximar a população da leitura.

De qualquer forma, o episódio motivado pela indicação de Juliette Freire reforça o potencial das redes sociais e de personalidades públicas para influenciar hábitos de consumo cultural no Brasil, um efeito que o mercado editorial já vinha percebendo em menor escala com outros influenciadores digitais e celebridades nos últimos anos.

Para o setor, o desafio agora é transformar esse interesse pontual em hábito duradouro, algo que depende tanto de campanhas de incentivo à leitura quanto da manutenção de preços acessíveis em um mercado ainda pressionado pelo custo do papel e da distribuição.

O sindicato vê o efeito da pandemia no aumento dos ganhos. Isoladas, as pessoas – inclusive os chamados ‘leitores avulsos’ – teriam recorrido mais à leitura de livros. O número de títulos lançados aumentou em 12,59% em comparação a 2020, ainda segundo o Snel.

Ricardo Almeida
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