#PerigoTubarão: Cuidado para não ser abocanhado pela ignorância humana!

Relegado pelo cinema à má reputação de uma minoria, animal costuma conviver sem correr atrás de ninguém nos mares

Tubarão em Balneário Camboriú chama atenção de surfistas e banhistas. Já são 16 registros recentes, ligados ao alargamento

É domingo de sol, praia cheia, crianças brincando na areia, jovens divertindo-se nas águas e os guarda-vidas de olho na movimentação de todo mundo e, principalmente, de eventuais visitantes indesejados nas águas.

A cena, típica de mais um dia de verão na pacata Ilha Amity, está cada vez mais próxima da realidade que da ficção na ainda tranquila orla de Camboriú, um dos balneários mais concorridos do sul do Brasil.

Ainda mais depois que alguns banhistas flagraram e divulgaram nas redes sociais alguns vídeos ao melhor estilo Steven Spielberg: debaixo das águas surgem, de repente, as inconfundíveis barbatanas de um tubarão.

Não apenas um, mas ao menos 16, desde agosto, segundo levantamento feito pelo Museu Oceanográfico da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), foram registrados perambulando por aquelas águas catarinenses.

ORLA ALIMENTÍCIA

O aumento da frequência destes animais marinhos está relacionado às recentes obras de alargamento das praias. A movimentação da areia tem liberado sedimentos que atraem crustáceos e predadores como os tubarões.

É o que confirma a própria prefeitura, que informou estar monitorando os novos visitantes, frequentes por ali desde os anos 1950, segundo registros de época – mas nem tão próximos como nos últimos meses.

A situação tem provocado algumas convivências, digamos, inesperadas entre tubarões e seres humanos. Sobretudo, pescadores e surfistas, que se deslocam muito além das praias em busca de peixes e ondas, respectivamente.

Um surfista catarinense relatou o susto que sofreu ao se deparar com um tubarão que, segundo ele, tocou em sua perna e suas costas com a cauda, embora em nenhum momento tenha tentado mordê-lo.

SHARK BROTHER!

A companhia indesejada decerto foi uma das mais de oitenta espécies que frequentam o litoral brasileiro, das quais a grande maioria é inofensiva ou arredia ao encontro humano – isso, quando acontece.

Entre os exemplares mais comuns no Sul do Brasil estão os tubarões-anjo, bico-de-cristal e malhado. Este trio, aliás, consta entre os mais ameaçados de extinção por conta da pesca predatória e a degradação ambiental.

Conhecido por sua peculiar formação em ‘T’, com olhos das extremidades de cada ponta, o tubarão-martelo também zanza pela costa de Santa Catarina. Apesar de devorar até outros tubarões, não tem seres humanos no cardápio.

Nem em Tubarão (SC) há qualquer ameaça de ataque de algum animal da espécie. Primeiro, porque nem mar lá existe. A cidade, cujo nome se deve a um rio que a banha, está a menos 30 quilômetros da boca do oceano.

PERIGO, TUBARÃO!

Enquanto que em águas catarinenses é possível conviver com os tubarões, a realidade é bem menos amistosa em Recife (PE), onde a relação com o bicho está mais para o clima de filmes de terror mesmo.

E não é por falta de aviso. As praias mais comuns aos ataques de tubarão estão sinalizadas ao longo de todos os pontos de risco da orla pernambucana. Mas, mesmo assim, há quem se arrisque e não sobreviva.

Pelo menos dezesseis pessoas já morreram no confronto com tubarões desde 1992, segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) de Pernambuco. Havia 69 registros até a publicação deste post.

Entre os predadores mais reincidentes em fatalidades com humanos no nordeste estão o tubarão-tigre e o cabeça-chata – duas das pouquíssimas espécies que mancham a boa reputação da grande maioria.

ESTIGMA ASSASSINO

O outro é o tubarão-branco, cuja imagem está no imaginário popular como maior vilão entre os de sua espécie – o que não deixa de ser, em parte, verdade, dada a sua agressividade e participação na morte de pessoas pelos mares do mundo.

A fama ficou ainda pior desde que sua desenvoltura assassina ganhou as telas do cinema em 1975 com o filme ‘Tubarão’ (Jaws, em inglês). Pra piorar (pra ele), vieram depois Tubarão II (1978), Tubarão III (1983) e Tubarão IV (1987).

Além de outros que acabariam reforçando esse estigma do tubarão como um bicho terrível e ‘inimigo número um’ do homem nos mares – com a devida licença a Moby Dick (trataremos sobre baleias em outro post).

Na prática, esse estrelato mais atrapalha do que ajuda os tubarões. Envolve as muitas outras espécies (sem direito a cachê), e ignora a importância destes animais no controle populacional dos mares e oceanos. Essa mordida o cinema não mostra.

Webert Oliveira
Sou um autor por escolha, curioso, especializado em transformar fatos e histórias inusitadas em narrativas cativantes. Com formação em Letras, gosto de combinar pesquisa rigorosa com um estilo envolvente, buscando não só informar, mas também inspirar a curiosidade de meus leitores sobre o mundo.
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