12 de outubro: Dia da aparição do presidente Messias em Aparecida
De volta à cidade da Padroeira do Brasil, chefe do Poder Executivo reencontra-se com reino religioso dividido e Igreja que não bota fé no seu governo

O discurso do arcebispo de Aparecida contra a ‘pátria armada’, dirigido implicitamente ao presidente Jair Bolsonaro durante a celebração à padroeira do Brasil, reacende o debate sobre a relação entre religião, política e armamento no país.
Ainda repercutiam nas redes sociais na manhã desta quarta-feira pós-feriado prolongado as declarações do arcebispo metropolitano de Aparecida (SP), dom Orlando Brandes, na celebração à Nossa Senhora Aparecida, nesta terça-feira (12).
Durante o sermão, o religioso afirmou que “para ser amada, não pode ser pátria armada”, “sem ódio”, “uma República sem mentiras e Fake News”, “sem corrupção” e “com fraternidade, construindo a grande família brasileira”.
Embora tenham sido proclamadas ao “povo de Deus”, as palavras do bispo foram direcionadas àquele que estava presente entre eles, na primeira fileira do Santuário de Aparecida: o Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (sem partido).
Foi a segunda aparição naquele templo daquele que fora eleito, em 2018, com a missão de “salvar o país do comunismo e do socialismo”. Na primeira, em 2019, ele protagonizou o ‘milagre’ da participação inédita de um presidente nos festejos da Padroeira do Brasil.
DE “SANTO” A “COMUNISTA”
Não demorou para que o bispo fosse revestido pela sacristia digital de toda sorte de mantos, religiosos ou não, sejam por fiéis à Igreja Católica, ao chefe do Executivo, a ambos – ou nenhum, como reza a laica liberdade de expressão online.
Escreveu-se de tudo. Houve quem pedisse a canonização e a excomunhão de dom Brandes. Fiéis à esquerda e à direita seguiram o próprio catecismo político. Os primeiros o chamaram de progressista; os outros, de comunista.
A Igreja Católica, como de costume, não foi poupada. Defendida pela “coragem” por alguns, foi chamada de “militante política”, além de ter expostos seus pecados relacionados à pedofilia – sobretudo, o escândalo mais recente, na França.
PALAVRA DO MESSIAS
Também os veículos de imprensa que manifestam sua fé no governo ou na oposição não se calaram. À direita de Bolsonaro, a Jovem Pan recolou o presidente em seu próprio altar, concedendo-lhe a palavra calada à imprensa, ainda em Aparecida (SP).
“Não fui lá para ser aplaudido”, começou o Messias. Questionado sobre as declarações do bispo, o presidente desconversou. “Ele não falou lá dentro (da igreja). Só se eu comi mosca”, deu de ombros.
Ainda em seu sermão à Jovem Pan, citou uma passagem bíblica (Lucas 22:36) para defender sua política armamentista. “E se não tem uma espada, venda tua capa e compre uma. Então, a bíblia fala em armas”, catequizou.
REINO DIVIDIDO
Fruto da manjedoura católica mas convertido a uma igreja evangélica, o chefe do Executivo encontrou-se com um reino brasileiro religioso dividido, ainda em sua entrada em Aparecida, nesta terça (13).
Acostumado à acolhida fervorosa de seus adeptos, o presidente percebeu entre os fiéis da santa sua estranha Nazaré: entre tantos aplausos e salvas de ‘mito’, confundiram-se vaias e gritos de ‘genocida’.
Logo ele que, a exemplo de tantos romeiros, havia se sujeitado ao uso da máscara para estar com seu povo, um dia depois de mostrar a própria face em seu tour pelo litoral norte paulista – a ponto de ter sido multado, em Peruíbe (SP).
CARTA A BOLSONARO
O sermão do bispo a Bolsonaro reafirmou o distanciamento da Igreja Católica ao presidente. Ainda em julho de 2020, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou uma ‘Carta ao Povo de Deus’ contra o Governo Federal.
No documento, a Igreja questionou: “Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturado a falas e posturas preconceituosas, que incitam o ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?”
A TRADIÇÃO DAS ROMARIAS A APARECIDA
O Santuário Nacional de Aparecida recebe todos os anos milhões de romeiros vindos de diferentes regiões do Brasil, o que torna a data uma das mais significativas do calendário religioso e também político do país. Autoridades de diferentes esferas de governo costumam participar das celebrações, buscando aproximação com um público fiel numeroso e engajado.
Essa combinação entre fé popular e presença de figuras públicas transforma o santuário em um espaço simbólico de disputa de narrativas, onde discursos religiosos frequentemente ganham leituras políticas, independentemente da intenção original de quem os profere.
RELIGIÃO E POLÍTICA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
A relação entre lideranças religiosas e o poder público sempre foi marcada por tensões e aproximações no Brasil. Em diferentes momentos da história recente, setores da Igreja Católica e de igrejas evangélicas adotaram posições públicas sobre temas sensíveis, como segurança pública, direitos humanos e política armamentista, influenciando debates que vão muito além do campo espiritual.
Esse tipo de manifestação tende a gerar reações intensas nas redes sociais, dividindo opiniões entre quem vê nas falas religiosas uma defesa legítima de valores humanitários e quem considera uma intromissão indevida da fé em assuntos de Estado. O episódio em Aparecida se soma a uma longa lista de momentos em que essa fronteira ficou evidente para todo o país.
Um mês antes, a mesma CNBB havia reagido para conter o apoio declarado de alguns de seus padres midiáticos ao outro Messias, em troca das moedas da publicidade federal (confira vídeo abaixo). A entidade reprovou o que chamou de “barganha”.
