Luciano Hang na CPI da Covid é campanha política de empresário para eleições do ano que vem
Dono da Havan afirmou em entrevista que Bolsonaro o pediu para ser candidato ao senado em Santa Catarina. Na CPI da Covid, Hang terá sua primeira experiência dentro do Congresso Nacional.

Um empresário com o carisma, oratória, seguidores, dinheiro e uma dose de polêmica que Luciano Hang tem, chama a atenção do mundo político por sua ampla possibilidade de atrair votos. Apoiador nato de Bolsonaro, Hang está com o presidente desde as campanhas presidenciais e foi peça importante para que Bolsonaro fosse eleito.
Com suas roupas verde e amarelas, Luciano se coloca como um verdadeiro patriota e passa a imagem, em seus posts ostentadores mostrando suas riquezas, que todo seguidor de Bolsonaro pode chegar a ser bem sucedido como ele. Segundo a Forbes, o empresário acumula uma fortuna de 15 bilhões de reais, sendo um dos homens mais ricos do Brasil.
Com uma oratória digna de um bom e treinado político, Hang fala com seus seguidores usando uma linguagem simples e segue uma estratégia acertada: olha diretamente para a câmera, para que seu seguidor entenda que o empresário – tão rico, tão bom, tão certo, tão especial – está falando diretamente com ele. Assim, o seguidor também se sente único e se identifica com a mensagem que está sendo passada.
Hang é descontraído e tem uma revolta em suas falas quando se refere ao cenário político atual. Durante a campanha de Bolsonaro, ele afirmou em um vídeo nas suas redes sociais que se a esquerda ganhasse, até ele – tão rico, tão bom, tão certo, tão especial – iria “jogar a toalha”.
Ele costuma falar diretamente com uma parte específica de seu público – o pequeno empresário. Inclusive, em suas redes sociais, Hang dá dicas de como gerir uma empresa e cuidar de suas finanças. Ele tem a máxima que “ser empresário no Brasil é ser um herói” e com isso, ele ganha a confiança desse público e de suas famílias, que verdadeiramente entendem a realidade do que é ser um pequeno empresário no Brasil.
Hang é um personagem, assim como Bolsonaro. E da mesma forma que seu presidente, o empresário, aos poucos, foi se montando e colocando-se disponível para a política. Mostra, hoje, com seus inúmeros seguidores nas mídias sociais, que ele tem eleitorado e pode dar trabalho para possíveis candidatos.
Bolsonaro, que é um político inteligente e experiente, já entendeu que Hang é um bom nome para ter no Congresso Nacional no caso de uma reeleição em 2022 e por isso, convidou o empresário para ser candidato ao Senado no ano que vem.
Apesar de não ter confirmado que será pré-candidato, Hang já treina para ser político. O treinamento se iniciou desde as campanhas presidenciais, quando ele viu que tinha a habilidade de angariar votos para Bolsonaro. A missão agora é pegar esses votos para ele mesmo. Inclusive, sua presença hoje (29) na CPI da Covid é uma ótima forma de projeção nacional – hoje é o dia do empresário fazer política.
Entretanto, Luciano pode esbarrar na Justiça, já que carrega graves acusações durante sua, ainda curta, trajetória política.
Os crimes que Luciano Hang é acusado
O empresário foi convocado para depor na CPI por dois motivos: a disseminação de notícias falsas em relação à pandemia e por, supostamente, ter acobertado a Prevent Senior ao ocultar a causa do óbito de sua própria mãe – que morreu de covid-19.
Além disso, Hang é acusado de:
- Ter financiado o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, acusado de ser responsável pela disseminação de notícias falsas, com o apoio do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Por isso, Hang e Santos são alvos do inquérito das Fake News que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
- Hang também é alvo de um processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por ter custeado o disparo de mensagens em massa pelo WhatsApp e postagens em redes sociais com fake news durante a campanha de Bolsonaro em 2018.
- Ele já foi condenado pelo TSE, em 2019, a pagar uma multa de R$ 2.000 por pedir aos funcionários da Havan que votassem em Bolsonaro, o que foi considerado propaganda eleitoral irregular, já que era um chefe pedindo votos aos seus subordinados.
Hoje, Hang vai responder questionamentos dos senadores referentes às fake news que ele propaga na pandemia, fazendo propaganda ao tratamento precoce não eficaz, ao desrespeito às normas de distanciamento social que os estados brasileiros impuseram e por ter apoiado a imunidade de rebanho, que Bolsonaro tanto insistiu com a população brasileira.
Mas, Hang vai à CPI logo após ele ter sido citado como um dos envolvidos no caso macabro da Prevent Senior. De acordo com o depoimento dado ontem (28) pela advogada dos médicos e ex-funcionários que denunciaram o plano de saúde, o empresário teria acobertado a Prevent Senior quando ocultou a verdadeira doença pela qual sua mãe teria morrido – covid-19.

O objetivo do plano de saúde e de Luciano Hang seria ocultar o motivo da morte da mãe do empresário, que fez o uso dos medicamentos sem eficácia, para não “atrapalhar” os resultados dos testes feitos pela Prevent Senior com os infectados pelo coronavírus.
Hang e a Prevent Senior negam as acusações.
Análise: Hang não é político, mas CPI será seu maior treinamento
Quem insistiu para que Luciano Hang fosse à CPI foi o relator Renan Calheiros. Calheiros é um cacique político, com muita experiência dentro do Congresso Nacional e não é um político ingênuo: ele sabia que o depoimento de Hang seria um palco para politicagem.
Entretanto, o palco não é só para ele e sim para todo senador que estiver presente na sessão de hoje, inclusive para o relator. A chance de “lacrar” e viralizar na internet, tomando a simpatia de seu eleitorado é o objetivo dos senadores governistas, da oposição e até de Hang, mesmo ainda não sendo um político com P maiúsculo. Por isso, Hang está na CPI, porque os senadores sabem que o depoimento dele terá uma alta audiência e estará nos trend topics do Twitter.
Logo, os parlamentares usarão Hang para terem a chance de fazer belos discursos para serem postados nas redes sociais e iniciarem suas possíveis campanhas para 2022, lembrando que ano que vem tem eleição (ou reeleição) para o Senado.
E Hang irá aproveitar para fazer seu primeiro treinamento dentro do Congresso. Ir à CPI é a chance que o empresário tem de se projetar como um verdadeiro político, agraciando seu público com suas possíveis “lacrações” também e fazendo seu palanque para 2022.
É um jogo de mão dupla – um ajuda o outro.
Claro que há políticos sérios dentro da CPI que estão lá para descobrir verdadeiramente se Hang é culpado pelos crimes os quais o empresário é acusado. Entretanto, até mesmo os políticos sérios precisam saber jogar o jogo político para sobreviver dentro do Congresso Nacional.
