#DeVoltaAoPicadeiro: circos resistem a trágica temporada da pandemia

O ‘maior espetáculo da terra’ retorna, aos poucos, com a missão de levar a alegria à temporada da tristeza no Brasil

Mesmo asfixiados financeiramente pela pandemia, circos tradicionais espalhados pelo Brasil resistem e retomam pouco a pouco suas apresentações, driblando a falta de renda e as novas regras sanitárias.

“Respeitável público! É com grande alegria que iniciamos mais um grande espetáculo! Senhores e senhoras, moças e rapazes, meninos e meninas, sejam todos e todas muito bem-vindos e bem-vindas ao fantástico mundo do circo!”

Tam… tantam… tantam tantam tantam!

Abrem-se as cortinas para o picadeiro dos sobreviventes da arte circense brasileira: bailarinas, equilibristas, contorcionistas, trapezistas, mágicos, palhaços e animadores de plateia. Bilheteiro, sim!

Afinal de contas, só sendo muito artista para se equilibrar na corda bamba da vida, sem poder concorrer com a trágica apresentação do ‘Globo da Morte’ que se transformou todo o planeta pelos incontáveis números de vítimas exibidos pela Covid-19.

“TEM MARMELADA?” NEM ISSO, SENHOR..

Sem espetáculos, os circos ficaram expostos. Sem renda, a arte acabou rifada em nome da dignidade. Quem não foi para o semáforo passou a desfazer da própria fantasia. Teve palhaço que vendeu sapato para comer.

A pandemia deixou muitos circos, literalmente, na lona. O ‘Rakmer’ chegou ao ponto de anunciar o encerramento de suas atividades de passagem por Criciúma (SP). O último espetáculo foi anunciado para o último 27 de março, o Dia do Circo.

As apresentações só retornaram meses depois por conta da generosidade do respeitável público e da reabertura gradual das atividades culturais. O ‘Rakmer’ retomou suas viagens pelos picadeiros de Santa Catarina.

PAUSA PARA O INTERVALO

Em seus 159 anos de existência, o circo Portugal nunca havia ficado inativo por tanto tempo. Depois de um ano e meio, os mastros foram novamente levantados para receber novamente o público, no final de agosto, em Sorocaba (SP).

Por conta da pandemia, que ainda não saiu de cena, o circo precisou limitar a entrada do público a 80% de sua capacidade – apesar do suposto descumprimento de distanciamento, segundo relataram alguns expectadores ao jornal Cruzeiro do Sul.

Ainda em cartaz aos sorocabanos, o circo Portugal tem entre suas principais atrações um ‘King Kong’ gigante e até o ‘lendário’ ‘homem bala’ – algo raro de se ver em espetáculos circenses nos dias de hoje.

ATÉ O TIHANY PAROU

Nem o maior circo da América Latina, o Tihany Spetacular resistiu à crise imposta pela covid. A suspensão das atividades foi anunciada ainda no início da pandemia, em março de 2020, em passagem por Franca (SP).

O que seria uma curtíssima temporada acabou se alongando por tempo indeterminado. Dos 50 artistas, muitos retornaram para seus 25 países de origem à espera do anúncio da retomada dos espetáculos.

A página oficial do circo trazia, pelo menos até a data de publicação deste post, o seu último endereço no Brasil. Exuberante e luxuoso, o Tihany tem no ilusionismo sua principal atração – sim, o ‘mágico’ é o cara do show.

NADA DE MACAQUICES!

Entre os vários artistas sobreviventes citados no começo deste post ficaram de fora aqueles que, ao longo de milênios, estavam contados entre as principais atrações das companhias circenses: os domadores.

A proibição da exibição de bichos nos circos pelo mundo afora praticamente extinguiu a atividade nos espetáculos. O emblemático circo americano Ringling Bros and Barnum & Bailey não resistiu à exclusão de seus elefantes, após 146 anos.

O sumiço, por força de lei, dos animais nos circos brasileiros se deu, sobretudo, após o episódio que ficou conhecido como ‘tragédia do Circo Vostok’. Um garoto de seis anos foi morto por leões, em pleno espetáculo, em 2000, em Pernambuco.

Organizações Não-Governamentais (ONGs) de proteção animal entraram em cena e tiraram de vez a bicharada dos circos. Foi a pá de cal para o icônico mas já decadente Garcia, conhecido por sua grande fauna itinerante, baixar pela última vez a lona, em 2003, após 74 anos, com 21 chimpanzés, quatro tigres e um par de elefantes.

SOBREVIVENTES

Sem a atração animal que por muito tempo levou multidões aos espetáculos, o circo não teve outra alternativa senão a recorrer ao talento humano para se manter relevante frente à concorrência dos entretenimentos tecnológicos da atualidade.

Oficialmente, há 651 circos no Brasil, segundo mapeamento divulgado em julho de 2020 pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cidadania. Entre tantos, há os que atuem com certa originalidade.

É o caso, por exemplo, do Circo Zanni. Sediada sob lonas não itinerantes em Cotia (SP), a trupe une o clássico ao contemporâneo, com peculiar (e raríssimo) acompanhamento de uma banda ao vivo. O ator Domingos Montagner (1962-2016) foi um dos nove fundadores da companhia circense.

Como a pandemia mudou a relação dos circos com o público

Além da queda abrupta de renda, os circos tiveram que repensar toda a forma de se conectar com o público durante os períodos de isolamento mais rígido. Muitas companhias passaram a oferecer apresentações reduzidas em formato de vídeo, disponibilizadas gratuitamente ou por meio de doações voluntárias em plataformas digitais. Essa adaptação, mesmo modesta em termos financeiros, ajudou a manter viva a lembrança do picadeiro entre famílias que não podiam frequentar os espetáculos presenciais.

Outras trupes recorreram a apresentações ao vivo transmitidas por redes sociais, cobrando um valor simbólico de acesso. Essa alternativa, embora distante da magia de assistir ao espetáculo pessoalmente, garantiu um fôlego financeiro mínimo para artistas que ficaram sem qualquer outra fonte de renda durante os meses de fechamento total das atividades circenses.

Auxílios e leis de incentivo à cultura

Parte da sobrevivência dos circos também esteve relacionada ao acesso a políticas públicas de apoio à cultura, como a Lei Aldir Blanc, que destinou recursos emergenciais a trabalhadores e espaços culturais atingidos pela pandemia. Companhias circenses de pequeno porte, sem estrutura jurídica formal, enfrentaram dificuldade para comprovar atividade e acessar esses recursos, o que aprofundou a desigualdade entre os grandes grupos e os artistas itinerantes que vivem de apresentação em apresentação.

Associações de classe, como sindicatos de artistas circenses, atuaram para orientar essas famílias sobre como formalizar documentos e conseguir acesso aos auxílios disponíveis, tanto os de caráter cultural quanto o auxílio emergencial destinado à população em geral.

O que esperar do circo no pós-pandemia

Com a retomada gradual das atividades e o avanço da vacinação, o circo tradicional volta a ocupar praças e terrenos pelo Brasil, ainda que com público reduzido em muitos casos. A expectativa entre os artistas é de que a experiência da pandemia deixe um aprendizado sobre diversificação de renda, unindo o espetáculo presencial a formatos digitais que possam complementar o orçamento das companhias nos períodos de menor movimento.

Circo mais antigo em atividade no Brasil – são mais de 200 anos de história, iniciada na Romênia –, o Stankowich entrega um espetáculo ‘à moda antiga’. Até o circo Vostok retomou sua caminhada. Até esta postagem, encontrava-se em Curitiba (PR).

Ricardo Almeida
Bem-vindo! Sou Ricardo, e neste espaço, minha paixão por futebol, o universo do esporte e as nuances da política se transformam em análises e discussões. Venha falar comigo os temas que moldam o Brasil.
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