As falas de Bolsonaro e Paulo Guedes mostram quais são as políticas econômicas e sociais que o governo oferece aos brasileiros
Presidente chamou quem pede feijão ao invés de fuzil de idiota e ministro questionou qual é o problema de pagar um pouco mais caro na conta de luz. A que ponto chegamos?

A naturalidade com a qual Paulo Guedes indaga, em público, qual é o problema da conta de luz aumentar um pouco, assusta. A gente se pergunta como um Ministro da Economia do Brasil consegue se questionar isso, considerando as diferentes realidades das pessoas nesse país de tamanho continental.
Mas quando, logo depois, vemos o seu chefe, o presidente da República Jair Bolsonaro, afirmando também em público e com tamanha naturalidade, que a pessoa que diz que comprar feijão é mais importante que comprar fuzil, é uma idiota, conseguimos ter noção de como esse governo não está aqui para governar para os brasileiros.
O ministro Paulo Guedes é só uma extensão da política de polêmicas e de conflitos de Jair Bolsonaro.
Falar de inflação, às vezes, pode parecer muito técnico. O mercado e as projeções econômicas são cheias de termos e siglas que podem confundir até quem tem certo conhecimento no assunto. A verdade é que quando lemos sobre taxa selic, alta da inflação e tantas outras expressões utilizadas pelos economistas e especialistas da área, tendemos a nos perder da identificação com o assunto.
Mas não pense que por não saber os termos técnicos, que você, leigo, não entende o que acontece. Você tanto entende, como sente. Ainda mais se você estiver presente na classe média para baixo do Brasil.
Se a alta da conta de luz compromete muito da sua renda mensal, você entende de economia. Se o preço da cesta básica te preocupa e você teve que fazer algumas trocas em sua alimentação, você entende de economia. Se seu poder de compra não contempla o valor do seu salário e você tem que “rebolar” para fazer sua renda durar o mês inteiro, você também entende de economia.
E é justamente por isso que as falas dos nossos representantes atuais não correspondem à realidade da maioria dos brasileiros. Vamos entender o porquê.
RESPONDENDO À PERGUNTA DE PAULO GUEDES
Antes de responder, de fato, a pergunta de Paulo Guedes, vamos verificar alguns números interessantes para entendermos a gravidade da declaração que o ministro deu essa semana.
- R$ 30,9 mil: é o valor do salário do ministro da Economia.
- R$ 7.733: é o valor de auxílio-moradia que Guedes recebe.
- R$ 458: é o quanto ele recebe de auxílio-alimentação.
Agora, uma lei constatada em nossa Constituição Federal:
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
Sem considerar o salário, que já não nos surpreende mais, vamos pegar o quanto Paulo Guedes recebe para comer e morar, sendo que moradia e alimentação, conforme a nossa Constituição, são direitos sociais garantidos, ou seja, todos os brasileiros deveriam ter alimentação e moradia de qualidade, para terem dignidade na vida.
Paulo Guedes, como cidadão brasileiro, também tem esse direito. Entretanto, ele não só tem esse direito, como também recebe muito dinheiro por ele. Só o auxílio-moradia que o ministro recebe é cerca de 7 vezes maior que o salário mínimo recebido pelos brasileiros, que atualmente é de R$ 1.100,00.
Para ficar mais claro: Paulo Guedes recebe, só de auxílio-moradia, o tanto que sete brasileiros recebem para viver o mês inteiro.
É por isso que choca e revolta tanto quando o nosso Ministro da Economia, que deveria estar trabalhando pela economia do nosso país, indaga os brasileiros “qual é o problema de pagar um pouco mais na conta de luz.”
É claro que para Paulo Guedes esse aumento não será significativo em sua renda mensal. Sim, sua conta também ficará mais cara, mas não vai atrapalhar o ministro a comer alimentos de qualidade, por exemplo. E se você que nos lê for da classe média alta para cima, esse aumento também não será significativo. Entretanto, quem está alocado nessa classificação reflete apenas a, aproximadamente, 15% da população brasileira. E o resto?
Bom, o resto precisa sentar com calma e fazer seu orçamento novamente. Diminuir o tempo do chuveiro, desligar as TVs, apagar as luzes como pediu o presidente Bolsonaro e tentar economizar em gastos supérfluos para conseguir pagar os boletos essenciais. Isso em um panorama positivo.
No panorama mais negativo, as famílias de baixa renda, que já pouco recebem, precisam gastar mais com o que eles também já pouco usam. Por terem uma receita menor, as famílias das classes C e D não gastam muito com energia elétrica, não ficam com a TV ligada por horas, por exemplo, porque muitas vezes essas famílias nem têm televisão em casa.
Imagina você manter sua utilização de energia elétrica, que já é pouco e ainda ter que pagar mais caro por ela, interferindo em seus gastos com alimentação e outros gastos essenciais? Lembrando que os salários ou renda de quem está nessa faixa da população não sobra para o lazer ou para poupar em investimentos. Logo, é preciso diminuir o dinheiro do pão, para poder pagar a conta de luz.
E esse é o problema, ministro Paulo Guedes, de aumentar a conta de luz para grande parte dos brasileiros.
RESPONDENDO À AFIRMAÇÃO DE BOLSONARO
Bolsonaro afirmou que quem pede para comprar feijão ao invés de fuzil é idiota. Vamos a mais números para entender a suposta “idiotice.”
- De acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV), o preço do feijão preto aumentou 69% e do feijão carioca, 20%.
- Já a CNN Brasil afirmou que o fuzil está com o preço médio de R$ 8.000,00 em nosso país.
Considerando o nosso já citado salário mínimo, deixo aqui o questionamento: está mais caro comprar um pacote de feijão por semana ou comprar um fuzil?
Bom, a verdade óbvia é que fuzil não enche barriga, arroz e feijão sim. E muitas vezes, arroz e feijão é a única coisa que muitas famílias comem durante a semana. Quando o preço dos alimentos básicos encarecem dessa forma e ainda junta-se a alta do preço da energia elétrica, onde fica a dignidade dessas famílias que precisarão escolher entre comer e ter uma geladeira para conservar seus alimentos?
Esse raciocínio empático de tentar entender como ficará a realidade dessas famílias com a inflação que enfrentamos esse ano, não é muito difícil de se pensar. E não deveria ser difícil assim para um presidente da República. Sendo assim, onde está a suposta “idiotice?”
