Qual a parcela de culpa dos EUA no desastre que ocorre no Afeganistão hoje?
Após a retirada das tropas norte-americanas do país, o grupo terrorista Talibã tomou o Afeganistão, colocando terror na população afegã que, agora, literalmente morre tentando sair do país

Imagens históricas foram divulgadas na manhã de hoje e rodaram o mundo, nos deixando espantados com tamanho desespero. Em Cabul, no Afeganistão, cidadãos afegãos tentavam a todo custo embarcar em um avião das forças aéreas norte-americanas, para fugir da mais antiga/nova realidade: o Talibã tomou o país e agora instaura seu regime baseado na sharia, a lei islã.
Isso aconteceu depois da retirada parcial das tropas estadunidenses do país, que tinham como objetivo afastar o grupo terrorista dos arredores do Afeganistão, para que eles não tomassem o poder novamente e utilizassem o país como centro de treinamento militar para ações contra o ocidente.
Mas o que os EUA estavam fazendo lá? Bom, para quem não se recorda, o exército norte-americano se alocou no Afeganistão após o atentado terrorista do 11 de setembro, já que o Talibã apoiava a Al-Qaeda, que foi o grupo responsável pelo ataque no país americano. Na época, o Afeganistão foi tomado pelo Talibã e o grupo terrorista dominava o país com seus preceitos violentos.
Os EUA foram para o Afeganistão em 2001, logo após o atentado e ficaram lá até os dias atuais. Na época, as tropas americanas conseguiram, em poucas semanas, tirar o Talibã do poder afegão e durante o tempo em que ficou alocado lá, o Afeganistão conseguiu ter um governo no modelo presidencialista, dando uma “falsa sensação” de que o país tinha começado a construir sua democracia, já que essa era a justificativa dada pelos norte-americanos para ficar no país por tanto tempo.
Entretanto, gerir seu próprio país e seus dilemas é uma tarefa extremamente complicada e demanda uma senhora responsabilidade. Imagina gerir dois? Parcialmente, os EUA tinham conseguido afastar o grupo terrorista do Afeganistão e minou a chance de que o país americano tivesse um novo ataque. Porém, ao ir para o país do Oriente Médio, prometendo proteção, os EUA tomaram a responsabilidade por um povo, por uma cultura, por vidas, por histórias e por uma esperança de futuro melhor que os afegãos depositavam na “democracia americana”.
Bom, após 20 anos, a impressão que ficou aos afegãos foi a de que o inevitável destino nas mãos do Talibã só foi adiado.
O Talibã ainda sobrevivia
Apesar de ter tirado o grupo terrorista do poder, os EUA não acabaram com a origem do Talibã. O grupo ainda trabalhava por trás da suposta ordem americana no país, porque sabiam que os Estados Unidos não iriam ficar alocados com suas tropas no Afeganistão para sempre.
Com isso, mesmo abalado pela perda de poder, o grupo foi buscando formas de conseguir financiamento e tinham um argumento forte em suas mãos: muitos países do Oriente Médio são contra o poderio dos Estados Unidos em seus países, interferindo nas suas políticas e formas de viver. Nisso, o Talibã conseguiu convencer países como Paquistão, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar a financiarem seus treinamentos e aquisição de armamento pesado para o caso de confronto direto com o governo afegão e com as tropas norte-americanas.
Além disso, o Talibã conseguiu recursos por meio de atividades ilícitas e uma das que possui mais destaque é o tráfico de drogas. Só no ano passado, foram US$ 416 milhões em ópio, heroína e metanfetamina. O alerta que isso deixa é que, com o grupo no poder, o narcotráfico tende a crescer no mundo e assim, reforçar ainda mais essa mazela social, que dá muito lucro para quem produz e vende.
O Talibã conseguiu, de forma paciente e inteligente, se desenvolver de forma significativa enquanto esperava os EUA saírem de cena. E eles sabiam que isso iria acontecer: nesses 20 anos de tropas americanas no Afeganistão, os Estados Unidos gastaram mais de U$1 trilhão para tentar dar uma vida segura e minimamente digna aos soldados que lá estavam.
Por isso foi tão fácil tomar o país. Em pouquíssimo tempo da retirada parcial das tropas, o grupo terrorista não só conseguiu avançar para áreas de domínio do governo afegão, como também depôs o presidente, que fugiu do país para “não acontecer um derramamento de sangue”. Ashraf Ghani, ex-presidente do Afeganistão, entregou a capital Cabul nas mãos do Talibã e ainda afirmou que agora é responsabilidade dos terroristas zelarem “pela honra, propriedade e autopreservação de seus compatriotas.”
O custo de manter um país que não é seu
Gerir um país como os EUA já é um desafio enorme para qualquer presidente que seja eleito. Por mais capacitado que seja, o presidente precisa ter um jogo político e uma inteligência estratégica muito bem consolidada para dar conta do poderio norte-americano.
Mas agora, imagina ser presidente dos EUA e ainda ter que gerir e manter soldados estadunidenses que necessitam viver em um ambiente de risco, para evitar um novo ataque como o do 11 de setembro e ainda ter que lidar com o povo, a cultura, a política, a vida existente naquele lugar? Era exatamente essa responsabilidade que todos os presidentes pós George Bush queriam evitar ter.
Após a neutralização da ameaça de um novo atentado contra os Estados Unidos, os presidentes que ficaram à frente do país, pós Bush, reavaliaram a necessidade de manter as tropas americanas no Afeganistão. O valor do dinheiro gasto era alto e muitos soldados morreram nesta estadia.
Entretanto, ao ver parte da nação afegã se render ao poderio norte-americano, os EUA começaram a interferir não apenas no combate militar aos grupos terroristas, mas também no domínio territorial e político do país. Os Estados Unidos tinham o posto de “país que tirou o Talibã do Afeganistão” e isso dava a ele um status ainda maior que o próprio presidente do país, já que, segundo muitos analistas, o modelo presidencialista do Afeganistão era um modelo de fachada e isso ficou claro quando Ashraf Ghani fugiu do país. Sem os EUA, o presidencialismo do país afegão caiu em poucos dias.
Logo, com o Afeganistão nas mãos, os EUA tomaram outras frentes e isso foi crucial para manter seu exército lá. Com isso, por mais que as discussões de retirar as tropas americanas fossem cada vez mais presentes entre os presidentes que iam entrando no poder dos Estados Unidos, ainda era uma decisão difícil e que precisava de muita coragem para ser tomada, porque já não havia mais uma previsão de quando seria o melhor momento para que os soldados saíssem de lá.
Em uma primeira instância, pós 11 de setembro, o objetivo inicial era fazer com que os grupos terroristas do Oriente Médio não atacassem o ocidente e mais especificamente os Estados Unidos novamente. O objetivo até foi parcialmente cumprido, mas quando essa ameaça diminuiu, os EUA já tinham outras responsabilidades do povo afegão nas mãos.
O envolvimento geopolítico dos Estados Unidos com o Afeganistão deixou o país norte-americano sem um objetivo específico para que tivesse um momento marcado para retirar as tropas de lá. Em um dado momento, a meta geral girava em torno dos EUA ajudar o Afeganistão a construir sua democracia sem a presença dos grupos terroristas. Mas como se constrói uma democracia em um país? Há uma receita, um passo-a-passo para isso?
Entretanto, mesmo sem cumprir com essa objetivo “democrático”, o ex-presidente norte-americano Donald Trump deu o primeiro passo para retirar as tropas de lá: em 2020, Trump aceitou fazer um acordo de paz com o Talibã, conseguindo, assim, retirar as tropas americanas e de outros países da Otan baseadas no país da Ásia Central dentro de 14 meses.
Porém, quem concretizou o acordo foi o presidente recentemente eleito Joe Biden, que de fato, mandou retirar os soldados de lá. Antes de tomar essa decisão, o democrata tinha a expectativa de ver nas manchetes do mundo todo que a guerra do Afeganistão tinha acabado e os soldados norte-americanos voltaram para a casa, em tom de comemoração. Mas o que o presidente vê nesse momento são afegãos morrendo por tentarem sair do país após a chegada do Talibã, depois que os EUA retiraram suas tropas sem nenhum planejamento e deixaram a população sem perspectiva nenhuma de que o futuro pode reservar boas novas.
Muito criticado pelo mundo todo, Biden agora assume o risco de ver o Talibã se reforçando ainda mais contra o ocidente, já que a China e a Rússia estão tentando ter uma relação amigável com o grupo terrorista e precisa lidar com as consequências mortais de sua ação sob o povo afegão. Ainda assim, o presidente afirmou em pronunciamento oficial que não vai lutar contra uma guerra que o próprio Afeganistão não quer entrar.
Os EUA sabem que fracassaram na missão, só não irão afirmar isso publicamente.
Análise: o timing perfeito do filme Esquadrão Suicida
O que o filme da DC Comics tem a ver com os acontecimentos no Afeganistão? Bom, nada. Mas se você quiser entender o establishment, o modo de fazer estadunidense, com esse filme você consegue ter uma noção maior.
No filme, o esquadrão suicida, um grupo de detentos norte-americanos, lutam contra uma ameaça em Corto Maltese, com o objetivo de destruir Jotunheim, uma prisão e laboratório da era nazista que mantinham presos políticos e conduzia experimentos em humanos, em uma operação chamada Estrela do Mar.
Entretanto, o que o esquadrão não sabia era que o próprio Estados Unidos tinham sido os primeiros responsáveis por conduzir esses experimentos em humanos e utilizou-se do pequeno país para que essas pesquisas não fossem feitas em solo norte-americano. A orientação, além de acabar com a ameaça, era de que os arquivos e documentos fossem destruídos, para que os EUA não fossem descobertos como um dos responsáveis.
Quando conseguiram chegar aos documentos, o esquadrão foi orientado a destruí-lo e que assim que isso acontecesse, poderiam ir embora de Corto Maltese. Porém, a ameaça, que era uma grande estrela do mar que sugava o rosto de humanos, tinha saído da prisão e estava matando a população do país, que dependia, agora, dos super-heróis para salvá-los.
Mas quando ficaram sabendo que os EUA tinham sua parcela de culpa em tudo o que estava acontecendo, o esquadrão decidiu não destruir os documentos e, mesmo contra a orientação dos superiores, ficou para ajudar a população de Corto Maltese a não morrer inteiramente nas mãos da grande estrela do mar.
Se você está por dentro da situação do Afeganistão, fica fácil relacionar a crítica central do filme aos acontecimentos reais do país do Oriente Médio. Os Estados Unidos não ajudaram a acabar com a ameaça do terrorismo. Para isso, era necessário que o país utilizasse seu sistema riquíssimo de inteligência e “seguisse o dinheiro”, famoso follow the money, que financia o Talibã, para que assim, pudesse acabar com o grupo na sua origem.
Entretanto, o que os EUA fizeram foi colocar tropas do seu exército lá para afastar o terrorismo, mas isso não acabou com o Talibã, que se desenvolveu debaixo das asas dos Estados Unidos e ainda conseguiu vencer o grande país, tomando o Afeganistão novamente.
Nesse momento, mesmo sendo responsável pela ameaça que assola o povo afegão, os Estados Unidos se retiram do país como se nada estivesse acontecendo, deixando de assumir sua parcela de culpa por todas as mortes que já ocorreram em decorrência dessa guerra, assim como os superiores do esquadrão quando mandaram os heróis irem embora do país, deixando o monstro acabar com a população de lá.
Contudo, o povo afegão não teve a mesma sorte do povo de Corto Maltese de tudo isso ser apenas um filme de ficção. Para eles, essa ameaça é realidade, tem um nome muito consolidado e infelizmente, não há super heróis para salvá-los. Mas o “modo de fazer” dos EUA é o mesmo no filme e na vida real: eles fazem a bagunça (leia-se merda) fora do país deles e deixam para a população a missão de resolver todos os problemas deixados, se retirando quando a coisa aperta.
