Saúde mental: o salto perfeito de Simone Biles nas Olimpíadas de Tóquio

Ao desistir das provas individuais nas Olimpíadas de Tóquio para cuidar da própria saúde mental, a ginasta Simone Biles reabre o debate sobre pressão psicológica no esporte de alto rendimento.
Principal estrela dos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão, a ginasta estadunidense Simone Biles confirmou nesta terça-feira (27), oficialmente, a desistência de sua participação nas finais individuais de sua modalidade que acontece nesta quinta (29).
Ela já havia se retirado da disputa por equipes por ‘problemas médicos’, segundo informou a Federação Americana de Ginástica. A própria Biles, no entanto, fez questão de esclarecer o assunto. “Quis dar um passo atrás, pensar na minha saúde mental”.
Pentacampeã mundial e atual campeã olímpica – individual, equipe, salto e solo –, Simone Bales preferiu não saltar a possibilidade de se tratar psicologicamente, em pleno auge da carreira, para se manter no pódio de si mesma.
SALTO AO ESTRELATO
Aliás, é no ponto mais alto que a ginasta acostumou-se a ficar desde suas primeiras conquistas mundiais, em 2013. A carreira vencedora e meteórica a alçou ao estrelato individual em Tóquio entre todas as modalidades.
Bales desembarcou na terra do sol nascente com o status de uma ‘deusa olímpica’. Ainda no treino de reconhecimento, surpreendeu até as adversárias – e admiradoras – ao cravar o Yurchenko Double Pike, que só ela faz.
Mas, só foi começar a competir para que Bales começasse a apresentar sua humanidade. Cometeu alguns erros, insuficientes, no entanto, para tirar-lhe da liderança e da decisão na disputa individual.
PROVA DE SOLO
Apesar de sua experiência em competições internacionais – inclusa a espetacular atuação nos Rio-2016 – Bales deu sinais de que não estava bem – nas provas, inicialmente – na competição por equipes, ao ponto de se retirar.
Ao desistir definitivamente de continuar nas Olimpíadas, Simone Bales retomou a posição inicial, no solo de suas emoções, em uma competição contra si mesma, na busca pela medalha dourada da saúde mental.
“A terapia tem ajudado muito, assim como a Medicina. Isso tudo está indo muito bem. Sempre que você entra em situações de alto estresse, você meio que surta e não sabe realmente como lidar com todas essas emoções”, desabafou a atleta.
TEMPO DE RECUPERAÇÃO
Seja um atleta de alto rendimento ou qualquer outra pessoa submetida a situações de intenso estresse, a melhor solução é a busca de especialistas – psiquiatras, terapeutas, coaches – para um tempo de recuperação.
Além das orientações e do uso eventual de medicamentos, é possível iniciar um processo de tratamento mental a partir de atitudes que fazem a diferença na rotina, no corpo e, principalmente, na cabeça. Veja:
1 – Durma. O corpo precisa deste descanso – entre sete a oito horas por dia, em média –, para recuperar as energias e melhorar a memória.
2 – Alimente-se corretamente. A ingestão de legumes, frutas, verduras e grãos fortalece o organismo. A nutrição adequada reduz a fadiga mental.
3 – Exercite-se. Seja pela fisioterapia, caminhada ou atividades mais intensas, mexa-se. O movimento libera hormônios que proporcionam bem-estar.
4 – Divirta-se. Viver é muito mais que trabalhar. Reserve tempo para o lazer, o entretenimento. A sua mente agradece.
5 – Fique off. Em alguns momentos do dia, desconecte-se das redes sociais. Prefira conferir o status da natureza. Contemple a paisagem.
6 – Medite. Sente-se, respire pausadamente e usufrua dos benefícios do equilíbrio e da paz interior. É um elixir para mentes esgotadas.
7 – Organize-se. A ansiedade também é fruto da desorganização pessoal. Saber o que e quando fazer previne o estresse.
8 – Trace metas realistas. Busque agregar propósitos às suas realizações dentro de uma perspectiva de alcance real. Cuidado com as exigências pessoais.
9 – Evite o álcool. Além de prejudicar o sono, a bebida pode tornar-se um vício e agregar mais um fardo mental.
10 – ‘SOS eu’. Não titubeie em pedir ajuda especializada quando perceber não conseguir lidar com a própria mente.
DE VOLTA ÀS VITÓRIAS
O desgaste mental de Simone Bales está longe de ser um caso isolado entre os atletas de alto rendimento – além de tantos outros igualmente acometidos por doenças mentais que afetam e até interrompem carreiras vitoriosas.
Outros atletas que romperam o silêncio sobre saúde mental
A decisão de Simone Biles não é um caso isolado no esporte de alto rendimento. Nos últimos anos, nomes como o nadador Michael Phelps, a tenista Naomi Osaka e o ginasta britânico Max Whitlock também vieram a público falar sobre ansiedade, depressão e a pressão constante de competir em nível olímpico. Essas declarações têm ajudado a reduzir o estigma em torno do tema dentro do universo esportivo, historicamente marcado pela cultura de que o atleta deve competir a qualquer custo.
Organizações esportivas internacionais, incluindo o Comitê Olímpico Internacional, passaram a investir mais em equipes multidisciplinares, formadas por psicólogos e psiquiatras especializados em performance, acompanhando os atletas antes, durante e depois das competições.
O peso da expectativa nas Olimpíadas
Competir representando um país inteiro, muitas vezes como favorito ao pódio, impõe um nível de pressão psicológica que poucas outras atividades profissionais reproduzem. Estudos em psicologia do esporte apontam que essa expectativa constante pode desencadear quadros de ansiedade generalizada, insônia e episódios de bloqueio motor, fenômeno conhecido na ginástica como “the twisties”, no qual o atleta perde temporariamente a noção espacial durante o movimento no ar, o mesmo problema relatado por Biles durante sua participação em Tóquio.
Reconhecer esse tipo de sintoma e buscar apoio especializado, como fez a ginasta americana, tem sido cada vez mais valorizado dentro do próprio esporte, como um gesto de coragem e não de fraqueza.
A boa notícia é que muitos deram a volta por cima e recuperaram o brilho e o desempenho de antes – e até superior – após o acompanhamento adequado de especialistas e o apoio de amigos e familiares.Foi pela recuperação mental que o mundo pôde aplaudir novamente o nadador multicampeão Michael Phelps, o ginasta Diego Hypolito, a judoca Rafaela Silva e a corredora English Gardner, entre vários outros, voltaram ao pódio de si mesmo e de suas modalidades.
