Imagina se tivesse investimento?
Brasil chega às Olimpíadas se destacando em modalidades coletivas e individuais, mostrando que o dom e o talento ainda sobrevive, mesmo sem investimentos estratégicos para o esporte no país

Me recordo das minhas aulas de educação física no ensino fundamental e médio, em escolas públicas, que basicamente eram dar a bola de vôlei e de futebol para que os alunos se organizassem e escolhessem o que iriam jogar. Geralmente, os meninos escolhiam o futebol e as meninas o vôlei, isso quando muitos simplesmente sentavam e ficavam conversando durante a aula, sem praticar nenhum esporte.
Basicamente, não havia aula. Não tinha uma metodologia, um estudo sobre os esportes ou as boas consequências que a prática aliada à ciência traz para os pequenos atletas.
Não culpo o professor ou a escola, mas sim o sistema. Todo professor que se forma em educação física tem noção da importância da sua profissão para o todo: um jovem bem instruído no esporte, além de cuidar de sua saúde em um todo, corpo e mente, ainda se ocupa com algo que pode transformar a vida dele para melhor, evitando que ele se envolva com as mazelas sociais que nos rondam, como o contato com as drogas, a sexualidade sendo explorada de forma errônea e precoce, o sedentarismo e vício nas telas digitais.
A escola em si, quando pública, pouco tem o treinamento e o investimento para criar estratégias baseadas na ciência para cativar e instigar aquele aluno a se manter no mundo do esporte. Sem essa estrutura, o professor, por mais que seja bem capacitado, não consegue trabalhar da forma que deveria.
Já o sistema fomenta essa falta. O governo, e aqui não separo em governo atual ou passado, não investe em educação básica. Durante os governos PT, a prioridade sempre foi investir na educação superior, como construções de universidades e programas de investimento para alunos que se destacam, como o Ciências sem Fronteiras, por exemplo.
Na educação básica, o governo Bolsonaro levou o posto de governo que menos investiu nesse quesito em 2020. Segundo o 6º Relatório Bimestral Execução Orçamentária do Ministério da Educação, em 2020 o MEC gastou R$ 42,8 bilhões de dotação, 10,2% menos em comparação com 2019, concluindo que o investimento foi o menor desde 2010.
Além disso, quem não se recorda de quando, em 2017, o presidente Michel Temer sugeriu a reforma do Ensino Médio, categorizando a disciplina de educação física como uma disciplina não obrigatória?
Sem esse investimento em educação básica, não há investimento no esporte nas escolas. E é a base que precisa de uma maior atenção, para que esses alunos sejam futuros atletas que darão orgulho e retorno ao Brasil.
Agora nas Olimpíadas de Tóquio, é fácil perceber que os atletas brasileiros se destacam na maioria das modalidades. O orgulho que todos nós sentimos da atleta de 13 anos, Rayssa Leal, no skate, quando ganhou a medalha de prata, ou na emoção que foi ver Ítalo Ferreira conquistando o ouro no surf, mostram que o Brasil tem atletas de ponta espalhados por aí. Mas poucos têm a sorte do investimento privado que ameniza a falta que o estado faz para os atletas brasileiros.
A prioridade é o esporte de alta performance
Quando o Brasil sediou as Olimpíadas de 2016, no Rio, o governo investiu mais de 24 bilhões para fazer o evento acontecer da forma que foi. Para muitos especialistas e amantes do esporte, esse desprendimento significativo de verba foi um marco para o esporte no Brasil. Segundo eles, a partir daquele momento, a expectativa era a de que o Estado brasileiro iria investir mais ainda nos vários âmbitos do esporte, desde o básico às categorias mais superiores.
Mas não foi isso que aconteceu. Assim que a pira olímpica se apagou no Rio de Janeiro, se apagou com ela a expectativa de maiores investimentos no esporte. O Brasil voltou com a política de um maior investimento apenas nos esportes de alta performance, deixando o básico de lado. Segundo a Agência Senado, entre os anos de 2010 e 2014, em que o país sediaria os grandes eventos esportivos, o Brasil gastou R$ 7,7 bilhões no esporte de alto rendimento.
O investimento nesse tipo de esporte tem um objetivo específico: quanto mais visada for a modalidade, como o futebol, vôlei ou basquete, mais rápido será o retorno financeiro. Entretanto, o Estado brasileiro não pensa nos investimentos a longo prazo em esportes que o Brasil também tem atletas de ponta e que poderiam dar o mesmo nível de retorno.
Hoje em dia, nem ao menos temos um Ministério do Esporte. Com uma política de “corte de gastos com ministérios”, Bolsonaro transformou o Ministério do Esporte em uma secretaria especial alocada no Ministério da Cidadania. Essa mudança representa e reflete no baixo investimento do esporte. Na proposta de Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2020 enviada ao Congresso Nacional, Bolsonaro propôs que o investimento no esporte fosse de R$ 220 milhões, praticamente metade dos R$ 431 milhões que propôs o ex-presidente Michel Temer na LOA de 2019.

Esse investimento também foi cortado, inclusive, de atletas militares. De acordo com a FolhaPress, o investimento do governo federal em infraestrutura e viagens destinadas aos atletas militares caiu de R$ 10 milhões, em 2019, para R$ 600 mil em 2020, apresentando um decréscimo de 94% no primeiro orçamento sob a presidência de Jair Bolsonaro.
Sem um Ministério que os represente dentro do governo federal, os atletas perdem a referência de onde buscar ajuda para seu desenvolvimento e essa “cultura” de se investir majoritariamente em esportistas de alta performance para representar o Brasil em eventos esportivos mundiais, conta apenas com o talento e dom que eles têm para passarem por toda a dificuldade que uma trajetória sem insumos financeiros e apoio governamental acarreta, para enfim, conseguirem se destacar e levar o nome do Brasil longe.
